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Jerónimo de Sousa: “A escolha é entre manter a austeridade ou apostar na mudança”

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Marcha e comício da CDU marcado pelas questões do emprego, segurança social e distribuição da riqueza

No próximo dia 4 de outubro os portugueses vão estar confrontados com uma de duas hipóteses. Ou optam por manter o caminho da austeridade, com diferentes cambiantes, ou decidem apostar na mudança.Esta foi uma das teses centrais de Jerónimo de Sousa no comício que, esta tarde realizado frente à estação de S. Bento, culminou a marcha iniciada na Praça da Batalha.

Sob um sol inclemente, o secretário-geral do PCP, ao explorar os dilemas colocados aos eleitores, tentou dar ainda mais força ao seu argumento quando frisou que “quantos mais deputados e votos tiver a CDU”, menos espaço terão PSD/CDS e PS para prosseguir o que já antes classificara como simples alternância. O “caminho novo protagonizado pela CDU, com uma política patriótica e de esquerda”, aponta “no sentido da mudança”.

Após uma marcha pela baixa da cidade, com inúmeros cartazes alusivos às grandes bandeiras da CDU, como a defesa da escola pública, o combate à corrupção, a defesa do Serviço Nacional de Saúde, o aumento da produtividade, Jerónimo encerrou o ciclo de intervenções.

Começou com um toque de emoção na voz. As primeiras palavras foram para evocar um acontecimento ocorrido há 33 anos, no dia 1 de maio de 1982, no exato local onde decorria o comício. Na sequência de uma noite sangrenta, marcada por violentas cargas da polícia de choque dirigidas contra sindicalistas da CGTP, morreu ali, baleado, o delegado sindical e militante do PCP Pedro Manuel Sarmento Vieira, operário têxtil de 24 anos. A outra vítima mortal foi o adolescente Mário Emílio Pereira Gonçalves, de 17 anos.

Bipolarização condiciona voto

Numa intervenção destinada a combater diferentes “mistificações”, como as apelidou, Jerónimo começou por situar os termos e os limites da eleição de 4 de outubro ao referir que não se trata de escolher nenhum Primeiro Ministro, mas sim 230 deputados que irão constituir a Assembleia da República de onde emanará um novo governo. Daí a condenação dos “cenários de bipolarização, como se só existissem PS e PSD/CDS”, através dos quais se procura condicionar a opção livre dos portugueses.

Já antes, a meio da marcha, numa breve conversa com os jornalistas, Jerónimo deixara o apelo: “deixem os portugueses decidir livremente sem serem condicionados por essa bipolarização criada artificialmente”.

Tal como o fez depois no comício, não deixou de chamar o Presidente da República à colação, até pela principal notícia de hoje do Expresso sobre o que possa ser a escolha de Cavaco para a formação de governo. O secretário-geral do PCP vê “uma mãozinha do atual P.R., que vem tentar pressionar os portugueses no seu voto”.

Os portugueses, acentua Jerónimo, devem escolher em função das suas vidas e da sua memória. Isso significa não esquecer “os cortes nos salários e nas pensões, a situação dos milhares de jovens que tiveram de emigrar, a diminuição de postos de trabalho e de emprego, criando desemprego e precariedade, o brutal aumento da carga fiscal, o servilismo perante a UE, ou a aceitação do Pacto” que trouxe a Troika para Portugal.

O PSD/CDS, prosseguiu, propõe-se continuar o mesmo caminho, embora “apresentem coisas novas, como o corte de €600 milhões nas prestações sociais, que querem esconder”. Quanto ao PS, avança com “a ideia peregrina de penalizar os que recebem apoios sociais através da condição de recurso”. Não dizem, um e outro, considera Jerónimo de Sousa, “que querem congelar as reformas durante mais quatro anos”.

Mais emprego para defender Segurança Social

Atacadas as propostas de plafonamento na Segurança Social, sejam do PSD/CDS, sejam do PS, o cabeça de lista da CDU por Lisboa centrou-se nas questões do emprego para sublinhar que “criar mais emprego é a questão de fundo da Segurança Social”.

Logo de seguida veio a reflexão sobre o modo como têm vindo a ser violentados e destruídos os direitos dos trabalhadores, com atribuição de grande responsabilidade à coligação governamental, sem deixar, porém, de referir “que foi no governo do PS que se assistiu à maior ofensiva” contra aqueles direitos.

O PS, concluiu, “pode ser de esquerda, mas ao longo da história os partidos de esquerda sempre defenderam os direitos dos trabalhadores, enquanto o PS renegou esse passado e ataca os direitos de quem trabalha”.

Como que em despedida, Jerónimo quis deixar um implícito apelo ao voto ao frisar que “quanto mais força tiver a CDU, mais garantias teremos de que, quando a luta se travar, lá estará a força da CDU, do lado certo, do lado de quem trabalha, do lado da juventude, do lado das mulheres, porque honraremos sempre o comício feito”.

Estava já distante o início da marcha. Começavam os cânticos de despedida. Entoados em coro. Não passavam despercebidos aos muitos turistas que sempre abundam na zona. Não ficavam abafados pela passagem de uma multidão, como a discreta homenagem feita por um cego habitualmente sentado no cruzamento da rua de Stª Catarina com a rua Formosa. Toca concertina. À passagem da caravana da CDU decidiu tocar o “Avante Camarada”, hino do PCP. Quase ninguém ouviu. Quase ninguém se apercebeu.