Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

Quando Sampaio defendeu a honra de Cavaco e calou um apoiante

  • 333

Jorge Sampaio nunca foi o político habitual, muito menos em campanha no terreno. Às vezes desconcertava os seus próprios apoiantes, como na vez em que deu um raspanete público a um apoiante que resolveu chamar “ladrão” a Cavaco Silva, seu opositor nessas presidenciais. A menos de um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o sexto capítulo

Pedro Cruz

Pedro Cruz

jornalista da SIC

jornalista da SIC

Estava uma manhã fria, muito fria, no Alto Minho - já não sei bem onde, talvez Ponte da Barca. O dia de pré-campanha ainda estava a começar, nem digo a aquecer porque o frio do Alto Minho consegue ser cortante no inverno.

Em 1995, Jorge Sampaio corria para Belém pela primeira vez, tinha Cavaco Silva como principal adversário, o homem que tinha deixado de ser primeiro-ministro poucos meses antes e que queria chegar a Belém. Sampaio entra num café estreito, balcão do lado direito, duas ou três mesas do lado esquerdo. O candidato vai para beber a bica, estavam duas ou três pessoas lá dentro. Há um apoiante, um homem alto, de pé junto ao balcão, que diz:

- Camarada, bem-vindo!

Sampaio retribui o cumprimento, trocam duas ou três palavras, diz o homem:

- Vê lá se dás cabo desse ladrão, desse bandido que nos andou a roubar estes anos todos...

Sampaio faz má cara, acena com a cabeça que não... O apoiante continua:

- É um ladrão que aí anda, um gatuno...

E vai por aí fora, num chorrilho interminável de insultos.

A certa altura, Jorge Sampaio ergue o dedo indicador direito, fica encolerizado, furioso mesmo, não está muita gente dentro do café, ouve-se bem, e diz ao apoiante:

- Não diga mais nada! O professor Cavaco Silva nunca roubou nada a ninguém, é um homem decente, não lhe roubou nada a si.

E continua, de dedo em riste, dá um ralhete ao apoiante, diz que não quer ataques pessoais, pede-lhe para não continuar a conversa naquele registo, que está a insultar um homem que não está ali para se defender, apesar de ser seu adversário.

Não quer que a campanha corra assim, não é pelo insulto que lá quer chegar.

O apoiante fica sem palavras, emudece, ruboriza com o vexame, ainda balbucia qualquer coisa. Sampaio já está sem paciência, ainda mal começou o dia de campanha, sai do café, já não me lembro se à saída cumprimentou o apoiante nem recordo se chegou a tomar a bica.

  • Como Guterres mudou os debates para sempre e as arrobas chegaram ao estrelato

    António Guterres é provavelmente o político mais dotado em televisão que vimos em muitos anos. Ao pé dele, mesmo Paulo Portas ou Francisco Louçã eram “apenas” bons. Guterres tinha tanta confiança nos debates parlamentares e televisivos que mudou as suas regras para sempre. A menos de um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o quinto capítulo

  • O PIB de Guterres contado na primeira pessoa

    A política portuguesa está cheia de gaffes, mas esta é a mais célebre de todas. Tão célebre que, na verdade, nem sequer é uma gaffe e ficou assim cunhada para a história. A menos de um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o quarto capítulo, contado por Ricardo Costa - que fez a famosa pergunta a Guterres

  • O carnaval de Santana

    Uma campanha que parou ao segundo dia e uma inesperada visita a São Bento, com Santana a oferecer chás e cafés. A menos de um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o terceiro capítulo

  • E Soares beijou o anão…

    Depois de o Expresso ter publicado em três etapas a retrospetiva dos melhores debates televisivos em Portugal, agora prossegue com uma nova série: histórias de campanha. A um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o segundo capítulo

  • “Consigo ainda dava uma cambalhota!”

    Depois de o Expresso ter publicado em três etapas a retrospetiva dos melhores debates televisivos em Portugal, agora arranca com uma nova série: histórias de campanha. A um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas

  • Viagem aos melhores debates televisivos em Portugal (etapa 1)

    Soares vs Cunhal, cigarros e mais cigarros, Soares contra Zenha, Freitas e Soares numa eleição épica e, claro, o célebre dia em que Marcelo, o rei da comunicação, perdeu o pio frente a Sampaio e lhe entregou a Câmara de Lisboa numa bandeja. Os nossos debates televisivos têm muito que contar. Por isso, puxámos da nossa memória seletiva e contamos tudo. Primeira etapa de uma viagem que continua nos próximos dias

  • Viagem aos melhores debates televisivos em Portugal (etapa 2)

    Nesta etapa há de tudo: do violento Basílio vs. Soares de 1991 ao debate que Jerónimo venceu por estar... afónico. Pelo meio, temos o importante Guterres/Nogueira, a vez em que o primeiro-ministro Guterres quis fazer debates sucessivos contra todos e o único confronto entre os irmãos Paulo e Miguel Portas. Quase no fim, a inequecível noite em que Santana e Sócrates se enfrentaram. Segunda etapa de uma viagem que terá ainda um terceiro e último capítulo

  • Viagem aos melhores debates televisivos em Portugal (etapa 3)

    Lembra-se de quando Carrilho deixou Carmona de mão estendida? E da noite em que Soares e Alegre se enfrentaram num estúdio televisivo? Neste artigo lembramos esses debates, mais o Cavaco/Alegre e dois dos melhores dos últimos anos: Sócrates contra Louçã em 2009 e o Passos vs. Sócrates em 2011. Terceira e última etapa da nossa viagem aos melhores debates televisvos em Portugal