Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

Vêm aí os debates (e as análises também)

  • 333

Alberto Frias

Debates televisivos para as legislativas arrancam esta terça-feira. Histórico de análises aos frente a frente entre líderes do PS e do PSD em campanhas anteriores mostram que nem sempre o desempenho nesses embates tem correlação com o resultado final das eleições. O Expresso foi revisitar o que disseram os jornais nos debates dos últimos 20 anos

Sócrates x Passos, 2011: Um debate, várias análises

Quem não tivesse assistido ao debate na RTP1 e tentasse, no dia seguinte, formar opinião através do relato e das análises feitas na imprensa teria dificuldade em chegar a uma conclusão: o frente a frente entre Sócrates e Passos Coelho antes das eleições legislativas de 2011 não foi apenas o mais visto de sempre desde que há medição de audiências televisivas em Portugal — com 1,585 milhões de telespetadores —, foi também aquele que gerou as conclusões, análises e balanços mais díspares dos últimos 20 anos na imprensa.

Senão, vejamos: o "Jornal de Notícias" chamava o tema à capa com o título "Sócrates confiante, Passos hesitante"; o "Diário de Notícias" titulava "Um debate equilibrado que dá ânimo a Passos"; o diário "i" escrevia na capa "O exame correu bem a Passos Coelho".

No Público, o editorial do dia seguinte defendia que "o debate não decidiu a campanha", mas admitia que "tornou mais difícil a vida a Sócrates". Numa altura em que as sondagens ainda davam um empate técnico a PS e PSD nas intenções de voto, o Expresso escrevia que o debate apresentou "um choque de estilos, mais do que de programas".

Os quatro analistas convidados pelo semanário para analisar o debate dividiam-se entre a vitória de Sócrates e de Passos, mas Rui Ramos vaticinava que tinha sido "o fim do mito de Sócrates como dono do debate político em Portugal". Mas tal como no debate de dois anos antes, entre Sócrates e Ferreira Leite, também reinava no dia seguinte a sensação de falta de esclarecimento sobre o futuro do país. "Passar um debate a discutir frases passadas é estranho. Sobretudo quando estamos a caminho do precipício. Mas foi isso que os dois candidatos nos ofereceram", lamentava Ricardo Costa.

As eleições seriam ganhas pelo PSD, com 38,66% dos votos, que se coligaria com o CDS (11,71%). O PS teve 28,05%.

Sócrates x Ferreira Leite, 2009: sondagem deu vitória clara a Sócrates

A sondagem da Aximage para o "Correio da Manhã", feita logo após o final do debate — emitido pela SIC e visto por 1,337 milhões de telespetadores — , deixava pouca margem para dúvidas sobre a perceção geral dos portugueses: 45,6% dos eleitores que tinham visto o debate da noite anterior na SIC atribuíam a vitória a Sócrates e apenas 30,2% defendiam que Ferreira Leite tinha estado melhor.

Nos jornais do dia seguinte, no entanto, a apreciação não era unânime na vitória clara de Sócrates. O "Público", por exemplo, titulava "Debate final mantém empate entre Sócrates e Ferreira Leite", num texto em que se defendia que os líderes do PS e do PSD "debateram argumentos sem que nenhum levasse o adversário ao tapete". "A forma como ambos os líderes se apresentaram no debate foi equilibrada e não houve de parte a parte nenhuma distração que liquidasse a sua imagem", prosseguia o jornal.

No 24 horas escrevia-se que o frente a frente "não surpreendeu" os portugueses. "No fundo, foi mais do mesmo", escrevia o diário, que destacava como ponto alto do debate o momento em que Sócrates "irritou a sua rival" quando recordou a promessa que Ferreira Leite fizera em 2003 de construir quatro linhas de TGV.

No Jornal de Notícias, o politólogo Viriato Soromenho Marques apontava para "uma clara vitória de José Sócrates de um debate que não foi nada esclarecedor para o país", centrado no passado e "sem discutir o futuro".

