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As 12 aparições de Sócrates

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FOTO TIAGO MIRANDA

Nove meses, 12 vezes. Desde que esteve em prisão preventiva, da qual saiu esta sexta-feira, o ex-primeiro-ministro José Sócrates falou em 12 ocasiões. Cartas, entrevistas e declarações. A última foi a 19 de agosto. O que ficou de tudo o que disse

26 de novembro de 2014. Primeira carta

Dois dias depois de ter sido conduzido até à cadeia de Évora com o estatuto de preso preventivo, José Sócrates escreve uma primeira carta, enviada para o jornal Público e para a rádio TSF, em que faz questão de sublinhar que vai defender-se “com as armas do Estado de Direito” e que, nesse combate, irá deixar a política de lado.

“Será em legítima defesa que irei, conforme for entendendo, desmentir as falsidades lançadas sobre mim e responsabilizar os que as engendraram.”

“A minha detenção para interrogatório foi um abuso e o espetáculo montado em torno dela uma infâmia; as imputações que me são dirigidas são absurdas, injustas e infundamentadas; a decisão de me colocar em prisão preventiva é injustificada e constitui uma humilhação gratuita.”

“Não tenho dúvidas que este caso tem também contornos políticos e sensibilizam-me as manifestações de solidariedade de tantos camaradas e amigos. Mas quero o que for político à margem deste debate. Este processo é comigo e só comigo. Qualquer envolvimento do Partido Socialista só me prejudicaria, prejudicaria o Partido e prejudicaria a Democracia.”

29 de novembro de 2014. Primeira declaração

O Expresso publica uma curta declaração feita por Sócrates, por telefone, a partir da cadeia, durante uma conversa sobre um pedido de entrevista feito pelo jornal. Apesar de o ex-primeito ter inicialmente aceitado dar essa entrevista ao Expresso, ela acabou por nunca acontecer, sendo que o jornal chegou a publicar um conjunto de 81 perguntas. Que ficaram por responder.

“Só deixa de ser livre quem perde a dignidade. Sinto-me mais livre do que nunca.”

1 de dezembro de 2014. Segunda carta

Dita por telefone ao seu advogado uma carta de duas páginas, dirigida à RTP, em que admite ter morado no apartamento que Carlos Santos Silva, seu amigo e também arguido no processo, adquiriu em Paris, mas nega que o imóvel seja seu. E corrige alguns dados divulgados por uma reportagem da televisão pública.

“É certo que é difícil eu falar. Estou preso. Mas não lhes faço o favor de estar calado.”

“De setembro de 2012 a junho de 2013, vivi no apartamento que me foi emprestado pelo meu amigo Eng. Santos Silva, que o comprou para o restaurar, arrendar ou vender, que é a situação atual dele. Saí quando começaram as obras.”

4 de dezembro de 2014. Terceira carta

Escrita à mão e a tinta vermelha, uma carta enviada para o Diário de Notícias serve para denunciar a “cobardia” dos políticos e a “cumplicidade” de alguns jornalistas em relação ao seu caso.

“Prende-se para humilhar, para vergar. Prende-se para extorquir, sabe-se lá que informação.”

“Nem precisam de falar - os jornalistas (alguns) fazem o trabalho para eles. Toma lá informação, paga-me com elogios. Dizem-lhes o que é crime conhecerem, eles compensam-nos com encómios: magnífico juiz; prestigiado procurador; polícia dedicado e competente.”

“Digamo-lo sem rodeios: o "sistema" vive da cobardia dos políticos, da cumplicidade de alguns jornalistas; do cinismo das faculdades e dos professores de Direito e do desprezo que as pessoas decentes têm por tudo isto.”

7 de dezembro de 2014. Quarta carta

O JN publica uma carta que Sócrates enviou a Mário Soares, em que lhe dá os parabéns pelos 90 anos aproveitando, depois de um longo elogio ao antigo presidente da República e fundador do PS, para lhe contar a sua versão dos factos sobre o que lhe aconteceu.

“Naquela noite abracadabrante em Paris, quando soube da violência e terror que causaram aos meus filhos, à minha família, aos meus amigos (foi aí que René Char me veio ao espírito), pensei em todo o mal que me podiam fazer, todas as infâmias, humilhações, que pudessem estar – como estavam – preparadas contra mim. Depois, de coração limpo, avancei para lhes fazer frente. Para lhes fazer frente!”

