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Eles mudaram ou nem por isso por estarem a debater na rádio e não na TV?

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José Carlos Carvalho

Três professores universitários ouvidos pelo Expresso falam num frente a frente com algumas nuances a nível mediático, em que Passos Coelho e António Costa falaram para serem vistos e ouvidos

Como avalia o debate entre Passos Coelho e António Costa quem apenas o ouviu na rádio? Neste caso, pormenores como a cor da gravata ou as expressões dos rostos passam despercebidos aos ouvintes. Mas, por outro lado, a força e a entoação das palavras ganham importância redobrada. A diferença é que o debate que foi transmitido esta quinta-feira por três rádios - Renascença, TSF e Antena 1 - também foi filmado e pôde ser seguido em direto online. Neste plano, pouca coisa mudou, segundo três docentes ouvidos pelo Expresso.

Na opinião Luís Santos, professor da Universidade do Minho., ambos os candidatos mostraram estar bem preparados e utilizaram um discurso que teve em conta os ouvintes da rádio e os telespectadores da televisão, uma vez que o debate seria transmitido à noite, na íntegra, nas televisões.

“Um detalhe que achei curioso foi, por um lado, ambos os candidatos usarem expressões próprias para quem está a ser filmado, ao fazerem referência do género: 'Tenho aqui estes papéis’. Imagino que tenham sido influenciados pelo facto de estarem com câmaras de televisão à sua frente. Mesmo inconscientemente, isso tem influência no seu discurso”, realça Luís Santos.

Dentro da coloquialidade do discurso de Passos e Costa, houve, na opinião de Luís Santos, expressões que se destacaram, tendo como objetivo a aproximação do público em geral. “Exemplos disso foi Passos ter dito 'comemos com o resgate' ou António Costa ter afirmado 'É preciso ter lata.”

Debate “mais embrulhado”

Do ponto de vista da dinâmica, o professor da Universidade do Minho considera, contudo, que este foi um debate um pouco mais “embrulhado” face ao anterior, apesar da gestão menos rígida do tempo por parte dos moderadores.

Para Gustavo Cardoso, professor do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e Empresa, o meio da rádio condiciona claramente a avaliação deste debate. No entanto, considera que a perceção geral dos eleitores não deverá mudar face a este duelo, uma vez que ainda têm em mente o anterior confronto.

“Como é apenas a voz que predomina, isso cria na audiência um tipo de perceções diferentes, quando alguém se irrita parece mais irritado, quem está mais confiante parece mais confiante. Na rádio, somos obrigados a imaginar cada pessoa e completamos a informação com as ideias que temos. Neste caso, por exemplo, quem ouviu agora tomou também posição a partir da memória do debate anterior”, defende.

Do ponto de vista do conteúdo, Gustavo Cardoso acredita que Costa assumiu mais um “papel de estadista” embalado pela vantagem no duelo anterior, tentando Passos, neste debate, conseguir vantagem. “Pedro Passos Coelho utilizou essencialmente a ideia do medo: 'votem em mim para ser salvos' e Costa insistiu na ideia da indignação. Temos que penalizar, se há indignação há que ser consistente. Duas ideias fortes que tanto na televisão como na rádio funcionam”, observa.

Opinião dos eleitores não deverá mudar

De acordo com Gustavo Cardoso, mesmo os cidadãos que só visualizaram o debate à noite, através das televisões, difícilmente mudaram de opinião, uma vez que neste curto espaço de tempo “não aconteceu nada de fulminante” face ao anterior frente a frente. Ou seja, a perceção do anterior duelo ainda está retida na mente de todos.

Também Adelino Maltez sustenta que este último debate entre os dois candidatos a primeiro-ministro não trouxe praticamente nada de novo. “Este frente-a-frente foi mais do mesmo. Manteve-se a tática dos dois concorrentes”, afirma o professor do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas.

Muita racionalização e demagogia

Adelino Maltez lamenta que os dois candidatos tenham repetido até a exaustão os seus habituais argumentos, sem se mostrarem mais emotivos, tanto no debate da rádio como no televisivo. “Houve excesso de racionalização, ninguém mostrou o coração. As tiradas demagógicas foram demasiadas, quer na televisão, quer na rádio”, sublinha o docente de Ciência Política.

Na visão do politólogo, no que toca à questão europeia, por exemplo, tanto Passos como Costa foram “politicamente corretos” nos seus argumentos neste último debate. “Os elementos dramáticos foram claramente suprimidos como se se tratasse de uma máquina de planeamento. Não se falou de pobreza, nem de sofrimento. E a Europa precisa de líderes com sensibilidade e outras qualidades para o nosso futuro”, conclui.