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“Consigo ainda dava uma cambalhota!”

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Depois de o Expresso ter publicado em três etapas a retrospetiva dos melhores debates televisivos em Portugal, agora arranca com uma nova série: histórias de campanha. A um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas

Henrique Monteiro

Henrique Monteiro

Redator Principal

Não se sabe porquê, mas era assim. Onde chegava Mário Soares — fosse em campanha eleitoral, fosse, depois, em visita presidencial — era sempre rodeado de pessoas que o querem cumprimentar, insultar, abraçar, beijar, enfim que desejam tocar-lhe.

À frente dessa gente vêm, invariavelmente, as mulheres. Puxavam-lhe pelo casaco, arrepanhavam-lhe as bochechas (Soares tinha a alcunha de ‘o bochechas’), saltavam-lhe ao pescoço, apertavam-no em abraços. Ao contrário de muitos outros políticos que se viam nestas cenas por mera obrigação, Soares adorava-as. Embora, por vezes, passado o cerimonial, não conseguisse esconder o cansaço – e isto há já 30 anos.

Mas na longa história de abraços, beijos e apertos, que, seguramente, deixa a anos-luz qualquer outra figura pública do passado ou do presente, há duas histórias com peixeiras que vale a pena contar.

Para além das diversas mulheres que lhe apertam a cara, chamando-lhe, carinhosamente, «bochechinhas», temos o episódio da vendedora de peixe do mercado de Almada que lhe atirou um peixe à cara na altura em que ele era ainda primeiro-ministro do famigerado ‘Bloco Central’ (coligação PS/PSD).

Sem se desconcertar, limpando a cara com um lenço, Soares deu-lhe um raspanete: então a vida está cara e a senhora desperdiça assim o peixe? Porém, o momento mais desconcertante foi na sua campanha presidencial de 1986, quando uma varina, em plena Nazaré rendida a Soares (os pescadores levantaram em peso um Citroen Mehari com o candidato lá sentado), lhe gritou:

“Oh, senhor doutor, olhe que consigo ainda dava uma cambalhota!!!”.

A comitiva entreolhou-se. As mãos colocaram-se à frente das bocas para reprimir o riso. Só Soares, na altura com 62 anos, pareceu ficar impávido, nada admirado com o insólito da cena. Nas calmas, respondeu:

“Comigo? Com esta idade, só se for por currículo!”.

  • E Soares beijou o anão…

    Depois de o Expresso ter publicado em três etapas a retrospetiva dos melhores debates televisivos em Portugal, agora prossegue com uma nova série: histórias de campanha. A um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o segundo capítulo

  • Viagem aos melhores debates televisivos em Portugal (etapa 1)

    Soares vs Cunhal, cigarros e mais cigarros, Soares contra Zenha, Freitas e Soares numa eleição épica e, claro, o célebre dia em que Marcelo, o rei da comunicação, perdeu o pio frente a Sampaio e lhe entregou a Câmara de Lisboa numa bandeja. Os nossos debates televisivos têm muito que contar. Por isso, puxámos da nossa memória seletiva e contamos tudo. Primeira etapa de uma viagem que continua nos próximos dias

  • Viagem aos melhores debates televisivos em Portugal (etapa 2)

    Nesta etapa há de tudo: do violento Basílio vs. Soares de 1991 ao debate que Jerónimo venceu por estar... afónico. Pelo meio, temos o importante Guterres/Nogueira, a vez em que o primeiro-ministro Guterres quis fazer debates sucessivos contra todos e o único confronto entre os irmãos Paulo e Miguel Portas. Quase no fim, a inequecível noite em que Santana e Sócrates se enfrentaram. Segunda etapa de uma viagem que terá ainda um terceiro e último capítulo

  • Viagem aos melhores debates televisivos em Portugal (etapa 3)

    Lembra-se de quando Carrilho deixou Carmona de mão estendida? E da noite em que Soares e Alegre se enfrentaram num estúdio televisivo? Neste artigo lembramos esses debates, mais o Cavaco/Alegre e dois dos melhores dos últimos anos: Sócrates contra Louçã em 2009 e o Passos vs. Sócrates em 2011. Terceira e última etapa da nossa viagem aos melhores debates televisvos em Portugal