2 de janeiro de 2015. Primeira entrevista

O ex-primeiro-ministro decide responder a seis questões colocadas pela TVI, ao mesmo tempo que se justifica pelo facto de se recusar a responder às 81 perguntas do Expresso. “Lamento que o jornal Expresso, com o qual combinei uma entrevista, tenha decidido publicar as suas perguntas (antes mesmo de eu as conhecer) desacompanhadas das respectivas respostas).

“A corrupção em nome da qual me sujeitaram à infâmia desta prisão preventiva é uma pura invenção.”

“Este processo é todo ele uma caixinha de presunções, em que as presunções assentam umas nas outras numa construção elaborada mas absolutamente delirante.”

“Daqui à suspeita de perseguição política não é um passo de gigante, é um pequeno passo.”

“Face a algumas dificuldades de liquidez que atravessei em certos momentos, sobretudo desde que tive parte da minha família em Paris e eu próprio vivi entre Lisboa e aquela cidade, recorri várias vezes a empréstimos que o meu amigo Carlos Santos Silva me concedeu para pagar despesas diversas.”

“O Engº Carlos Santos Silva detém, como é sabido, meios próprios de fortuna pessoal fruto da sua diversificada atividade empresarial em vários países do mundo. E, sendo meu amigo, esteve disponível para me ajudar quando eu precisei. Estou-lhe grato por isso. Mas não deixarei de lhe pagar!”

“Este processo, pela sua natureza, tem contornos políticos.”

3 de fevereiro de 2015. Segunda entrevista

Com um mês de intervalo, o recluso 44 da cadeia de Évora volta a conceder uma entrevista a uma estação de televisão, alongando-se sobre o suposto perigo de fuga que determinou a sua prisão preventiva e as violações sistemáticas ao segredo de justiça. Mas recusando-se a entrar detalhes sobre a forma como o amigo Carlos Santos Silva lhe sustentava o estilo de vida.

“Quando vejo invocarem o perigo de fuga como um dos fundamentos da minha prisão preventiva o que me parece é que alguém está a esforçar-se muito para não ver o óbvio: eu vinha a entrar [do país], não ia a sair! Se este fosse um processo normal, guiado pelo bom senso, qualquer suspeita, mesmo disparatada, sobre a minha alegada intenção de fugir teria morrido aí.”

“Talvez o espanto não nos tenha, ainda, permitido apreciar a beleza da posição do Ministério Público: face a reiterados crimes de violação do segredo de justiça, de teor sempre favorável à acusação, parece que o Ministério Público acha que o que realmente perturba o inquérito é o exercício legítimo do direito de defesa da honra.”

“Tínhamos de acabar aqui: no meu estilo de vida, que dizem dispendioso, na crítica de costumes e no julgamento moral que inspira desde o início toda a campanha do Correio da Manhã contra mim. Não admito, nem alimento, esses julgamentos. Nem sequer para comentar a mesquinhez dos que acham que é um luxo tirar um mestrado em Sciences Po ou ter filhos a estudar numa escola estrangeira.”

“O facto de ter tido dificuldades de liquidez num certo período da minha vida não significa que não tivesse um horizonte financeiro, pessoal e familiar, compatível com o meu nível de despesas.”

4 de março de 2015. Quinta carta

Sentindo-se visado por declarações feitas no parlamento pelo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, que afirmou ter “imperfeições” sem que, no entanto, tivesse alguma vez usado “o cargo para enriquecer”, Sócrates aproveita a oportunidade para reagir de forma directa e carrega na tese de “perseguição política” de que está alegadamente a ser alvo.

“Ao atacar um adversário político que está na prisão a tentar defender-se de imputações injustas, o senhor primeiro-ministro não se limita a confirmar que não é um cidadão perfeito, antes revela o seu carácter e o quanto está próximo da miséria moral.”

“Este cobarde ataque pessoal em nada me surpreende. Afirmei desde o início que este processo tem contornos políticos e o uso deste processo por parte do senhor primeiro-ministro é a prova de que eu tinha razão. A perseguição política e a tentativa de condicionamento do resultado das próximas eleições ficou agora clara aos olhos dos portugueses.”

