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Foi tudo acertado: da cor da gravata aos papéis na mesa

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Luís Barra

O debate mais visto da história foi preparado ao pormenor. E terminou com provocação de Costa, já depois dos microfones desligados

Bernardo Ferrão

Bernardo Ferrão

Subdiretor da SIC

O debate terminara há minutos. Os microfones já estavam desligados — como foi aliás acordado com as TV: assim que o frente a frente terminasse o som da sala não podia ser emitido, só imagem. Passos Coelho ainda estava sentado e os técnicos das televisões a tirar-lhe o microfone. António Costa, já de pé, mas ainda no seu lugar, vira-se para o primeiro-ministro e atira: “O próximo temos de o fazer em casa do Sócrates”. Passos Coelho reage com o seu sorriso “poker face”: uma contida gargalhada amarela de quem não achou piada nenhuma.

Quem assistiu à provocação socialista no pós-debate conta que Costa estava claramente “inchado”. O debate tinha-lhe corrido bem. Aliás, no staff socialista que o acompanhou — diretor de campanha e assessor de imprensa — já não se via o semblante pesado dos últimos dias. Agora era só sorrisos. Como se a primeira volta das eleições já estivesse ganha.

No fim da hora e meia de frente a frente, o ambiente era de confusão. No estúdio montado no Museu da Eletricidade, onde decorrera o debate, havia muita gente a falar ao mesmo tempo. Conversas paralelas entre candidatos mas também entre os três pivôs das televisões com as suas equipas. Chegara a hora de fazer o balanço de um embate testemunhado por uma média de 3 milhões e 400 mil portugueses. António Costa deixa cair os muitos papéis que levara numa pasta preta que chegou a mostrar durante a emissão, Passos ajuda-o a apanhá-los. O líder da coligação levara apenas um bloco e uma caneta — aliás, numa imagem que transmitiu nervosismo, fartou-se de escrever durante o debate. Esteve frenético.

Levar ou não papéis para as mesas foi assunto de discussão. As negociações de preparação do debate foram a esse pormenor. Do lado da coligação, Marco António Costa defendeu que Passos não precisava de levar nada para o estúdio, chegava-lhe uma folha em branco e uma caneta. O PS nunca foi tão taxativo, chegou a admitir que Costa podia ir sem documentos, mas até à última nunca se comprometeu. E percebe-se porquê, os gráficos que mostrou foram-lhe essenciais à estratégia de ataque. Mas não foram só os papéis que foram discutidos nessa reunião preparatória entre as TV e os partidos. Também as gravatas dos candidatos tiveram de ser combinadas para evitar que a cor fosse repetida. Costa escolheu o vermelho, Passos foi de azul.

Antes de se cruzarem no estúdio, onde se cumprimentaram para a fotografia, Passos e Costa já tinham dado um aperto de mão na maquilhagem. A sala de make-up era única para os dois. Mas o social-democrata nem a usou porque já vinha maquilhado. O PM, que pediu água gelada, “bebeu várias” antes do arranque da emissão. Já Costa quis o ar condicionado com a temperatura mínima.

Quando o líder socialista chegou (com mulher e filho), Passos Coelho já lá estava. Há vinte minutos dentro do carro, depois de ter entrado por uma porta lateral para evitar os lesados do BES que se manifestavam à frente do Museu da Eletricidade. Costa não teve as mesmas regalias. A comitiva socialista foi obrigada a atravessar os protestos junto à porta principal.

Aos 26 minutos de confronto, Clara de Sousa, a moderadora da SIC, anuncia o intervalo. Seis minutos de interrupção que os diretores das TV nunca viram com bons olhos — alegaram que “quebrava o debate” — mas que a coligação defendeu e o PS não se opôs inicialmente, embora tenha depois mudado de ideias.

“Parecia o intervalo de um combate de boxe”, explica quem estava no estúdio. Ninguém saiu dos seus lugares. Os que estavam de fora é que se aproximaram: os diretores foram falar com os pivôs. E os staffs com os seus candidatos. O primeiro-ministro conversa com Rui Batista, assessor de imprensa de São Bento e com o brasileiro André Gustavo, o estratego para a comunicação do PSD que veio a correr ter com Passos e que, ao mesmo tempo que falava, “gesticulava muito”. Ali ao lado, António Costa diz a um dos seus homens: “Tira uma foto, tira uma foto ao brasileiro para ficarmos com a cara dele.”

No final, Costa ainda protestou com a gestão dos tempos. Fora penalizado em dois minutos e meio. Mas aproveitou os diretos televisivos à saída, sem responder às perguntas, para fazer a típica declaração para os eleitores. E seguiu caminho, escadaria abaixo. É nesse momento que alguém do seu staff lhe diz: “António, entra para a frente do carro!”. Fernanda, a mulher, não gostou: “Não vai nada, vai atrás comigo.” E assim foi. Rumo às legislativas.