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Do “Pato Donald socialista” à candidatura: como Maria caminhou para Belém

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Alberto Frias

Apadrinhada por históricos do PS ou autoinduzida? Alinhada ou rebelde face à direção de Costa? Eis como Maria de Belém fez a caminhada pública para ser candidata às eleições presidenciais. Incluindo a sondagem “do Pato Donald socialista”.

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

Jornalista da secção Política

A expressão é de Miguel Sousa Tavares, que esta segunda feira disse na SIC que até “o Pato Donald socialista teria 20%” numa sondagem para as presidenciais. No dia em que Maria de Belém assumiu oficialmente a sua candidatura às eleições de janeiro, o comentador referia-se a uma sondagem de julho do Expresso. Mas, nos jornais, a caminhada de Maria para Belém começou em janeiro.


#1: 29 de Janeiro: Ana Gomes surpreende PS
“O PS tem excelentes candidatos possíveis, homens e mulheres. E como é altura de Portugal ter uma mulher Presidente da República, naturalmente sugeri aquela que me parece óbvia, que foi presidente do partido, Maria de Belém”. Ana Gomes confirmava aos jornalistas o que acabara de propor na reunião da Comissão Política Nacional do PS.

A proposta “causou ‘surpresa geral’ entre os dirigentes socialistas”, noticiou então a Lusa. A hipótese favorita dos socialistas era ainda António Guterres e esta proposta foi não só a primeira a ser feita como Maria de Belém estava ligada a António José Seguro, que havia sido apeado por Costa meses antes. Aliás, já em 2013 se falava na hipótese de Seguro propor a então presidente do PS para candidata a Belém.


#2: Fevereiro/junho: ser notícia com “não comento”
“Como militante de um partido político, vou empenhar-me relativamente às legislativas. Depois das legislativas, logo se verá” (Rádio Renascença, março); “Fui a primeira pessoa a dizer em público que [a eleição presidencial] não é a agenda que interessa ao PS neste momento. A agenda das legislativas é que é muito importante e eu quero muito que o PS ganhe, portanto dedicar-me-ei a isso de alma e coração” (Público, maio).

Foram várias as entrevistas ou as declarações semelhantes de Maria de Belém até ao verão. As respostas eram sempre evasivas, as perguntas não: “O seu nome tem sido falado para uma candidatura presidencial...” é, por exemplo, a primeira frase do Público na entrevista citada, que aliás tem como título “Presidente corre o risco de paralisia de atuação após as legislativas”. O assunto esteve sempre na agenda mediática.


#3: Junho: a sondagem interna
A Aximage realiza uma sondagem para consumo interno dos apoiantes de Maria Belém, supostamente encomendada por apoiantes de Guilherme d’ Oliveira Martins, o que não será confirmado. A sondagem não é tornada pública mas o Expresso noticia então que a sondagem foi realizada.

A sondagem dará bons índices de notoriedade espontânea (o que é diferente de intenções de voto) a Maria de Belém, colocando-a ao nível de Marcelo Rebelo de Sousa e de Rui Rio e à frente de Guilherme d'Oliveira Martins.

#4: Julho, a sondagem do Pato Donald
No seu Barómetro mensal, que mede popularidade de políticos, intenções de voto e perceção sobre quem irá ganhar as eleições legislativas, o Expresso inclui duas perguntas sobre presidenciais: uma sobre os candidatos preferidos à direita, outra sobre os candidatos preferidos à esquerda. Nos da esquerda, Sampaio da Nóvoa é preferido por 33% da amostra, seguindo-se Maria de Belém com 25% e Henrique Neto com 4,8%.

É esta sondagem que Miguel Sousa Tavares agora chama de “pontapé [de saída] que ela precisava para lançar a candidatura”, sendo que, na opinião do comentador, “qualquer socialista conhecido do público há vinte anos teria 20% naquela sondagem; o Pato Donald socialista teria 20%.” Sousa Tavares conclui, portanto, que “a candidatura dela foi autoinduzida, foi ela que a lançou”.

#5: 8 de agosto, o abaixo-assinado
50 mulheres e 50 homens assinam um apelo à candidatura presidencial de Maria de Belém. O abaixo-assinado é antecipado no Expresso e tornado público dias depois. Joshua Ruah, médico e socialista, é um dos promotores da iniciativa. António Rendas (reitor da Universidade Nova de Lisboa), Luís Reto (reitor do ISCTE), Rita Ferro e Leonor Xavier (escritoras), Marta Crawford (sexóloga), Maria do Céu Santo e António Vaz Carneiro (professores da Faculdade de Medicina de Lisboa), Nuno Júdice (poeta), Ana Paula Martins (farmacêutica) e Fernando Correia (jornalista) são alguns dos 100 nomes.


#6: Serei candidata
Comunicado oficial: “Comuniquei ao Secretário Geral do Partido Socialista a intenção de me candidatar à Presidência da República.” O anúncio é feito “para evitar especulações e pelo respeito que me merecem as muitas pessoas que me têm manifestado o seu apoio.” A candidatura será apresentada “após as eleições legislativas de 4 de outubro”, que são “a prioridade para o Partido Socialista, neste momento”.

No próprio dia, António Costa cumprimenta Maria de Belém sem se comprometer sobre se o PS a apoiará ou não. No dia seguinte, Manuel Alegre declara-lhe apoio. Ferro Rodrigues diz que debater já as presidenciais é miopia.