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António Costa e Jerónimo de Sousa em aberta divergência sobre regras da zona euro

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António Costa e Jerónimo de Sousa, acompanhados pelo diretor da SIC Notícias, António José Teixeira, antes do debate moderado pela jornalista Ana Lourenço

Miguel A. Lopes / Lusa

Só os últimos 15 minutos (de um total de 50) do frente a frente na SIC Notícias registaram um desacordo vivo entre os líderes do PS e do PCP, depois de Costa ter rejeitado a possibilidade de uma reposição imediata dos salários do sector público e da sobretaxa do IRS em nome da presença de Portugal na zona euro

Os secretários-gerais do PS e do PCP estiveram quarta-feira em aberta divergência sobre a posição de Portugal face às regras da zona euro, num debate morno em que António Costa deixou um apelo indireto ao voto útil.

Só os últimos 15 minutos (de um total de 50) do frente a frente na SIC Notícias, moderado pela jornalista Ana Lourenço, registaram um desacordo vivo entre António Costa e Jerónimo de Sousa, depois de o secretário-geral do PS ter rejeitado a possibilidade de uma reposição imediata dos salários do sector público e da sobretaxa do IRS em nome da presença de Portugal na zona euro.

A terminar, quando ambos foram interrogados sobre entendimentos de Governo PS/PCP, Jerónimo de Sousa caracterizou os socialistas como uma força política de “continuidade”, defendendo que o país precisa “de uma rutura”, enquanto António Costa pediu “clareza” aos comunistas sobre a sua posição face à União Económica Monetária (UEM) e deixou um apelo aos eleitores da esquerda política: “Para a coligação de direita [PSD/CDS] perder, é essencial que o PS ganhe” as eleições, afirmou.

No debate deste ponto, o secretário-geral do PCP rejeitou a interpretação antes feita por António Costa de que o seu partido defende a saída de Portugal do euro, contrapondo que os comunistas sustentam antes que o abandono da moeda única “deve ser preparado, ou por decisão do povo português, ou por decisão de outros”.

“Partimos do pressuposto que Portugal tem direito a um desenvolvimento económico soberano. Mas a União Europeia manda porquê no nosso futuro coletivo?”, interrogou-se o secretário-geral do PCP.

Antecipando-se a um ataque do líder do PS, Jerónimo de Sousa salientou que a necessidade de estudar a saída do euro, “que parece quase uma blasfémia para o PS, também está afinal previsto no cenário macroeconómico deste partido”.

Num debate em que os líderes do PS e do PCP nunca se atropelaram nas suas declarações e que se caracterizou por ter sido pouco confrontacional, António Costa contrapôs que esse cenário de saída do euro, apesar de constar no cenário macroeconómico socialista, “é rejeitado” pelo PS.

Depois, passou ao contra-ataque: “O problema do programa do PCP é que prevê uma intervenção com vista ao desmantelamento da União Económica e Monetária e a preparação para a libertação do país da submissão ao euro. Ao contrário do Bloco de Esquerda, o PCP tem o mérito de escrever claramente quais os riscos e consequências com os quais nos tínhamos de confrontar num cenário de saída do euro - consequências de facto draconianas no rendimento das famílias, no risco de viabilizar a banca (que colapsaria), nos riscos para a conversão da dívida, assim como a necessidade de garantir o provisionamento energético e de outros bens essenciais que poderiam faltar país”, referiu o líder socialista.

Na parte económica do debate, apesar de ambos terem convergido nas críticas ao percurso do país nos últimos quatro anos (de governação PSD/CDS-PP), o secretário-geral do PCP lamentou que o PS se recuse para já a quantificar ou a calendarizar compromissos seus, como a alteração dos escalões do IRS, apontando que é precisamente esse caminho que leva depois à ausência de cumprimento de promessas.

Jerónimo de Sousa também criticou o PS (quando era liderado por António José Seguro) por ter apoiado ao lado do PSD e do CDS a descida do IRC, deixando então uma advertência: “A prática é o grande critério da verdade”.

Em temas como a educação e a saúde, António Costa e Jerónimo de Sousa estiveram em sintonia na defesa do peso do sector público nestas áreas sociais, mas o líder comunistas deixou algumas farpas aos socialistas, quer responsabilizando-os pelas sucessivas revisões constitucionais com o PSD e CDS, quer por terem introduzido as taxas moderadoras.