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O primeiro debate foi entre Dupond e Dupont

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Marcos Borga

Catarina Martins e Jerónimo de Sousa foram os primeiros protagonistas dos debates televisivos das legislativas. Durante 50 minutos, mostraram que o combate que travam é contra a direita e o PS. Ficou a dúvida: afinal o que é que os diferencia?

De um lado, a porta-voz do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, quase a completar 42 anos. Do outro, o histórico líder comunista e o decano da bancada parlamentar do PCP e deputado constituinte, Jerónimo de Sousa, 68 anos já feitos. A intenção declarada do primeiro debate das legislativas era mostrar "afinal o que separa" os dois partidos à esquerda do PS. Fora a idade dos líderes, a diferença de género e de estilo, na verdade, pouco se constatou de diferente nos discursos e na mensagem política. À força de se distanciarem da "política de direita" e dos governos de CDS, PSD e PS, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa 'condenaram-se' a uma aproximação.

Pareciam Dupond e Dupont, dos livros de aventuras de Tintim. Jerónimo apontava o dedo ao PS por "sempre, mas sempre" ter optado "por uma política de direita. Catarina completava. "Não acho que o PS seja igual ao PSD e ao CDS, mas alinhou sistematicamente ao lado da direita"

O líder comunista afirmou "claramente que estamos prontos e preparados para governar". A porta-voz do BE fez ‘copy paste’: "o Bloco assumirá todas as responsabilidades e está disponível para governar".

E quando uma eventual convergência com o PS entrou em debate, Jerónimo garantiu que a CDU fará "parte de um governo de acordo com a vontade do povo e não para fazer um favor a outros". Catarina concordou: "acho que o Jerónimo já respondeu tantas vezes quanto eu a essa pergunta. A questão está em saber o que quer o PS fazer pelo País e não o que queremos nos fazer pelo PS".

"Não sei se encontrou uma divergência"

O debate foi sereno, sem pontos baixos e sem pontos altos. Vitor Gonçalves, o jornalista da RTP Informação, que conduziu o debate, bem tentou que os convidados expusessem as diferenças políticas. Desde a primeira pergunta que procurava esmiuçar divergências, mas, ao fim de 35 minutos confessava que só encontrava "uma grande identificação de discursos". Missão falhada, mas não se desiste.

Era altura para entrar nos temas da Europa, onde os programas dos dois partidos da esquerda parecem ter alguma margem de distância. O PCP quer estudar "a libertação da submissão do euro" e a saída da união monetária e financeira. Jerónimo confirma: "é irresponsável não fazer esse estudo, porque o euro é uma aventura com consequências dramáticas".

O jornalista vê aqui uma janela de oportunidade. Aos 41 minutos, passa a palavra a Catarina Martins para que ela defenda a manutenção do euro e mostre como os dois partidos, afinal, têm propostas diferentes. "Não sei se encontrou uma divergência"' começa por responder a líder bloquista, arrefecendo os ânimos de quem, finalmente, encontraria motivos para o debate se acender.

E não se acendeu. O Bloco "desde 2012 que vem dizendo que, se esta União Europeia não mudar, Portugal tem de se preparar para a saída do euro". Catarina Martins voltou a tirar o tapete ao entrevistado. A necessidade da esquerda marcar a linha vermelha contra a austeridade aproximou de tal forma o PCP e Bloco de Esquerda, que parecem concorrer juntos Na verdade, só mesmo à lupa, ou com muito boa vontade se consegue distinguir as diferenças. Desta vez, à vista desarmada, não houve, mesmo nenhuma.

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