29 de abril de 2015. Sexta carta

Desta vez, e depois da carta a Mário Soares em dezembro, é divulgada na imprensa o conteúdo de uma carta de Sócrates dirigida ao socialista António Campos, que lhe tinha enviado uma revista da Ordem dos Advogados com um artigo muito badalado escrito pela advogada do seu amigo Carlos Santos Silva. Diz-se vítima de uma caça ao homem.

“Tendo a investigação recebido (na verdade, já as tinha recebido há mais de um ano) as informações bancárias relativas às tão referidas contas na Suíça, elas confirmam que em lado algum delas sou referido. Nem como titular, co-titular, último beneficiário ou por qualquer outra forma que me permitisse ter acesso, ou capacidade de dispor, agora ou no futuro, desse dinheiro. Nada!”

“A situação a que o processo chegou é pura e simplesmente patética.”

“Isto diz-nos muito acerca da verdadeira origem desta investigação: ela não nasceu para perseguir um crime, mas para me perseguir pessoalmente, foi a caça ao homem.”

8 de junho de 2015. Segunda declaração

De forma surpreendente, o ex-primeiro-ministro envia uma declaração à SIC em que revela que recusa ir para casa com uma pulseira electrónica. Face a essa recusa, no dia seguinte o juiz Carlos Alexandre decide mantê-lo na cadeia.

“Não ignoro – nem pactuo – com a utilização da prisão domiciliária com vigilância electrónica como instrumento de suavização, destinado a corrigir erros de forma a parecer que nunca se cometeram. Estas “meias-libertações” não têm outro objetivo que não seja disfarçar o erro original e o sucessivo falhanço: depois de seis meses de prisão, nem factos, nem provas, nem acusação.”

30 de junho de 2015. Terceira entrevista

Numa entrevista conjunta concedida ao DN e à TSF, depois de o juiz Carlos Alexandre o ter mantido na cadeia de Évora, o recluso 44 é bastante direto, acusando o Ministério Público de ter uma agenda política.

“A promiscuidade de alguns elementos judiciais com os tabloides - dá-me informações, que eu digo bem de ti - corrói e corrompe o sistema. É um tumor que alastra e cujas metástases afetam e contaminam o prestígio e a dignidade das instituições judiciais.”

“O Ministério Público não tem o direito - repito, não tem o direito - de fazer imputações sem apresentar os factos que as justificam ou as provas que as fundamentam. Quando esquece este seu dever elementar e assim procede não está a agir como acusador público mas como difamador e como caluniador. E insultar e caluniar não são competências do Ministério Público.”

“Ao prender sem provas e ao permitir a intensa campanha de difamação sobre mim e sobre o anterior governo do PS, o senhor procurador autoriza a legítima suspeita de que a minha prisão possa ter servido para condicionar as próximas eleições legislativas.”

“Tenho a legítima suspeita de que a verdadeira intenção da minha detenção abusiva e da minha prisão sem fundamento não foi perseguir crime nenhum mas tão só impedir o PS de ganhar as próximas eleições legislativas.”

19 de agosto de 2015. Sétima carta

Nas vésperas de completar nove meses na cadeia e a três semanas do próximo reexame pelo juiz Carlos Alexandre do seu estatuto de preso preventivo, Sócrates faz chegar uma carta à SIC e ao Jornal de Notícias em que recapitula o que foi dizendo desde a sua cela. E em que reforça a tese de que é um preso político.

“O perigo de fuga não foi apenas uma ficção, mas uma burla.”

“Por incrível que pareça, a Justiça cometeu mesmo neste caso um erro monstruoso.”

“A investigação foi incapaz, em todo este tempo, de apresentar uma única prova.”

“Já não é possível disfarçar que este se tornou um processo "saltitão", em que a investigação saltita de uma teoria para outra de cada vez que a anterior esbarra contra a verdade. Bem vistas as coisas, a investigação já "acreditou" em tudo e no seu contrário.”

“O que este enorme desnorte da investigação revela é que todo este processo foi, desde o início, uma enorme precipitação e uma incrível leviandade.”

“À medida que o tempo passa cresce a legítima suspeita de que este processo tem como verdadeira motivação condicionar as próximas eleições e impedir a vitória do PS. Acontece que isso não compete à justiça, mas à política.”