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Quando a lota matou o candidato

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Alberto Frias

Nove de junho de 2004: a três dias do início do Euro de futebol e a quatro das eleições europeias, a trágica morte em plena campanha de Sousa Franco, cabeça de lista do PS, chocou o país. A menos de um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o oitavo capítulo

Martim Silva

Martim Silva

Diretor-Executivo

A campanha estava na última semana. A direita, no poder, tinha João de Deus Pinheiro como cabeça de lista. O PS, na oposição, escolhera um rosto que era tudo menos um homem de esquerda. Católico, conservador, antigo líder (fugaz) do PSD, o inflexível ex-ministro das Finanças de Guterres.

Contra todas as expetativas, Sousa Franco, que tinha António Costa como número dois, acabou por convencer. “O estilo desengonçado, mas com um discurso estruturado e fluente, gera simpatia junto dos militantes, o que faz de Sousa Franco o que muitos dirigentes já apelidam de 'máquina de campanha'. Nem o facto de necessitar de treino de orientação em relação à sinalética típica do punho cerrado faz com que a empatia diminua.” (Luís Rosa, no “Independente”).

A dada altura da campanha, o nome de Sousa Franco até começou a ser falado como potencial futuro candidato presidencial apoiado pelo PS. Outra surpresa da campanha era a presença intensa e ativa da mulher, Matilde Sousa Franco.

Um dos momentos “altos” da volta pelo país, uma espécie de clássico em cada disputa eleitoral, era a passagem por um dos feudos autárquicos do PS, Matosinhos, com uma ida à lota local.

Só que naquele ano uma intensa luta interna de caciques, com Manuel Seabra de um lado e Narciso Miranda do outro, ainda trazia mais faísca. Na véspera, já se notava a tensão na comitiva socialista e a expectativa com o que se iria passar. Sousa Franco já revelava sinais de cansaço.

Mas, verdadeiramente, ninguém estava preparado para aquela descida aos infernos.

Nada como lembrar o que escrevi no DN do dia seguinte:

“O cansaço de três meses na estrada ficava para trás. 08h30. Em jejum, e sem o habitual casaco e gravata, só de camisa azul de manga curta, o cabeça de lista acabava de descer do quarto do hotel. Juntava-se a Costa, Sócrates, Vieira da Silva e Lello, rumo à lota de Matosinhos, ponto de romaria obrigatório nas campanhas socialistas, onde não há candidato que não acabe levado em ombros. Hora e meia depois, às 09h53, Sousa Franco dava entrada, já sem vida, nas instalações do Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, vítima de paragem cardiorrespiratória. O país político entrava em choque. Acabava a campanha eleitoral.

Sousa Franco não esteve mais de 15 a 20 minutos na lota. O candidato sabia ao que ia, mas não imaginava cair no meio de uma guerra de caciques locais. Narciso Miranda de um lado, Manuel Seabra do outro. Seguranças de aspeto duvidoso. Insultos de parte a parte. Agressões. Descontrolo. De campanha, nada. Sousa Franco nem consegue falar com as pessoas. A tensão no ar é eletrizante. A meio do percurso, entre caixas de peixe e gelo, coloco-me estrategicamente para ver o candidato passar. Vem apertado por Narciso, que do lado direito lhe envolve as costas com o braço, e Seabra, que à sua esquerda agarra o professor pelo braço. O passo é estranhamente quase de corrida.

Cada um dos caceteiros estava mais preocupado em medir forças com o opositor. Mais adiante vi o candidato. Pela última vez. A horda que o arrastava muda de direção bruscamente e quase me atropela. Olho para o rosto de Sousa Franco e sinto um arrepio. O professor de Direito com décadas de serviço à causa pública tem a camisa retorcida e a fralda de fora. Hooligans locais à volta. O sorriso transforma-se em esgar. Mas aguenta, hirto e firme no seu papel.

Minutos depois terminava a visita. Caixas de peixe desfeitas pelo chão, bandeiras do PS usadas como arma, insultos (muitos, de 'ladrão' para baixo) e agressões físicas, não poucas. Voltávamos ao hotel. Nove e meia. Às 10h estava tudo terminado. O céu abatia-se. À tarde, ainda sob o choque, mas já com as palavras mais articuladas, o PS admitia que a iniciativa tinha fugido perigosamente ao seu controlo.

Voltemos à lota. O candidato entrou no carro e partiu. Objetivo: regressar ao hotel, onde deveria tomar banho, trocar de roupa, e depois sair com a mulher, Matilde, para a gravação de um tempo de antena televisivo. Sousa Franco entrou na viatura bem-disposto. Recoloca os óculos que deixara à chegada e em cujas hastes se alojava o aparelho auditivo. Graceja sobre Narciso e Seabra. Já não veria o presidente da Câmara ser forçado a entrar escoltado numa carrinha e sair do local a toda a velocidade, sob ameaças. António Costa nem conseguia falar.

Segundos antes de entrar na viatura, Sousa Franco ainda falava aos jornalistas, desdramatizando: 'Isto foi um bom exercício físico. Sobretudo um exercício humano e emocional'. Foram as suas últimas palavras públicas.

A viatura arranca. Pouco depois, numa rotunda junto à Avenida da República, ainda em Matosinhos, Sousa Franco pede para pararem. Morreria em minutos”.

A agitação nas horas seguintes foi enorme. Recordo, por exemplo, como fiquei chocado com a forma como um responsável do DN no Porto me sugeriu delicadamente que não fosse demasiado agressivo com os políticos locais no relato do que se tinha passado. Nem respondi.

E recordo como a dada altura do dia disse à assessora do PS Maria Rui que, como me parecia óbvio, a entrevista que tinha sido feita na véspera a Sousa Franco por mim e pela Maria Henrique Espada jamais seria publicada ou citada. E como pouco depois recebi um telefonema de volta com a seguinte mensagem: “A dra. Matilde Sousa Franco faz muita questão que a entrevista seja mesmo publicada no DN”.

Lembro-me de ter discutido isso com os responsáveis do DN e de termos avançado.

A conversa seria publicada logo no dia seguinte. Eis a primeira pergunta e resposta:

“Já esta há multo tempo na estrada. Sente-se cansado?

Não, nada. Em boa forma. É evidente que as campanhas representam uma dedicação exclusiva e durante muitas horas do dia - são um pouco cansativas. Mas sinto-me em boa forma e motivado. O aspeto interessante destas coisas é dialogar com as pessoas”.

Há sons que ficaram no gravador e não passaram para o papel. Como o dos nós dos dedos a bater na mesa, como a esconjurar qualquer mal, depois de Sousa Franco garantir que, salvo qualquer doença, ficaria no Parlamento Europeu cinco anos. Outra frase deixada no gravador me ficou na memória: “Há tantas coisas que podem ocorrer na vida”.

No domingo seguinte, o PS venceu de forma clara as europeias, já com Costa como número um. Ferro, o líder do PS, deixaria o lugar pouco depois, na sequência da ida de Barroso para Bruxelas e da sua substituição por Santana sem dar lugar a eleições. O líder seguinte seria José Sócrates.

Muitos dos nomes daquele tempo ainda andam por aí. Naquele 9 de junho, a campanha na lota desapareceria para sempre. Como Sousa Franco.

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