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Política

Uma “voz de alerta” no Parlamento

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A jurista Ana Sofia Antunes, presidente da ACAPO, concorre pelo círculo de Lisboa nas listas do PS

Alberto Frias

Cega de nascença, candidata do PS às legislativas fará dos direitos dos deficientes a bandeira do seu mandato

A bengala ajuda a tatear o caminho. Sem despistar obstáculos no longo corredor alcatifado, Ana Sofia avança com passos firmes mas vagarosos. Ao fim de alguns metros, no entanto, há algo de diferente por baixo dos seus saltos altos. O chão já não é aveludado, o que prenuncia uma mudança. Vários centímetros à frente, a bengala nota uma inclinação. Um, dois, três degraus. “E agora? A porta do hemiciclo fica à esquerda ou à direita?”. Lentamente, o mapa do Parlamento começa a desenhar-se na mente de Ana Sofia Antunes, cega de nascença e candidata do PS às legislativas, que deverá ser a primeira pessoa com deficiência a chegar a deputada.

Se for eleita — estando em 19º lugar pelo círculo de Lisboa tudo indica que sim —, a presidente da Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal (Acapo) não tem dúvidas: fará dos direitos dos deficientes a sua bandeira. “Obviamente será essa a minha causa. Serei uma voz de alerta para chamar a atenção para coisas muito simples que podem facilitar enormemente a vida das pessoas com deficiência, de que muitas vezes as outras pessoas nem sequer se lembram”.

Para a advogada, de 33 anos, as pessoas com deficiência não se sentiam, até agora, devidamente representadas, o que se reflete em altos níveis de abstencionismo. “Como poderíamos sentir-nos se nem sequer podemos votar sozinhos, sem ajuda de alguém?”, questiona.

A “acessibilidade do voto” é, precisamente, uma das medidas por que vai bater-se no Parlamento. Não é difícil, nem muito dispendiosa, garante. Basta dispor cada local de voto de uma matriz em Braille, uma espécie de escantilhão que se põe por cima do boletim e que indica o nome de cada partido, à frente do qual está um quadrado vazado. Fazendo uma cruz nesse espaço, o cego estará na verdade a inscrevê-la no boletim normal que se encontra por baixo. “Desse modo, não teremos de passar pela situação humilhante de ter de pedir a alguém que vote por nós”, explica.

A educação especial, que “regrediu brutalmente nos últimos anos”, a acessibilidade pedonal e o combate à discriminação, nomeadamente no que diz respeito ao emprego, serão outras das suas preocupações.

A este nível, Ana Sofia sabe do que fala. Terminou o curso de Direito com a terceira melhor média do seu ano, mas esteve seis meses até conseguir que algum escritório de advocacia a aceitasse para estagiar, ao contrário dos seus colegas que conseguiram colocação imediata. “Foi a fase mais dura da minha vida”, confessa.

Os futuros patrões não percebiam como é que alguém que não vê poderia ler os calhamaços de processos que enchem os escritórios de advogados. Mas um simples software instalado no seu portátil resolveu o problema. O programa de voz lê o conteúdo dos textos que estão a ser projetados no ecrã, desde que estejam em Word e não em PDF.

Foi com esse software que trabalhou como jurista da Câmara de Lisboa, onde entrou em 2007 pela mão da então vereadora da oposição, Helena Roseta. Dois anos depois, Ana Sofia passou a trabalhar diretamente com o vereador da Mobilidade, Fernando Nunes da Silva, tendo coordenado o plano de acessibilidade pedonal direcionado para pessoas com deficiência, que começará agora a ser executado, com a eliminação de obstáculos em passeios e edifícios públicos.

Foi o trabalho na autarquia que levou António Costa a convidar a jurista, presidente da Acapo desde o ano passado. Mesmo que não seja eleita, Ana Sofia acredita que já ganhou. Ela e todas as pessoas com deficiência, diz. “Abriu-se uma porta que nunca se tinha aberto. Até hoje, nenhuma pessoa com deficiência foi eleita para um cargo público. Mas agora há uma nova esperança. Se pode haver um deputado, também pode haver um ministro ou um autarca, como acontece lá fora”.