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Política

Falar baixo para ser ouvido... e ganhar

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Tiago Miranda

Os eleitores podem ter muitas dúvidas. Se acreditam nas promessas. Se votam ou se se abstêm. Se preferem o voto útil ou o voto de protesto. Mas não podem ter dúvidas sobre duas coisas: que as políticas da coligação e do PS são diferentes; e, sobretudo, que há dois candidatos a primeiro-ministro completamente diferentes um do outro. Isso (ou)viu-se no debate radiofónico desta quinta-feira. Porque Passos fala a partir de uma visão económica da política. E Costa fala a partir de uma visão política da economia. Desta vez, Passos ganhou

O segundo debate foi menos histriónico que o primeiro e, talvez precisamente por isso, foi mais claro, porque detalhado. Não houve Sócrates, o que foi um alívio. Houve colagem e descolagem do PS em relação ao Syriza, mas só de raspão. Costa quis explorar o ponto fraco de Passos e irritá-lo. Mas foi Passos quem encontrou o ponto fraco de Costa. Não Sócrates. Não a Grécia. Mas conhecer mal as propostas económicas apresentadas pelo PS. Isso tornou-se especialmente evidente na explicação das prestações sociais em que o PS quer cortar mil milhões de euros: Costa não conseguiu dizer quais são. São sobretudo as pensões mínimas. O embaraço foi indisfarçável. Os mil milhões de cortes do PS nas prestações em 2015 soaram aos mil milhões de gorduras do PSD em 2011. Vagos. Imprecisos. Uma ideia em vez de uma decisão.

A explicação está no facto de o programa económico do PS não ser de António Costa, mas de Mário Centeno. Mas não só: o programa económico do PS é muito detalhado em termos macroeconómicos e incrivelmente específico na listagem dos efeitos financeiros nas contas do Estado de cada medida. Mas não detalha muitas das medidas. São títulos de folhas em branco.

Foi esse o ataque de Passos, que aliás foi laborioso em vez de repentino. A discussão sobre a Câmara Municipal de Lisboa, por exemplo. Não foi uma discussão sobre Lisboa: foi a tentativa do PSD mostrar se Costa cumpre ou não promessas eleitorais; e de desarmadilhar a postura de Costa enquanto político que consegue reduzir a dívida. Conseguiu, de facto, em Lisboa: com a "receita" extraordinária da venda dos terrenos do aeroporto da Portela (que na verdade nem foi receita, mas assunção de dívida). Não há mal nenhum nisso. Mas não faz de Costa o gestor exemplar de dívida que se insinua.

Um debate na rádio é diferente de um debate na televisão. Eu fiz questão de ouvir em direto – e escrevo estas linhas sem ainda ter visto em diferido. Neste caso específico, o debate formalmente foi melhor e isso também há de ter tido a ver com ser rádio em vez de TV. O tempo da rádio é até feito de compassos mais curtos mas menos é ávido. E ficamos ligado à mensagem pelo fio da voz.

A voz de Costa é mais tonitruante, e foi com ela que o secretário geral do PS tentou descadeirar Passos Coelho da sua pose habitualmente contraída e controlada, tentando irritá-lo com pequenas provocações, com os “eu sei que tem de ser embirrento”, os “é preciso muita lata”, os “não se irrite”. Quase conseguiu. Não conseguiu. Irritante acabou por ser Costa.

Não houve grandes novidades no debate, mas houve clarificação (mais do que esclarecimento) das propostas políticas. Passos Coelho é previsível, não propõe praticamente nada a não ser a continuidade do que fez. O programa eleitoral do PSD é o PEC apresentado em Bruxelas meses antes. O PS sim, tem programa. Que o líder conhece mal.

Deixemos os parêntesis dos debates: se foi o PS que trouxe a troika (e foi), se foi o PSD que cavalgou a austeridade (e foi), se Passos quer privatizar (e quer), se a dívida pública derrapou face às previsões de 2011 (e derrapou), se é difícil que o défice fique este ano abaixo dos 3% (e é), se Costa faz mais despesa (e faz). Foquemo-nos em três aspetos concretos do debate. Emprego, impostos, segurança social.

Passos Coelho anunciou paz para a legislação laboral: não vai flexibilizar mais os despedimentos, por exemplo. Desistiu disso, dirão os liberais. Ainda bem, pensará a esquerda. E assim a forma de a coligação de direita aumentar o emprego é esperar para ver. Esperar para ver a retoma e as reformas feitas no passado produzir os seus efeitos; esperar para ver os estágios apoiados pelo Estado evoluírem para relações laborais subsequentes. António Costa pensa outra coisa: que é contra a competitividade pela redução do custo de trabalho, que a redução do IVA da restauração servirá “para pessoas da nossa geração” (Costa tem 54 anos), que haverá políticas setoriais. Costa, que foi confuso nas explicações sobre os contratos de trabalho (riscando do mapa a hipótese liberal do contrato único, defendida por Mário Centeno), estranhamente não falou da precariedade dominante em Portugal, sobretudo entre os mais jovens.

Nos impostos (e nas contribuições sociais), a diferença entre as propostas é claríssima. Costa é um expansionista. Fala a todos. Às crianças (ou aos pais das crianças), aos idosos, à sua geração, aos funcionários públicos, aos pensionistas, às famílias. É a política de mais dinheiro nos bolsos como forma de combate à pobreza e de reativação económica. Outra diferença: o PS favorece as famílias monoparentais, a coligação favorece as famílias com filhos. Passos Coelho repõe um quinto da sobretaxa de IRS, o que significa um quinto de um quinto (ou seja, 4%) do aumento do IRS feito durante o último governo. É uma descida “segura”, como ele diz. É descida quase nenhuma.

A Segurança Social é o grande tema da próxima legislatura mas é um tema difícil de falar, porque ambos sabem que, de uma forma ou de outra, ou as pensões descem, ou as contribuições sobem, ou há mais impostos, ou as pessoas terão de poupar no privado. Não se falou em plafonamento desta vez. Falou-se sobre o que fazer o dia seguinte às eleições. Passos disponível para Costa, Costa indisponível para Passos. Mas com eles ou com outros, PS e PSD terão de estar disponíveis um para o outro.

Depois dos debates vêm as sondagens e depois das sondagens virão as eleições. Os debates serviram para demarcar dois homens sem grande respeito um pelo outro, mas também para convocar as massas partidárias. Se os debates fossem a eliminar, os dois entre Costa e Passos foram como os quartos de final da Champions do ano passado: na primeira mão, o Porto ganhou 3-1 ao Bayern e rejubilou de orgulho. Na segunda perdeu 6-1.

Se o empate técnico subsistir nas sondagens, mais gente irá votar e haverá cristalização no voto útil nos dois, esvaziando o sonho dos demais partidos crescerem ou emergirem a partir do voto do protesto, o que provavelmente só o PCP conseguirá consolidar. Os debates foram importantes também por isso, pela influência na decisão de ir votar. No primeiro, António Costa falou mais alto para se afirmar e venceu. No segundo, Passos Coelho falou mais baixo para ser ouvido e ganhou.