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“O azar da Grécia é o azar do PS”

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Nuno Magalhães acusa o PS de cobardia política por não querer Paulo Portas nos debates televisivos

Alberto Frias

António Costa não é Alexis Tsipras, Mário Centeno não é Varoufakis, nem o PS é o Syriza — o líder parlamentar do CDS reconhece as distâncias, mas acentua a proximidade: Costa colou-se a Tspiras mais do que qualquer outro líder socialista, e “parte do PS tem grande simpatia pelo Syriza”. Também por isso, Nuno Magalhães acredita numa maioria “desejavelmente absoluta”

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Com as sondagens a dar à coligação 38% no máximo, pedem uma maioria “inequívoca”. Isso é um eufemismo de maioria absoluta? E alguém acredita que isso é possível?
Uma maioria inequívoca é isso mesmo: inequívoca. Desejavelmente absoluta. E acho que muita gente acredita. Antes de mais, sendo do CDS, tenho alguma dificuldade em fazer fé nas sondagens. Em segundo lugar, as próprias sondagens dizem que há muitos indecisos. Como muita gente quer escolher a alternativa mais viável, mais segura e com propostas mais exequíveis, eu acredito que as nossas propostas serão premiadas no sprint final pelos indecisos.

No Pontal, Passos Coelho insistiu no argumento da Grécia. Se andaram quatro anos a repetir que Portugal não é a Grécia, para quê comparar agora os dois países?
Quem trouxe a Grécia para a campanha não foi a coligação, foi a esquerda. Acho natural que o primeiro-ministro possa alertar os portugueses de que há um exemplo concreto, atual, do que era o caminho preconizado pelo PS e pelo BE. Quando o Syriza ganhou, tivemos António Costa e altos dirigentes do PS a anunciarem um novo rumo, dizendo que aquele era o caminho. Nenhum partido socialista na Europa apoiou o Syriza de forma tão veemente como o PS português.

Depois disso, Costa já fez um longo caminho, considerando “tonta” a estratégia do Syriza…
Disse uma coisa e o seu contrário. Mas imaginemos que ele era o primeiro-ministro português quando o Syriza ganhou — teria ido atrás, contra a sua própria família europeia.

Acha que o PS é o Syriza português?
Parte do PS tem grande simpatia pelo Syriza. E mais: o PS cometeu neste quatro anos dois erros capitais. Um: não soube fazer a revisão do passado, dizer que se tinha enganado e que as suas políticas trouxeram a troika a Portugal; dois: já com António Costa, foram atrás da quimera do Syriza. Isto, evidentemente, mete medo ao eleitorado de centro e centro-esquerda, que até estaria disponível para votar PS mas não quer regressar atrás.

Mas que eleitor é que que olha para Costa e vê um Tsipras?
Algum eleitor que veja a probabilidade de voltarmos às políticas irresponsáveis de 2007-2011, ou que, olhando para Costa e a sua equipa, veja pessoas com enorme simpatia pelo Syriza.

No PS temos visto sobretudo Mário Centeno — acha-o um Varoufakis?
Não. Mário Centeno é alguém que reconhece que o desemprego está a diminuir e o emprego a aumentar, tem a lucidez de reconhecer factos. Mas há outros dirigentes muito próximos de Costa que negam essa evidência.

É curioso que diga que uma parte do PS olha com simpatia o Syriza, tendo em conta que uma parte do Syriza já não vê com simpatia o Syriza.
Mas pode acontecer ao PS o que está a acontecer no Syriza. A parte do PS que olha com simpatia para o Syriza, gosta do partido que traça linhas vermelhas, ou do que transforma o não em sim e assina o terceiro resgate?

Vê no PS divisões tão grandes?
Do ponto de vista discursivo, seguramente. No mínimo, alguém terá de engolir sapos.

Isso acontece a quem chega ao Governo, como bem sabe.
Com certeza. Mas tem de haver uma linha de orientação coerente. O eleitorado deve avaliar a linha condutora do PS nos últimos meses: o Syriza passou de ser uma nova esperança para ser uma proposta tonta, mas ao mesmo tempo, sempre que o PS apresenta propostas, aumenta o défice ou a dívida. Isso deve fazer pensar.

