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Portugal alinha com países que querem a reforma da zona euro

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A chanceler alemã e o Presidente francês têm pontos de vista diferentes sobre a reforma do euro

Grigory Dukor / Reuters

Mais do que integração orçamental, Governo quer mais integração económica no euro. Socialistas de acordo

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

O Governo português está certo de que a proposta que o Presidente francês François Hollande pôs em cima de mesa para reforçar a zona euro vai no bom sentido e está disposto a trabalhar com ela: “Portugal é um dos países a quem claramente interessa a reforma e aprofundamento da zona euro, quer nos mecanismos de intervenção, capacidade orçamental e modo de governo”, disse ao Expresso o ministro Miguel Poiares Maduro.

Ou seja, os três pilares da reforma francesa (ver texto abaixo). “Tal como está, o atual statu quo não é viável”, disse o ministro. Na boa linha europeia, tudo é negociável e, por isso, a sugestão francesa mais polémica — a da criação de um núcleo de países de vanguarda (que Hollande nunca formulou dessa forma) — é seguramente para cair.

Essa ideia foi reiterada ao Expresso pelo secretário de Estado de Assuntos Europeus: “As indicações que tenho é que não há qualquer projeto francês de dividir a zona euro em dois níveis de governação, nem isso seria considerado seriamente pelos outros membros”. Bruno Maçães foi mesmo perentório: “a questão nem se coloca porque não há qualquer projeto francês com essa natureza”, acrescentou.

Para o governante português é claro que, hoje em dia, no que se trata da reforma da zona euro, a dinâmica “não é restringir”, mas sim alargar e, “sempre que possível, a países não euro”. Mas propostas detalhadas ainda há poucas, e a França limitou-se a delinear propostas gerais. Mais, só em outubro, o que está em linha com os calendários europeus e de outros países.

A União, por sua vez, começa a tirar lições da crise grega. Na semana passada, realizou-se em Bruxelas o primeiro conselho de ministros dos Assuntos Europeus depois da cimeira sobre a Grécia, e cuja ordem de trabalhos foi precisamente discutir a zona euro.

“Foi um momento de viragem”, definiu Maçães: pela primeira vez, disse, reconheceu-se que há uma crise política na zona euro, uma crise de fragmentação política a que há que dar resposta. “A discussão foi menos sobre os países em crise e mais sobre a zona euro e até que ponto estamos a perder a opinião pública, como já se vê em alguns países e o que se pode fazer contra isso”, referiu.

Neste contexto, a crise grega serviu de detonador. O ex-comissário socialista António Vitorino, por exemplo, não duvida que a situação da Grécia, “que está longe de estar resolvida, vai obrigar a acelerar a reforma da zona euro, em particular no que diz respeito ao pilar económico, aos incentivos ao investimento ou à legitimidade das instituições”, disse ao Expresso. As suas palavras dificilmente não seriam subscritas pelo Governo.

Após anos de divergência em relação à política europeia, nomeadamente por causa da posição face à troika, PSD e PS começam de novo a convergir no tema. O programa eleitoral do PS é explícito na promoção de políticas europeias “direcionadas para o crescimento”, nomeadamente “através dos mercados europeus, como a união digital ou energética”, o discurso do Governo também.

Viragem de 180°

“A política orçamental foi já bastante integrada nos últimos anos, o momento agora é de desenvolver uma política económica europeia, na economia digital, na energia, no emprego”, disse Bruno Maçães. “Precisamos de reformas estruturais com escala europeia.”

Claramente, a posição do Governo mudou. Se já Passos Coelho tinha feito um discurso em Florença reclamando um Fundo Monetário Europeu e mais capacidade financeira para a zona euro, é agora o secretário de Estado que defende que a Europa precisa de mais integração das políticas económicas, ou seja, uma política de emprego com um subsídio de desemprego europeu (uma ideia que já António José Seguro tinha sugerido), de união de energia, agenda digital, política sobre investimentos, inovação.

“Temos esquecido o lado da integração económica, que é mais importante, mais fácil de fazer e produz mais efeitos”, disse Maçães, que vai ao ponto de sugerir um “ministro da Economia europeu”, em contraponto a um ministro das Finanças, como a Alemanha quer. “Temos uma diferença estratégica com algumas propostas alemãs e francesas”, disse o secretário de Estado, que assume melhor entendimento com Itália. No novo xadrez europeu, Portugal tem interesse estratégico em aprofundar a integração e impedir a centralização: “Lisboa tem de ser tão central como Frankfurt”.