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Política

PCP centra tudo em Jerónimo

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Marcos Borga

Colagem do PS à coligação é uma das principais estratégias, numa campanha em versão light para poupar o líder

No porto de pesca de Sesimbra, onde a comitiva da CDU passou a manhã de quinta-feira, Jerónimo de Sousa joga em casa. Num município liderado pela coligação formada pelo PCP e pelo partido ecologista Os Verdes, não faltaram incentivos dos homens de sorriso amigável e rostos queimados pelo sol.

“Avante!”, diziam-lhe, à passagem, alguns pescadores, muitos vestidos com t-shirts da CDU. Quando o secretário-geral comunista chegou, já o sol ia alto e os barcos há muito tinham chegado do mar. Em terra sobravam redes vazias e muitas queixas relativas ao peixe que já não se pode pescar.

A ação de campanha serviu para Jerónimo de Sousa denunciar as “quotas draconianas impostas a Portugal”, mais um exemplo das “políticas cegas de Bruxelas”, um tema caro aos comunistas nesta campanha. “A União Europeia impõe-nos limitações sem ter em conta a nossa realidade”, acusou em Sesimbra o secretário-geral do PCP, que na noite anterior, no debate televisivo com António Costa, já reiterara a necessidade de Portugal equacionar a saída do euro.

A posição quanto à moeda única é, aliás, “uma divergência de fundo” relativamente ao PS. Apesar de o frente a frente de quarta-feira com António Costa ter sido parco em “crispação e conflitualidade verbal” — “não fui ali para terçar armas”, explicou Jerónimo —, o secretário-geral dos comunistas fez questão de sublinhar em Sesimbra que as diferenças face aos socialistas mantêm-se e não se esgotam na questão da UE. “Temos divergências em relação à Taxa Social Única e também em relação à Segurança Social. As propostas do PS não divergem muito das da coligação”, frisou.

Essa tem sido, aliás, uma das ideias mais sublinhadas pela CDU nesta campanha. A última sondagem é francamente positiva para os comunistas, que reúnem 10,3% das intenções de voto e têm a possibilidade de ultrapassar 20 deputados, o melhor resultado desde 1987, mas o voto útil é uma ameaça. Por isso, a colagem do PS à coligação PSD/CDS-PP tem sido uma das principais estratégias de Jerónimo. “É a mesma matriz, com pequenas variações, remendos de uns e de outros, que seguem a mesma velha política em direção ao abismo e ao empobrecimento”, acusou quinta-feira à noite o secretário-geral do PCP, num comício na Marinha Grande.

Apesar de frisar que o principal adversário da CDU não é o PS, mas as políticas de direita, Jerónimo aproveita a questão dos jornalistas para mais uma bicada aos socialistas. “Quando nos acusam de criticar sobretudo o PS e não tanto a coligação, é caso para perguntar onde esteve o PS nos últimos quatro anos. Quem é que combateu a política do Governo? O PS esteve ausente. Deixou-nos sozinhos, com os trabalhadores”, disse.

Campanha de um homem só

Jerónimo, Jerónimo, Jerónimo. A campanha da CDU não é feita de mais ninguém. O secretário-geral é um líder simpático, com capacidade para captar votos para lá do eleitorado tradicional e fiel do Partido Comunista. O PCP tem consciência desta mais-valia, pelo que centra a campanha exclusivamente nas ações em que Jerónimo de Sousa está presente. Não há campanha sem o líder.

Mas o trunfo tem um custo, que se tornou visível ainda na pré-campanha: Jerónimo tem 68 anos e há um mês que anda na estrada. O cansaço já pesa, e isso obriga a máquina da CDU a protegê-lo, reduzindo substancialmente o ritmo e o número das iniciativas de propaganda eleitoral.

Nas próximas duas semanas de campanha — que arranca oficialmente amanhã com um comício no Coliseu dos Recreios, em Lisboa — praticamente não haverá ações na parte da manhã. E a agenda mais intensa tem apenas três atividades diárias, um número muito reduzido relativamente ao registado em anteriores campanhas e ao promovido pelos adversários. Parece claro que estas poderão ser as últimas eleições legislativas de Jerónimo de Sousa como secretário-geral.