O PS garante que cumprirá os limites do Pacto Orçamental. Não chega?
Não. Vemos propostas do PS, que muitas vezes não são quantificadas...

O PS esta semana voltou a quantificar as propostas. Já do lado da coligação, ou faltam contas ou faltam dados para fazer contas, como no caso do plafonamento da Segurança Social, em que não dizem a quem se aplica a proposta, nem a partir de que valor.
A coligação quantificou e enviou para Bruxelas o Plano de Estabilidade e aí está o que pretendemos fazer. Esse é o pressuposto do programa eleitoral. Quanto à Segurança Social, propusemos ‘N’ soluções que o Tribunal Constitucional inviabilizou, e por isso há um ano dissemos que não faríamos nada até ao final da legislatura sem o acordo do PS, que esteve indisponível. Estamos só a ser coerentes.

Voltando à questão grega: o azar da Grécia é a sorte da coligação?
De todo, desejo o melhor para a Grécia. Se calhar o azar da Grécia é o azar do PS, porque trouxe a questão grega para Portugal. Até houve quem dissesse que quem defendia o interesse de Portugal era o sr. Tsipras. Viu-se.

Esta semana soube-se que desde 2011 a percentagem de trabalhadores a ganhar o salário mínimo quase duplicou — já são 19,6%. A conclusão é que é melhor ter um emprego precário e mal pago do que não ter emprego?
Isso é uma evidência. Não é o desejável, mas é o possível...

O PS tem propostas para contrariar essa “evidência”; não há essa preocupação no Portugal à Frente (PàF)?
Quem criou condições para na concertação social haver aumento do salário mínimo nacional, contra os credores e em especial a opinião do FMI, foi esta coligação — para quem diz que não batemos o pé à troika, é um bom caso para meditar. Por outro lado, no último ano, por cada contrato a prazo, houve três contratos sem termo, o que é normal tendo em conta que o índice de confiança dos empreendedores é o maior desde 2008...

...e que hoje é mais fácil despedir.
A flexibilização das leis laborais é um elemento do jogo, assim como o facto de haver mais confiança. Houve um ajustamento, ninguém o nega, o memorando trouxe muito sofrimento. Agora, é preciso fazer mais e melhor. Nos primeiros três anos, a prioridade era cumprir o memorando e correr com a troika; hoje, não obstante a descida consistente do desemprego, a prioridade deve ser para aqueles a quem essa melhoria ainda não chegou.
Vão insistir na criminalização do enriquecimento ilícito?

É um percurso inevitável, pois as instituições europeias vão nesse sentido, assim como diversos instrumentos internacionais que nós teremos que transpor. Mas fazê-lo com a nossa Constituição é um exercício complexo — a avaliar pelas decisões do TC, se calhar impossível.

Vê uma revisão constitucional que permita a inversão do ónus da prova?
Não. Mas acho que pode ser feita a criminalização do enriquecimento ilícito sem a inversão do ónus da prova.

Já acharam isso duas vezes e das duas vezes o TC chumbou.
Sim, mas a questão é: há ou não vontade política? Houve da parte da maioria, do PCP e do BE, só não houve do PS. Há um sentimento na sociedade de que é preciso uma resposta penal, punitiva, quando há pessoas que, de um momento para outro, de forma inexplicável, apresentam um rendimento bastante superior ao seu rendimento declarado.

As polícias vão fazer greve de zelo e manifestações, por ainda não terem sido aprovados os estatutos da PSP e da GNR. O CDS já não é o partido dos polícias e da segurança?
É e será. Nestes quatro anos o único ministério cujo orçamento não diminuiu, e até aumentou, foi o do Ministério da Administração Interna. Mais: em todos os cortes que afetaram os funcionários públicos as forças de segurança foram excecionadas. Esta maioria revogou uma lei que tratava os polícias como funcionários públicos. E atingimos os melhores resultados de sempre em relação à diminuição de crimes.

Os polícias são mal agradecidos?
Não. É uma prioridade absoluta a aprovação dos novos estatutos. E estou convicto que vai haver. Sei que em relação à GNR há algumas resistências, que não são de hoje, no âmbito das forças armadas. Mas tudo acabará bem e até ao final do mês, como a senhora ministra anunciou, serão aprovados os novos estatutos.