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Um debate sem Grécia, mas com Sócrates. E que mantém tudo em aberto

José Carlos Carvalho

Não se proporcionou falar de Europa, nem de migrantes, nem de reforma na justiça ou na educação. No debate desta noite entre Pedro Passos Coelho e António Costa (o único, nas televisões, desta campanha eleitoral) houve muitas perguntas que ficaram de fora

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

Jornalista da secção Política

O grande protagonista do debate foi, como de alguma forma se podia antecipar, José Sócrates, tantas as vezes que Pedro Passos Coelho o trouxe à liça, numa estratégia que aperfeiçoou (e banalizou) nestes quatro anos e que até podia ter deixado cair não fosse a irrestível tentação de voltar a ela dada a recente alteração da medida de coação sobre o ex-primeiro-ministro (que sexta-feira passou a estar em prisão domiciliária). Mas António Costa estava preparado para o previsível ataque e até se permitiu brincar com ele: "O que o senhor gostava era de estar a debater aqui com o eng. Sócrates, mas terá de debater comigo". E "porque é que não vai lá a casa debater com ele?".

Num formato que, mais uma vez, deixou pouco espaço ao confronto de ideias - sempre que se esboçava um pretexto para tal, os moderadores cortavam a palavra aos entrevistados -, chegou-se ao final com a sensação que sobrou em discussão sobre a dívida e a segurança social, o que faltou em temas tão atuais (e cruciais) como a União Europeia, a crise dos refugiados, as diferenças entre os programas da coligação e do PS em áreas como a justiça ou a educação. E ficou uma certa perplexidade pelo facto de Passos Coelho só ter aflorado a questão grega e a atuação do Syriza - no que se julgaria ser uma das suas principais armas de arremesso contra o adversário socialista.

No final, feitas as contas, António Costa, sem esmagar, não desbaratou as expetativas de todos quantos lhe exigiam que vencesse o debate - o único frente-a-frente televisivo com o atual primeiro-ministro - como demonstração de que, contrariamente ao que dizem as sondagens (sobretudo a que foi revelada hoje de manhã e dá uma vantagem de mais de cinco pontos à coligação), nada está perdido e a campanha só está no início. Beneficiou do facto de Passos Coelho estar um pouco perdido na primeira parte do debate e conseguiu manter um registo combativo e contundente (e até com alguns apontamentos de boa disposição), ao longo dos 90 minutos, sem perder o foco nas duas principais mensagens que queria passar: 1) que o Governo falhou os objetivos de diminuir a dívida e fazer crescer a economia ("nestes 4 anos o país regrediu 13"); 2) o PS apresenta propostas "conta, peso e medida" ("Era o que faltava eu estar aqui a debater, daqui a 4 anos, com o sucessor de Passos Coelho e ele acusar-me daquilo que eu, infelizmente, tenho de o acusar a si").

Resta saber se a prestação dos dois no debate tem influência real no comportamento dos eleitores. Se os indecisos ficaram hoje mais perto de fazer uma escolha ou se a escolha ainda inclui ficarem em casa no dia 4 de outubro. Faltam pouco mais de três semanas para as eleições e está tudo em aberto.