Sócrates viria a repetir a vitória de 2005, mas agora sem maioria (36,56%). O PSD teve 29,11%.

Santana x Sócrates, 2005: Equilíbrio no debate dos boatos

Durão Barroso vai para Bruxelas no Verão de 2004 e Santana Lopes assume a liderança em São Bento. Mas poucos meses depois o Presidente da República Jorge Sampaio invoca a "grave crise de credibilidade no Governo" para convocar eleições antecipadas. Santana vai a jogo e tem como opositor o recém-eleito líder socialista José Sócrates. A campanha viria a revelar-se como uma das mais polémicas de sempre, devido aos boatos, rumores e casos que envolveram a candidatura de Sócrates. A alegada homossexualidade de Sócrates foi o ponto alto dessas polémicas, que levaram mesmo os socialistas a acusarem o PSD de fazer uma "campanha negra".

"Um embate sob o signo do boato", era o título do Diário de Notícias na peça que, no dia seguinte, analisava o frente a frente da noite anterior, na SIC (o segundo mais visto de sempre, com 1,518 milhões de telespetadores). "Santana Lopes esteve melhor num debate marcado por momentos de tensão", lia-se no DN, que explicava que "os primeiros quinze minutos de crispação entre Santana e Sócrates, a propósito dos boatos e insinuações de campanha, acabaram por marcar toda a discussão". No "Público", o artigo sobre o frente a frente da noite anterior tinha por título "Debate equilibrado favorece Santana Lopes" e também dedicava parte substancial do texto às trocas de acusações entre ambos os candidatos sobre os rumores que marcavam a campanha.

No Expresso, Nicolau Santos defendia num artigo de opinião que se tinha tratado de "um debate que não ficará na memória" e de onde Sócrates "saiu claramente vencedor". A diversidade de opiniões sobre este frente-a-frente ficava, de resto, bem espelhada numa das notícias dessa edição do semanário, onde se contava que "PSD e PS reclamam vitória no debate Santana-Sócrates".

Nas urnas só ganhou um: Sócrates, com a primeira maioria absoluta da história do PS (45,03%). O PSD teve 28,77% dos votos.

Durão Barroso x Ferro Rodrigues, 2002: e empate que "soube a pouco"

Depois de uma derrota socialista nas autárquicas de 2001, Guterres invoca o famoso "pântano político" para apresentar o pedido de demissão. As eleições legislativas antecipadas são disputadas em março de 2002 por Durão Barroso como líder do PSD e Ferro Rodrigues como novo líder socialista.

O único debate entre ambos ocorre a 26 de fevereiro, na SIC, e é acompanhado, em média, por 1,230 milhões de telespetadores (o oitavo mais visto de sempre desde que há medição de audiência em Portugal). Mas apesar do interesse suscitado, o confronto deixa algo a desejar. "Xeque sem mate na SIC", titulava no dia seguinte o Diário de Notícias, para quem o debate "soube a pouco". "Ferro Rodrigues usou como tática a desvalorização das propostas do adversário e Durão Barroso preferiu castigar o candidato socialista com o facto de ter pertencido a um Governo que "não fez" durante seis anos", escrevia o jornal.

O "Público" partilhava a análise do DN e puxava para título "Ninguém foi ao tapete". "Se o debate tivesse durado apenas os dois minutos finais, Durão Barroso tê-lo-ia vencido claramente. Se o confronto se limitasse às questões económicas, então a vantagem estaria do lado de Ferro Rodrigues. No debate de ontem na SIC é praticamente impossível escolher 'o vencedor'", argumentou o jornal. O diretor de então, José Manuel Fernandes, assinava uma crónica intitulada "equilíbrio morno" e o colunista António Barreto defendia que Durão Barroso "foi derrotado, mas talvez não lhe cause prejuízo".

Acertou: o PSD vence as eleições (40,21%) e regressa ao poder em aliança com o CDS (8,72%). O PS teve 37,79%.

