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O carnaval de Santana

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Uma campanha que parou ao segundo dia e uma inesperada visita a São Bento, com Santana a oferecer chás e cafés. A menos de um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o terceiro capítulo

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

E Santana descansou ao segundo dia. A campanha eleitoral para as legislativas de 2005, que punham frente a frente Pedro Santana Lopes e José Sócrates, arrancou num domingo solarengo, dia 6 de fevereiro, com os dois principais partidos a medir forças com comícios quase à mesma hora, na mesma cidade e a poucos metros de distância. Para surpresa de todos, depois desse braço de ferro em Castelo Branco, Santana decidiu suspender a agenda de campanha. Não por um dia, mas por dois.

Assim seria: nem na segunda nem na terça-feira o então primeiro-ministro teria qualquer ação de campanha. Na segunda, tinha apenas uma presença como chefe do Governo, na abertura da base de Monte Real à aviação comercial.

A justificação, dada com visível embaraço pelos então colaboradores do PM, era original - terça-feira era o feriado de carnaval, segunda-feira boa parte do país estava a fazer ponte. Santana Lopes decidira “não misturar a política com o carnaval”.

Num mundo ideal, o propósito até podia ser virtuoso e pedagógico, mas na realidade a consequência foi dramática. Nunca se tinha visto um candidato a primeiro-ministro (e PM em exercício) a fazer “ponte” logo ao segundo dia de uma campanha eleitoral. A folgar depois de um único comício. A fugir da estrada logo ao segundo dia. Santana, já se sabe, tem as suas idiossincrasias - aquela haveria de lhe custar caro, pois foi o momento zero de uma campanha que seria, pelas duas semanas seguintes, sempre a descer.

Terça-feira de carnaval, 8 de fevereiro. Os telemóveis dos repórteres que seguiam a campanha do PSD começam a tocar. Um dos assessores de Santana Lopes convidava os jornalistas a “passar por São Bento”, ao início da tarde, para uma conversa com o primeiro-ministro. Todos aceitaram, claro - afinal de contas, não tinham nada melhor para fazer.

Se já era estranho aquele convite para ir à residência oficial num dia em que, supostamente, Santana não queria fazer política (tinha sido essa a razão para suspender a campanha), tudo ficou ainda mais estranho quando os jornalistas chegaram à residência oficial. Foram encaminhados para os jardins, onde Santana passeava descontraidamente, calças claras, mãos nos bolsos, com os filhos à volta, e mais uns amigos dos filhos.

“Já conhecem os jardins?”, perguntou o anfitrião, que conduziu o atónito grupo de jornalistas para perto da piscina mandada construir por Cavaco Silva, mostrando-lhes, depois, o recanto onde Salazar se sentava todos os dias a ler.

“E então, o que é que contam?”, pergunta então o primeiro-ministro, no meio da verdura e da criançada. “Nós?”, responde um dos interlocutores - os jornalistas é que tinham sido chamados, logo, o líder do PSD é que teria alguma coisa para contar.

Chamados, não, corrigiu Santana - sim, tinha-os convidado, “se quisessem vir cá”, porque havia “uma intriga nos jornais, umas interrogações” sobre as razões da interrupção da campanha e sobre o que andaria o chefe do Governo a fazer enquanto os seus adversários calcorreavam o país. Vai daí, decidiu convocar a comunicação social para que testemunhasse um dia normal de trabalho do PM: tinha trabalhado de manhã, tinha almoçado com os filhos e uns amigos destes, ia receber daí a pouco o ministro da Administração Interna... Pelo meio, ali estava, disponível para uma simpática cavaqueira.

rui duarte silva

“Sentem-se, sentem…”, insistiu, enquanto encaminhava os convidados para uma das salas do palacete. Apontou a poltrona ao lado da sua, onde se instalavam os chefes de governo estrangeiros - “Alguém se quer sentar nesta?”. Ninguém quis. “De certeza que não querem um café? Um chá? Não é que eu não tenha oferecido…”

Ninguém o acusou de tal coisa. Espremida essa visita de carnaval a São Bento, na ausência de notícia ou de propósito, pouco mais ficou do que a resposta de Santana aos que o criticavam por ter interrompido a campanha durante o carnaval: “Se acham que eu perco com isso, até deviam estar contentes e atirar foguetes”.

Certo é que nem a gente do PSD percebeu a decisão de Santana. E por todo o país o partido continuou a campanha local. Normalmente. A insólita paragem não foi só o primeiro sinal da total perda de autoridade de Santana sobre o partido, foi também o sintoma de que aquelas seriam duas semanas longas e penosas para a caravana laranja. Todas as desculpas serviram para Santana parar e sair de cena - a seguir foi a morte da Irmã Lúcia, que, poucos dias depois, voltou a parar a campanha do PSD. De paragem em paragem até a derrota final.

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