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Passos ainda pode apoiar Marcelo

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Rio, ao contrário de Santana, avisa que não saiu de cena. Mas quer medir apoios depois de a poeira das legislativas assentar. Marcelo leva avanço. E Passos, afinal, pode apoiá-lo

Bernardo Ferrão

Bernardo Ferrão

Subdiretor da SIC

Miguel A. Lopes / Lusa

Pedro Passos Coelho não afasta liminarmente a hipótese de apoiar uma candidatura presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa. Depois de ter vetado, na moção de estratégia que levou ao Congresso do PSD, um candidato a Belém estilo “cata-vento mediático” (expressão que foi colada a Marcelo), Passos nunca se pronunciou sobre o assunto nem o fará até às legislativas. Mas o gelo entre ele e Marcelo começou a ser taticamente quebrado.

“O primeiro-ministro nunca mostrou ter sobre o assunto uma posição fechada ou alicerçada no preconceito”, afirma fonte próxima, alertando que nada o impede de apoiar o professor que as sondagens continuam a dizer ser o mais bem colocado. Na conversa que teve com Rio antes das férias, quando o ex-presidente da câmara do Porto (que sempre disse que não avançaria contra o interesse do partido) quis ouvi-lo sobre o assunto, Passos terá dito que se ele avançasse não colocaria obstáculos. Mas não se comprometeu a dar-lhe o apoio que, na hora da verdade, será decisivo para libertar todo o aparelho do PSD.

Há, aliás, no partido, quem leia as notícias que foram dando como certo o apoio da direção do PSD, primeiro a Santana Lopes e depois a Rui Rio, como peças de uma estratégia com um objetivo: concentrar as atenções nos cenários para as presidenciais e desviar o foco da corrida à sucessão de Passos. A verdade é que o líder chega às legislativas com o partido pacificado. E para tal terá dado jeito entreter as hostes.

Que o estilo de Rio é mais compatível com o de Passos é consensual. O candidato predileto do primeiro-ministro era outro — Durão Barroso — e o seu plano B chamava-se Fernando Nogueira (que terá recusado). Mas Rio parece, mais do que Marcelo, preencher os requisitos do líder do PSD. O que, por si só, não chega para garantir que o ex-autarca avance mesmo.

A convicção nos bastidores do partido é que se houver dois candidatos desta área Passos não apoiará nenhum para não dividir as hostes. E que haverá dois cenários que forçariam uma clarificação: uma derrota pesada de Passos nas legislativas levaria Rio a desistir de Belém e a virar-se para o partido. E uma vitória com maioria absoluta permitiria ao PM escolher o Presidente que quisesse, o que tenderia a favorecer o ex-presidente da câmara. Seria o pior cenário para Marcelo. Mas no seu staff garantem que já nada trava o professor.

“Novembro?
Para quê perder tempo?”

A maior dúvida é como reagirão Marcelo e Rio se no dia 4 o resultado for uma vitória por poucos, do PS ou da coligação.

“Nesse caso não sei”, afirmava esta semana um apoiante de Rui Rio, “é preciso ver os resultados”. E foi precisamente pelos resultados que o próprio decidiu esperar. Na verdade, Rio sempre disse que uma candidatura sua estaria dependente de haver uma vontade muito forte de muita gente. E por ainda ser cedo para medir o elã, acabou por refrear a tentação de avançar em setembro. Foi pressionado a fazê-lo e há quem o acuse de ter dado a Marcelo a chance de somar apoios no partido e no país. Mas Rio não se tem mostrado impressionado com isso.

O apoio que espera sentir em torno da sua candidatura será mais de gente da sociedade civil com capacidade para olear uma máquina do que exclusivamente do partido e essa condição, garante fonte próxima, “está aferida”. O local para anunciar a candidatura também está pensado: o hotel Astória, em Coimbra, local simbólico para a esquerda por ter acolhido Humberto Delgado.

Com o artigo que esta semana escreveu no “JN”, o ex-autarca mostrou que não saiu de cena, mas não garante nada. Apenas quis ser coerente: se admitira falar em setembro, sentiu-se obrigado a clarificar. No resto, mantém-se na sua: ou há vontade de muita gente ou amigos como dantes. A verdade é que nos sectores marcelistas conclui-se que pode ser um erro Marcelo arrastar-se para lá de 4 de outubro. “Para quê perder tempo?”, questionam. O professor, como o Expresso noticiou, preferiria deixar o país respirar do rescaldo das legislativas e manter-se na TVI, admitindo empurrar um anúncio para novembro.

“Se Rio continua na corrida, Marcelo ganha com uma decisão rápida”, defende a mesma fonte, garantindo que “já nada o trava” e “neste momento ele tem 2/3 do partido”. No dia 4, ver-se-á com que margem fica Passos para falar. Para já, a narrativa do seu inner circle mudou: se Rio não for, nada impedirá o PM de apoiar Marcelo.