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Viagem aos melhores debates televisivos em Portugal (etapa 1)

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Soares vs Cunhal, cigarros e mais cigarros, Soares contra Zenha, Freitas e Soares numa eleição épica e, claro, o célebre dia em que Marcelo, o rei da comunicação, perdeu o pio frente a Sampaio e lhe entregou a Câmara de Lisboa numa bandeja. Os nossos debates televisivos têm muito que contar. Por isso, puxámos da nossa memória seletiva e contamos tudo. Primeira etapa de uma viagem que continua nos próximos dias

Ricardo Costa

Ricardo Costa

Diretor de Informação da SIC

Henrique Monteiro

Henrique Monteiro

Redator Principal

O PAI DE TODOS OS DEBATES

6 de Novembro de 1975 | Mário Soares Vs. Álvaro Cunhal

Arquivo A Capital

A democracia e o totalitarismo de esquerda enfrentaram-se. Era um jogo de morte... De um lado um líder do PS que tinha toda a direita atrás dele e que fora aconselhado pelo então secretário de Estado americano Kissinger a fugir para os EUA; do outro, o líder do PCP, no qual nem toda a esquerda se revia (os maoistas consideravam-no social-fascista ou revisionista), mas que tinha o apoio da então toda-poderosa União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, URSS, que o próprio Cunhal não se coibia de classificar como o Sol da terra. O debate foi renhido. Na altura, não era fácil colocar dúvidas às nacionalizações ou à ocupação de terras e mesmo a defesa do princípio de que o Governo deveria ser do partido mais votado não era consensual. Cunhal, a exemplo dos sovietes, defendia que a Constituinte, então reunida, não devia discutir política diária e, apesar do 'seu' Governo (o V provisório) já ter caído e ter sido substituído pelo VI, liderado pelo almirante Pinheiro de Azevedo, muito mais moderado, os comunistas não se davam por vencidos.

Cinco dias depois, a independência unilateral de Angola proclamada pelo MPLA seria uma vitória do PCP. Mas 19 dias depois, o 25 de novembro de 1975 saldar-se-ia numa derrota estrondosa. Há quem diga que Cunhal recuou de propósito, pois o seu objetivo era marcar pontos em Luanda. Há quem sustente o contrário. Do debate em si, que só esclareceu quem estava esclarecido, ficou a frase de Cunhal: “Olhe que não!”

Não Matava Mas, Talvez Moesse

1976

Arquivo A Capital

Na fotografia está Joaquim Letria, então um dos mais populares entrevistadores da televisão (só havia a RTP), com treino na BBC e o que se costuma chamar uma enorme tarimba (e grande lata) e o deputado e primeiro presidente da Assembleia da República, Vasco da Gama Fernandes, socialista de sempre.

Que têm eles em comum? A resposta é: um cigarro na mão! Pois é, na altura os políticos, os apresentadores e quem mais fosse fumava em estúdio, enquanto peroravam sobre os acontecimentos da nação. O estilo era descontraído, não havia telepontos, nem grandes (ou pequenos) assessores de imagem (Letria seria, pouco depois, assessor do primeiro Presidente eleito, o general Ramalho Eanes). De modo que a conversa fluía sem as tensões de hoje. Nem estilo Rodrigues dos Santos (eu estou aqui para lhe cair em cima) nem estilo Judite de Sousa (eu estou aqui para Vexa dizer o que entende). Era algo a meio caminho, em que havia tempo para explanar o pensamento do entrevistado (sem que fosse necessariamente propaganda), enquanto o jornalista fazia o seu papel: perguntava!

OLHE, EU NUNCA FUI SEU IRMÃO

1986

Rui Ochôa

Há equívocos que dão direito a uma derrota? Talvez. Um deles poderá ter ocorrido neste célebre debate entre Mário Soares e o já falecido Francisco Salgado Zenha. Tinham sido o número um e dois do PS. Mas vamos por partes. Soares dizia que Zenha era a consciência moral dos socialistas. O povo do PS gritava “Soares e Zenha não há quem os detenha”. Mas a história havia de começar a separá-los em 1980, na recandidatura de Eanes à presidência da República, que Soares recusou apoiar. Zenha não concordou e ficou do lado do que chamava ex-secretariado do PS (entre outros com Guterres e Sampaio). Nas eleições presidenciais de janeiro de 1986, depois de os socialistas terem sofrido uma derrota histórica (20%) após a vinda do FMI e o Bloco Central, depois da formação de um partido de inspiração eanista - o PRD -, Zenha decide candidatar-se a Belém. Fá-lo contra mais dois candidatos da esquerda: Maria de Lourdes Pintasilgo (já falecida) e Mário Soares. O candidato da direita, que concitava à esquerda repulsa geral era... Freitas do Amaral, fundador do CDS, nome imposto ao PSD por Cavaco Silva.

É neste contexto, Soares e Zenha já de costas voltadas, que ambos têm um frente a frente. Os debates eram fundamentais para Soares, que partiu para a contenda com o apoio exclusivo do PS (não todo e reduzido à sua menor base eleitoral de sempre). Nas sondagens tinha 8%. Zenha era apoiado pelo PRD e PCP. Tinha clara vantagem...

