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O PIB de Guterres contado na primeira pessoa

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A política portuguesa está cheia de gaffes, mas esta é a mais célebre de todas. Tão célebre que, na verdade, nem sequer é uma gaffe e ficou assim cunhada para a história. A menos de um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o quarto capítulo, contado por Ricardo Costa - que fez a famosa pergunta a Guterres

Ricardo Costa

Ricardo Costa

Diretor de Informação da SIC

O episódio da gaffe, perdão, atrapalhação, de António Guterres em torno do PIB está envolta em muitos mitos, apesar de ter sido uma situação relativamente simples. Em primeiro lugar, aquela cena não decorreu na campanha eleitoral, mas num período ainda relativamente distante, no início do verão (as eleições eram em outubro) quando o PS estava a dar uma volta ao país numa caravana automóvel, num estilo claramente inspirado na campanha de Bill Clinton.

Em segundo lugar, a pergunta sobre o PIB (isso é quanto em dinheiro?) não era uma rasteira, longe disso. Tanto eu como o Pedro Coelho (repórter da SIC) já tínhamos feito todo o tipo de perguntas rebuscadas a Guterres e sobre todo o tipo de temas (do preço das pirites ao míldio, das propinas ao futuro de Sines, tudo e mais alguma coisa). As rasteiras tinham sempre o mesmo resultado: Guterres sabia sempre a resposta e aproveitava para nos dar uma lição sobre o assunto.

A ida aos Hospitais da Universidade de Coimbra era apenas mais uma paragem numa volta cansativa, que pouco mais acrescentaria e que já não entusiasmava qualquer jornalista. A visita foi corriqueira, com paragem obrigatória nos serviços de excelência de Manuel Antunes e Linhares Furtados. E pouco mais, até que chegámos ao hall de entrada para as declarações da praxe.

Foi aí que uma promessa conhecida (gastar até 6% do PIB em despesas de saúde) se transformou num desastre pessoal de um candidato que, nessa altura, já levava a alcunha de “picareta falante” (cunho de Vasco Pulido Valente), que tinha fama de ser um dos melhores alunos de sempre do Técnico, que sabia matemática de cor, mas que prometia coisas a mais e por todo o lado.

Nesse tempo não havia SIC Notícias nem internet. Eu e o Luís Pinto, repórter de imagem, fomos calmamente almoçar ao Zé Manel dos Ossos, na baixa de Coimbra, e seguimos para Lisboa num tempo em que os telemóveis eram tão grandes quanto o sinal era fraco. Foi a nossa sorte, porque ainda nos tentaram ligar umas vezes.

Quando chegámos à SIC, tínhamos um comité de receção, com Emídio Rangel à cabeça e fomos ver a cassete. Entre o espanto e estupefação, a verdade é que nos partimos a rir. Tão simples como isso, aquele momento é, acima de tudo, cómico. Fui fazer a peça, que naquele caso pouco mais era do que algum texto de enquadramento e uma rápida edição de imagem.

Naquela tarde tinha havido alguns telefonemas para a SIC a tentarem enquadrar a gaffe. Jorge Coelho, Pina Moura, entre outros, tentaram a sua sorte. Nada feito na SIC, aquilo era demasiado bom para que perdêssemos um segundo sequer a ponderar não a emitir. Mal sabíamos que, enquanto vínhamos para Lisboa, Guterres tinha conversado com os jornalistas que estavam na caravana e os tinha convencido a não emitir nada…

Foi assim que às 20h a SIC emitiu um exclusivo que toda a gente, mas rigorosamente toda a gente, tinha. Ainda nos rimos mais, embora sem percebermos o que tinha passado pela cabeça da concorrência. Foi assim que um episódio divertido se transformou num acontecimento político e jornalístico que ainda hoje nos faz rir.

No dia a seguir, quando regressámos à volta de Guterres, desta vez na Ribeira dos Milagres, em Leiria, o secretário-geral do PS recebeu-nos impecavelmente e fez questão de nos dar toda a atenção. Inteligente e rápido, tinha percebido que o mal estava feito, passou a brincar com o assunto e até recebeu o prémio da Noite da Má Língua, que normalmente ninguém aceitava.

Alguns anos depois alguém inventou uma versão, segundo a qual Guterres estava afetado pela visita que tinha feito ao Hospital, porque a sua mulher estava gravemente doente (veio a falecer poucos anos depois). Essa versão é falsa, porque esse argumento teria sido o único que podia ter feito os responsáveis da SIC ponderar a não emissão da gaffe. Mas nunca foi utilizado nos telefonemas feitos nesse dia, nem durante a tempestade dos dias seguintes.

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