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Quando Soares chocou com uma “alfaiataria” das novas

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Alberto Frias

Mário Soares, candidato presidencial em 2006. O povo na rua já não vibra com o bochechas e o animal político sente na pele que a idade conta. Em Viseu, foi uma loja a trai-lo. A menos de um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o nono capítulo

Quando se lançou na sua última campanha - a das presidenciais, em 2006 - Mário Soares tinha 80 anos e se há coisa que a experiência provou é que, mesmo para um animal político, a idade conta.

A verdade veio ao de cima logo nos primeiros dias de rua, com a imagem do “candidato avô” a colar-se-lhe à pele. Fosse o comentário bem-disposto de um jovem para um amigo no Dolce Vita de Vila Real - “então vieste ver o vovô?” -, fosse a mulher mais amarga numa rua de Castelo Branco - “olha, olha, a fotografarem o velhote... e ele deixa!” -, a verdade é que, bem ou mal, Soares esteve sempre em desvantagem por causa da idade.

A direção de campanha agravou o problema, ao mostrar-se sempre preocupada com o estado de saúde de Mário Soares, a quem pareciam ir tirando a febre ao longo do dia. “Hoje à tarde estava bastante cansado”; “hoje saltou dos degraus do comboio com desenvoltura”; “esta noite dormiu pouco”.

Para um octogenário, Soares até conseguiu ser bastante ágil, lúcido e, sobretudo, competitivo, evitando que Cavaco Silva fizesse um mero passeio até Belém. Mas a velha excitação popular em torno do “bochechas” estava a léguas de distância; as reações à sua passagem eram mais de observação - “está velhinho” - do que de adesão; e havia um problema maior: a esmagadora maioria dos jovens nem sabiam quem ele era.

Num domingo particularmente penoso, o candidato e uma magra comitiva passearam-se por um centro comercial de Bragança como uma família banal em dia de passeio de tristes. E o animal político fez o que pôde para adequar o modelo da campanha: passou a valorizar as conversas à porta fechada onde fazia notáveis e longos improvisos sobre o futuro do país e do mundo, a que somava curtas incursões em cafés e praças e poucas arruadas.

Em Viseu, não foi possível fugir. Atravessar a rua das lojas na cidade é um clássico de qualquer campanha e Soares não faltou à chamada. Ao passar por uma megastore de moda jovem, o candidato parou, fascinado, a ver as montras. E, extrovertido como sempre, entusiasmou-se: “Ena, que grande alfaiataria!”.

Gargalhada geral. A rua, em campanha, continuava a ser o grande e implacável teste. E o tempo, definitivamente, não perdoa.

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