No debate, Mário Soares com aquele ar de bochecha caída que sabe tão bem fazer, disse em tom triste: “Nós éramos como irmãos.” Zenha, ríspido, entendendo a frase de outro modo, responde: “Olhe, eu nunca fui seu irmão.” Diz-se que perdeu o debate (e as eleições) nesta frase. A esmagadora maioria dos que viam TV não associava a frase à maçonaria, como Zenha fez. E o mais ridículo é que Soares foi duas ou três vezes à Grande Loja de França e nunca mais lá pôs os pés. Soares estava mesmo a utilizar o termo 'irmãos' no sentido em que o povo o entendeu. Da grande amizade que todos conheciam, ali publicamente renegada pelo seu opositor do momento, devido a um mal-entendido.

O DIA EM QUE FREITAS ENGANOU A DIREITA E SOARES A ESQUERDA

1986

Rui Ochôa

Bem, talvez seja... Mas há muitos anos que ela vem a baralhar, torcer, retorcer e confundir cada um. Nessa altura, em 1986, Soares era tão de direita que o PCP nunca podia admitir votar nele. Nunca? Bem, quando passou à segunda volta, derrotando o candidato apoiado pelos comunistas, Salgado Zenha, e tendo em conta que Freitas do Amaral era “praticamente fascista”, o PCP fez um Congresso e retirou a fatwa contra Soares. Cunhal deu as ordens: tapam a cara do candidato com uma mão e votam nele com a outra. Freitas simbolizava a unidade da direita num esforço para cumprir o sonho de Sá Carneiro - maioria (que haveria de existir só com Cavaco no ano seguinte), Governo (já havia o de Cavaco) e Presidente, que seria o próprio. Houve debate renhido, sem que Soares tivesse pejo em insinuar ligações políticas nada recomendáveis do adversário e vice-versa, porque Freitas não se cansava de criticar o socialismo e o apoio que Soares obtivera dos comunistas. Soares venceu por cerca de 100 mil votos as mais renhidas eleições de sempre.

Mas vai-se a ver e nem Soares fez favores à esquerda - quando ela quis ir para o Governo, deitando abaixo o Executivo minoritário de Cavaco, dissolveu o Parlamento e convocou as eleições que deram a primeira maioria absoluta em Portugal; nem Freitas foi bom para a direita. Pouco tempo depois, começou numa deriva que o levou a um Governo do PS.

QUANDO MARCELO PERDEU O PIO

1989

Rui Ochôa

Mesmo na vida de um homem que todos acham genial. Foi o caso do dia do debate entre Marcelo e Sampaio, quando ambos se candidatavam à Câmara de Lisboa. Marcelo estava em grande. Tinha dado um mergulho no Tejo demonstrando o seu amor a Lisboa; beijara transeuntes, tinha comitivas. Sampaio era líder de um enfraquecido PS. Nem sequer encontrara um candidato de jeito e, por isso, avançou ele próprio. Dizia-se que Sampaio era confuso a falar, ao contrário de Marcelo (ainda não fazia as charlas na rádio e TV) que mostrava os dotes oratórios. Algo porém se passou. Demasiado respeito de Marcelo perante um Sampaio nove anos mais velho, com um currículo impecável, inatacável? Súbita desistência no momento da verdade? Inspiração épica do líder do PS? Quem sabe? O certo é que, contra todos os analistas que davam a vitória a Marcelo no debate, o professor de Direito foi esmagado pelo advogado ex-dirigente das lutas académicas de 1962. Um feito. Que se confirmou nas urnas. Sampaio, que pela primeira vez (foi o único a fazê-lo) congregou PS, PCP e extrema-esquerda, ganhou a Câmara em 1989, voltou a vencê-la em 1993 e daí saltou para a presidência da República em 1996. Marcelo nunca mais concorreu a quaisquer eleições. Até agora...

Versão parcial e editada do texto publicado originalmente na Revista do Expresso de 17 de maio de 2014

  • Viagem aos melhores debates televisivos em Portugal (etapa 2)

    Nesta etapa há de tudo: do violento Basílio vs. Soares de 1991 ao debate que Jerónimo venceu por estar... afónico. Pelo meio, temos o importante Guterres/Nogueira, a vez em que o primeiro-ministro Guterres quis fazer debates sucessivos contra todos e o único confronto entre os irmãos Paulo e Miguel Portas. Quase no fim, a inequecível noite em que Santana e Sócrates se enfrentaram. Segunda etapa de uma viagem que terá ainda um terceiro e último capítulo

  • Viagem aos melhores debates televisivos em Portugal (etapa 3)

    Lembra-se de quando Carrilho deixou Carmona de mão estendida? E da noite em que Soares e Alegre se enfrentaram num estúdio televisivo? Neste artigo lembramos esses debates, mais o Cavaco/Alegre e dois dos melhores dos últimos anos: Sócrates contra Louçã em 2009 e o Passos vs. Sócrates em 2011. Terceira e última etapa da nossa viagem aos melhores debates televisvos em Portugal