António Guterres x Durão Barroso: vitória socialista embalada por Timor

A 16 de setembro de 1999, António Guterres e Durão Barroso são os primeiros a debater no ciclo de frente-a-frente que antecede as legislativas desse ano. As sondagens do dia seguinte indicavam que, para os portugueses, o então primeiro ministro e líder socialista fora o vencedor do embate.

Mas para os analistas do Expresso, a vitória não só não foi esmagadora como o debate terá estado longe de ser profícuo em esclarecimentos para os eleitores.

"Os debates já não servem para ver quem será o melhor primeiro-ministro, mas apenas para avaliar quem sabe debater melhor. Deste ponto de vista, António Guterres venceu. Mas o mais provável é que nenhum dos participantes tenha conquistado um só voto que não estivesse já do seu lado antes do debate começar", escrevia Fernando Madrinha dois dias após o debate.

Num contexto político fortemente marcado pela situação então vivida em Timor, Durão Barroso teve mesmo nesse tema um dos principais motivos da sua derrota. "Desnorteou-se com o avassalador impacto da catástrofe timorense na campanha - em benefício de Guterres - e disparou erraticamente para todo o lado", escrevia no mesmo jornal José António Lima, convicto de que apesar de a generalidade dos portugueses atribuir a vitória no debate a Guterres, o socialista teria tido neste frente a frente "a sua pior performance" de sempre.

Nas eleições, o PS repete a vitória de 1995, mas falha a maioria por um deputado apenas (44,06%). O PSD fica com 32,32% dos votos.

António Guterres x Fernando Nogueira, 1995: a vitória "no primeiro minuto"

Em janeiro de 1995, depois de 10 anos como primeiro-ministro, Cavaco Silva anuncia que não se recandidatará nesse ano à liderança do PSD ou a um novo mandato em São Bento. Fernando Nogueira vence as eleições internas e defronta o então líder do PS António Guterres, nas Legislativas agendadas para setembro.

A campanha tem dois debates televisivos entre ambos. O primeiro, a 6 de setembro, na RTP, foi acompanhado por 1,492 milhões de pessoas e foi o terceiro debate mais visto de sempre em Portugal desde que há medição de audiências. A vitória de Guterres no frente a frente parece clara na análise do "Público". "Foi um debate ganho no primeiro minuto: a impressionante descontração de António Guterres chocou de imediato com a mal disfarçada insegurança de Fernando Nogueira", escreveu o jornal na edição do dia seguinte. O Expresso também deu a vitória ao líder socialista, mas de forma menos contundente. José António Saraiva, então diretor do jornal, defendia que "o debate foi mais equilibrado do que se esperava", e o subdiretor José António Lima argumentou que foi "uma vitória tangencial". E que Nogueira só perdeu "pela falta de convicção e de energia, pela imagem de cansaço para enfrentar a responsabilidade de um Governo".

No segundo debate, emitido pela SIC - e acompanhado por 1,462 milhões de telespetadores, ou seja o quinto mais visto de sempre - , os jornais foram unânimes em considerar que o líder do PSD melhorou. Mas não o suficiente para ganhar. No Expresso a generalidade das opiniões apontava para o empate. Na Visão", José Carlos Vasconcelos defendia que "Guterres, além de estar em melhor posição à partida, tem qualidades excecionais que lhe fizeram ganhar os dois debates: o primeiro de forma clara, o segundo à tangente".

Guterres viria a ganhar as eleições, mas sem maioria (43,76%). O PSD fica-se pelos 34,12%).

OS DEBATES DESTE ANO NA TV

Jerónimo de Sousa - Catarina Martins, 1 de setembro, RTP Informação
António Costa - Jerónimo de Sousa, 3 de setembro, SIC Notícias
Paulo Portas - Catarina Martins, 8 setembro, SIC Notícias
Passos Coelho - António Costa, 9 de setembro, RTP1, SIC e TVI
Paulo Portas - Heloísa Apolónia, 10 de setembro, TVI24
Passos Coelho - Catarina Martins, 11 de setembro, RTP Informação
António Costa - Catarina Martins, 14 de setembro, TVI24