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Virgínia

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D.R.

Virgínia de Moura, uma das mulheres com o nome gravado no mural da resistência ao fascismo, faria 100 anos este domingo

Chegou. O porte era imponente. Quase se diria altivo. Projetava um magnetismo intimidante. Apesar do corpo franzino. Apesar da baixa estatura. Apesar da fragilidade aparente. O olhar, escondido sob uns óculos pesados, grandes, irradiava um intenso desejo de vida. Era um olhar penetrante, brilhante. Uma espécie de fogo enchia aquele rosto de onde brotava um sorriso longo, permanente, carinhoso, envolvente.

O jovem estagiário de jornalismo tentava disfarçar as tremuras a percorrerem-lhe o corpo todo. Durante a noite e madrugada travara uma dura batalha com o sono para não esquecer nem uma das perguntas jorradas em turbilhão. Não podia falhar. Não queria falhar. Era-lhe insuportável a ideia de falhar perante uma mulher transformada em lenda nos círculos familiares e de amigos.

Uma a uma, passavam-lhe as imagens reconstruídas a partir das histórias contadas ao longo dos anos. Histórias de resistência. Histórias de luta. História de combate. Histórias de violência. Histórias de quem soube dizer não. Histórias de quem foi presa pela PIDE dezasseis vezes, nove vezes processada, três vezes condenada. Histórias de quem foi agredida pela polícia política em atos públicos uma e outra e ainda outra e mais outra e tantas incontáveis outras vezes. E levantava-se sempre. E resistia sempre. E continuava sempre.

D.R.

Ouvir conversas noturnas lá em casa fizera parte do crescimento, desde menino até o final da adolescência do jovem estagiário de jornalismo. A proximidade do Cine Vitória, de Rio Tinto, em Gondomar, deixara muito viva e sempre presente a memória dos acontecimentos de 1951, durante a campanha para a presidência da República de Ruy Luís Gomes. Vira várias vezes a fotografia a preto e branco tornada ícone da luta antifascista na região do Porto. O candidato, Lobão Vital e ela. A alguns partiram-lhes a cabeça, a outros partiram-lhes mãos ou braços. Aparecem os três. Todos com ligaduras. Todos machucados. Todos feridos, na sequência da violenta carga policial exercida sobre os participantes na sessão de esclarecimento realizada na única casa que a Norte lhes abrira portas. A candidatura acabou por ser rejeitada por um Conselho de Estado entretanto criado e após uma alteração legislativa com efeitos retroativos que atribuía àquele órgão uma prerrogativa até então pertencente ao Supremo Tribunal de Justiça.

Outra imagem. Essa já vivida pelo estagiário. Acontecera o 25 de abril. O liceu Alexandre Herculano entra em turbulência, como era habitual numa escola feita de muitas lutas. Nas traseiras do liceu estavam as instalações da PIDE/DGS, para onde se encaminharam os estudantes. Foram horas longas á espera da libertação dos presos, ocorrida apenas no dia 26. O então capitão Carlos Azeredo, ao vê-la na rua, chama-a para participar na libertação. Foi a festa. Foram as lágrimas. Foram as crises de choro. Foram os abraços. Foi a alegria. Foram os gritos como trovões. E ficou a foto. Aquela foto. Ela, inteira. O sorriso total. Rasgado de orelha a orelha. O braço firme, levantado. A mão aberta e, por uma ilusão de ótica, os dedos a tocarem a placa como o nome da artéria: rua do Heroísmo. Era aquele o nome da rua onde se encontravam as instalações portuenses da polícia política.

D.R.

Tanta vida vivida entre aqueles dois momentos. Desde o nascimento em Guimarães, filha de mãe solteira e durante anos repudiada pelo pai e avós. Aos 15 anos já estava a participar numa greve estudantil na Póvoa do Varzim. Três anos depois ligava-se ao Socorro Vermelho, uma estrutura ligada ao Partido Comunista Português - partido de que foi militante até á morte - de apoio aos presos políticos portugueses e espanhóis. Aí conhece o estudante de arquitetura António Lobão Vital, transformado em companheiro de toda a vida.

Segunda mulher a ser licenciada pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto esteve sempre impedida de exercer qualquer atividade em organismos públicos. No Porto desenvolveu uma importante atividade cultural nos anos de 1940 e 1950, com colaborações em várias publicações e participação na edição da revista “Sol Nascente”. Fez o discurso de encerramento do 3º Congresso da Oposição Democrática, realizado em 1973 em Aveiro.

O fascismo temia-a. Alguns setores oposicionistas gostavam de a ver como a “Pasionaria” portuguesa. As pessoas não são iguais. As circunstâncias não são as mesmas. As personalidades são distintas. Os nomes são apenas isso. Nomes. Era-lhe vital a luta pela liberdade, da qual não dissociava a luta pelos direitos das mulheres, pela libertação dos povos submetidos ao poder colonial, o combate em defesa da melhoria das condições de vida dos trabalhadores, ou um intenso empenhamento em tudo quanto pudesse contribuir para o enriquecimento cultural das populações.

D.R.

Tinha 83 anos quando morreu, no dia 19 de abril de 1998. Se fosse viva, faria 100 anos este domingo. Gravado no mural da resistência ao fascismo ficou um nome: Virgínia de Moura. “Chama-me Virgínia”, disse ao ruborizado e intimidado jovem estagiário de jornalismo. Sorriu. Insistiu. “Virgínia, só”.