Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

Portas debateu com Apolónia mas atirou a Costa: “desespero” e “radicalismo”

  • 333

MIGUEL A. LOPES/LUSA

No frente-a-frente com a líder do PEV, o primeiro alvo de Portas foi o secretário-geral do PS. Discussão aqueceu sobre saída do euro, nacionalizações e estágios profissionais

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Houve dois debates no debate desta sexta-feira entre Paulo Portas e Heloísa Apolónia. Um mais curto, mas que aconteceu primeiro, entre o líder do CDS e um ausente – o secretário-geral do PS, António Costa, que foi o alvo prioritário de Portas. O outro debate, mais longo, veio a seguir e foi, então sim, entre o vice-primeiro-ministro e a interlocutora que tinha pela frente.

“Debate 1”: Portas acusa Costa de desespero

O frente-a-frente com António Costa era o que Paulo Portas mais gostaria de ter feito – não aconteceu, mas as declarações do líder socialista, ao início do dia, na Antena 1, deram ao nº2 da coligação o pretexto para apontar ao PS.

Entrevistado na rádio pública, Costa disse que, caso a coligação Portugal à Frente (PàF) vença as eleições, o PS chumbará o Orçamento que venha a ser apresentado. Na noite anterior, o socialista tinha feito umas referências ao percurso profissional de Passos Coelho em “empresas de objecto social obscuro”.

Portas olhou para as 24 horas de Costa após o debate com Passos nas rádios e tirou uma conclusão: “O desespero nunca foi bom conselheiro. O secretário-geral do PS, depois do debate nas rádios, decidiu sob várias formas radicalizar”.

Para o líder centrista, o chumbo pré-anunciado do próximo OE, caso a coligação seja governo, é o maior sinal dessa radicalização. “As pessoas não estão nessa atitude nem esperam de um candidato a primeiro-ministro que diga que se não ganhar as eleições vota contra um orçamento que não conhece.”

Questionado sobre o que fará Portas caso seja o PS a vencer as eleições e a apresentar o orçamento, garantiu que nunca anunciaria o voto contra um documento que não viu. “Acho que isso é um sintoma de radicalismo.”

Segundo o presidente do CDS, este carregar de tom por parte de Costa é “uma tentativa de distrair atenções”, depois do debate nas rádios em que terá ficado à vista “um problema sério do PS na área das pensões”.

“Posso compreender que o PEV, que é anti-euro, diga que votará contra um OE que respeita as regras do euro. Acho mais difícil que o PS, que é do arco da governação, vá por esse caminho”, acrescentou Portas, antecipando o que viria a seguir.

Colocada perante a mesma pergunta – como votará um eventual orçamento apresentado pela coligação - Heloísa Apolónia deu uma resposta à Portas: “Não posso ditar um sentido de voto em relação a um OE que não conheço”.

Mas também lembrou o histórico dos orçamentos da coligação, nomeadamente os aumentos de impostos e os chumbos do TC, e daí retirou que “há coisas que se podem adivinhar”, nomeadamente a “manutenção de carga pesada sobre as famílias”.

“Debate 2”: uma noite difícil para Heloísa

O debate era inédito – Heloísa Apolónia contra Paulo Portas; PEV contra CDS -, numa espécie de campeonato júnior das duas grandes coligações que vão a votos, CDU e Portugal à Frente (PàF).

Nenhum disputa eleitorado diretamente ao outro, o que terá ajudado a que o debate tenha sido talvez o mais aberto e menos calculista de todos – e, também por isso, um dos melhores destas legislativas.

Discutiu-se a saída do euro, o modelo económico para o país, privatizações e nacionalizações, emprego. No geral, não foi uma noite fácil para a líder d’Os Verdes, que foi confrontada por Portas com questões que ou não estava à espera, ou não quis responder.

Já Portas foi respondendo aos ataques de Apolónia repetindo o seu guião, fosse sobre a sua “demissão irrevogável”, os quatro anos de austeridade ou a fragilidade da retoma económica.

A seu favor, o vice-primeiro-ministro tinha a notícia da tarde, a revisão em alta do rating da República pela Standard & Poors. “É um sinal bom para Portugal, porque facilita o financiamento das empresas”, afirmou, notando que “é a primeira vez que as agências de notação fazem uma alteração relativamente ao rating português, portanto, eu não desvalorizaria”.

Apolónia fez isso mesmo: desvalorizou. “Esta coligação tem uma matriz: pôr no centro da governação o sistema financeiro e os grandes interesses económicos”, acusou a deputada d’Os Verdes, advogando a preparação da saída de Portugal do euro. “Seria irresponsável não começarmos a preparar essa decisão”, defendeu.

Portas perguntou-lhe pelos custos que teria essa decisão. “Eu não estou a dizer que não tem custos, mas vou dizer que custos teve a nossa entrada no euro”, respondeu Heloísa. “Porque é que acha que no momento da verdade o PM da Grécia acabou por escolher ficar no euro?”, voltou a questionar Portas, traçando um cenário negro “desastroso” caso essa decisão fosse adotada.

Ponto seguinte levantado por Portas no “mundo imaginado pelo PEV”: a nacionalização de sectores estratégicos. “Tem um custo”, “faça as contas, senhora deputada”. Heloísa não fez, o vice-PM fez por ela.

Pelas suas contas, a nacionalização da banca e dos sectores energéticos custaria no total 27 a 28 mil milhões de euros. “É um ano inteiro de IVA e de IRS, todos os impostos das pessoas aplicado num tributo ideológico. É uma barbaridade”, insistiu Portas.

Quando Heloísa traçou o panorama do desemprego e da emigração, o líder do CDS lançou o terceiro ataque à dirigente da CDU, que acabara de criticar os estágios profissionais, por mascararem os dados sobre o desempego: mostrou um mapa do país, onde estavam assinaladas 24 autarquias governadas pela CDU.

“24 das 34 câmaras governadas pela CDU têm estágios ao abrigo da Garantia Jovem. Quando o Estado faz são maus, quando são as câmaras são bons?”, questionou Portas, perante uma oponente já com pouca capacidade de reacção.

Heloísa Apolónia acusou Portas de tentar “dourar a situação do país” e a “calamidade que trouxeram à vida dos portugueses”. “Enganaram os portugueses e agora procuram mistificar a realidade”. Mas sobre os estágios nas autarquias comunistas, apenas alegou que “não vale a pena misturar política autárquica” no debate. Mas o efeito estava alcançado.