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“Calem-me esse filho da…!” As primeiras palavras de Mário Soares num comício no Tramagal

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A arrancada presidencial de Soares em 1985 foi tudo menos fácil. Impopular, com o partido dividido, Freitas à direita, o PRD à perna e o PCP visceralmente contra, Soares teve uma campanha muito difícil como este exemplo mostra. A menos de um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o 14º capítulo

Henrique Monteiro

Henrique Monteiro

Redator Principal

Alguém imagina como foi a primeira volta da candidatura de Soares a Presidente em 1986? Penso que quase ninguém! O histórico socialista tinha deixado o Governo, depois de uma intervenção do FMI e o país estava cheio de chagas sociais. O Bispo de Setúbal, Dom Manuel Martins, conhecido pelo ‘Bispo vermelho’ referia os casos de fome no seu distrito, ou Diocese. A CGTP clamava contra os salários em atraso, que era o pão de cada dia. O PCP tinha prometido jamais votar em Soares, por ele ser um reacionário consumado (na verdade, entre a primeira e a segunda volta, fez um congresso extraordinário e apelou ao voto nele contra o candidato da direita, Freitas do Amaral, apoiado por Cavaco Silva – o mal de se ser velho é que se já viu muita coisa).

Soares partira para as presidenciais depois da mais monumental derrota do PS, que tivera pouco mais de 20 por cento, contra 29% do PSD e 18% do PRD um partido formado por apoiantes do Presidente da República cessante, Ramalho Eanes (parece-vos outro país? Mas é o mesmo e os nomes ainda andam por aí). As sondagens para as presidenciais davam-lhe oito por cento, atrás dos dois outros competidores de esquerda, infelizmente já ambos falecidos: Maria de Lurdes Pintasilgo, apoiada por independentes e pela extrema-esquerda (o que será hoje o Bloco; o seu chefe de campanha é o número um das listas de Marinho e Pinto por Lisboa, o capitão de Abril Rodrigo Sousa e Castro); e Francisco Salgado Zenha, fundador do PS e ex-número dois de Soares, apoiado pelo PRD de Eanes, pelo PCP e disfarçadamente por muitos socialistas (Soares tinha o apoio de membros do PSD descontentes com a escolha de Freitas por ser muito à direita – juro! – como Helena Roseta, Rui Oliveira e Costa, Fraústo da Silva, Alfredo de Sousa, ou Rogério Martins).

Bom, este era o quadro.

Soares, em plena campanha, passa pelo Tramagal, sede da Metalúrgica Duarte Ferreira onde havia, desde 1984, constantemente salários em atraso (a empresa, que remontava a 1923 e mantinha o nome desde 1947, seria extinta em 1995). À sua espera, diante de uma camioneta de caixa aberta que serviria de palco, estariam 20 ou 30 pessoas. Não mais. O resto da terra era basicamente afeta ao PCP.

Soares saiu da sua viatura um pouco antes do palco improvisado e, atrás dele, a uns metros de distância, um homem grita-lhe: “Malandro! Traidor! Paga o que deves! Salários em atraso! Miséria!”.

O candidato não lhe liga e segue o seu caminho, mas o homem não desiste e continua com os impropérios, talvez misturando uns palavrões.

Soares sobe à camioneta e dirige-se ao microfone. O homem coloca-se por detrás do veículo e continua a ladainha: “Salários em atraso - malandro! Paga o que deves!”.

Nisto, Soares olha para o lado e pede a um assessor, no seu melhor vernáculo: “Calem-me esse filho da puta!”.

Mas o microfone estava aberto e estas foram as suas primeiras palavras no Tramagal.

O que para outros seria uma tragédia, para Soares não passou de um pequeno episódio. Ao fim do comício, estava animado e pronto para partir para outra.

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