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Lesados do BES. “Temos as eleições à porta, vamos atacar a maioria”

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ELSA ARAÚJO RODRIGUES

Clientes de papel comercial Espírito Santo querem aproveitar as eleições legislativas para criar pressão política. A mensagem radicaliza-se. As manifestações vão multiplicar-se

“Agosto quer-se quente e vai ser quente”. Ricardo Ângelo, 35 anos, médico dentista e presidente da Associação Os Indignados e Enganados do Papel Comercial do BES, deixa claro o que se segue na luta que ao início da tarde desta quinta-feira reuniu dezenas dos chamados lesados do BES numa manifestação em Lisboa.

Agosto é mês de férias de emigrantes, muitos dos quais também perderam dinheiro em aplicações Espírito Santo. Agosto é mês pré-eleitoral e de grande intensidade política e mediática. “Já fizemos cerca de quinze manifestações. Vamos fazer cem, se for preciso”, assegura

Há novas cores nas manifestações dos lesados do BES. O verde do Novo Banco deu lugar a outras cores. Ao vermelho das lanternas chinesas; mas sobretudo ao laranja das T-shirts com palavras fortes a cartazes do Montepio. Estamos em frente à sede do Novo Banco. Sim, leu bem, do Montepio.

Ricardo Ângelo endurece o discurso. As manifestações vão repetir-se “até derrubarmos o Banco de Portugal, que tem sido um muro intransponível. Mas todos os muros caem”. Em causa estão as decisões do Banco de Portugal de retirar o ónus do papel comercial do Novo Banco, contra a opinião da CMVM, que assumiu uma posição oficial mais próxima do interesse dos clientes daquele título de dívida. “O Banco de Portugal tem obrigatoriamente de criar consenso com a CMVM. E temos de apelar ao primeiro-ministro, ao governo, ao Presidente da República para não se esconderem e para interferirem. Para sentarem à mesa esses intervenientes para haver uma solução para o nosso caso.”

A associação dos lesados defende que os produtos financeiros lhes foram vendidos quando as autoridades já tinham conhecimento dos problemas no GES, pelo que deviam ter impedido a sua comercialização. “É fundamental haver uma decisão relativamente ao papel comercial para ressarcir estas pessoas que foram enganadas pelo sistema financeiro, com a conivência do Banco de Portugal, que sabia que estavam a vender um produto, no BES antigo, com os funcionários que estão dentro do Novo Banco. Falido.

Emigrantes lesados

A associação dos lesados está em contacto direto com outra associação, a MEL, que representa emigrantes em diversos países que haviam aforrado poupanças suas em papel comercial do GES. “A intenção do Banco de Portugal e Novo Banco é tentar apaziguar os ânimos com uma falsa solução que não lhes garante o capital que eles investiram”, denuncia Ricardo Ângelo. Que alarga a suspeita também a clientes do Montepio, que recentemente se juntaram aos lesados do BES. “Acreditamos que numa sinergia com todos seremos mais fortes.”

Na manifestação de hoje estariam cerca de 70 pessoas, vestidas a rigor. As t-shirts com as palavras de ordem são sobretudo azuis. Mas também as há as brancas, pretas e laranja. Um dos que veste laranja é precisamente um antigo funcionário do BES.

“Temos as eleições à porta e vamos atacar a maioria. Estou vestido com as cores do PSD, mas é só por mero acaso. Todos nós, que votámos na maioria, vamos votar contra a maioria”, diz Jorge Pires. Tem 62 anos, diz que trabalhou 42 anos no BES, reformou-se. Na sua t-shirt laranja lê-se “somos enganados dentro dos bancos”. Jorge explica: “Fui sub-gerente e estava como gestor. Cheguei a vender muitos produtos aos imigrantes como se fossem contas a prazo, que eram as instruções que recebíamos de cima: de que era capital e taxa garantida.” Hoje, confessa: “Sinto um peso na consciência. Por nós, lesados do papel comercial, e sinto o problema dos imigrantes, porque eu também ajudei nesta falcatrua.”

Maria Ferreira, 58 anos, nasceu no Brasil, onde diz que também foi lesada. “Foi na época do Collor de Melo. O governo chegou na televisão às 18 horas e disse: a partir deste momento não existe ninguém nem muito rico e nem muito pobre. Houve muita morte. Só peço a Deus que não aconteça isso aqui. Sou imigrante, vim para Portugal e agora também sou lesada aqui. Imagina o meu estado...”

“A solução tem de ser política”, diz Albino Torres, 59 anos, comerciante de Espinho. “Mas também é provável que com a venda do Novo Banco isto possa ser resolvido. O novo comprador há de querer resolver os problemas todos. E há de querer dar-me o dinheiro que está no meu extrato de conta”…