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Myint Naing, o escravo que regressou a casa 22 anos depois

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O regresso emocionado a casa do escravo Myint Naing

YE AUNG THU/AFP/GETTY IMAGES

A história, extremamente comovente, aconteceu na Birmânia. O inferno de Myint Naing foi igual ao de milhares de outros na região, o desfecho que lhe tocou foi felicidade que chegou a poucos

Luís M. Faria

Jornalista

É uma daquelas histórias que qualquer dia dá um filme. A odisseia de um homem que saiu adolescente de casa, levado pelo desespero; que atravessou os extremos da miséria, numa sucessão de maus-tratos quase inacreditáveis no nosso tempo; e que finalmente conseguiu regressar à sua terra, décadas após ter partido. A história é um alerta para o fenómeno da escravatura humana, ainda bastante real no século XXI, e especialmente frequente em zonas como o Sudoeste Asiático, onde indústrias florescentes com uma grande componente de trabalho humano - no caso, a indústria da pesca - se valem da pobreza de milhões de pessoas.

Myint Naing era birmanês e pobre. Quando um homem apareceu na sua aldeia a recrutar trabalhadores para a Tailândia, oferecendo-lhes a perspetiva de um ordenado com que pudessem ajudar a família, a princípio a sua mãe hesitou. Mas a necessidade era demasiada. Naing aceitou e partiu em 1993 (com a pressa, nem se despediu da mãe). Ao fim de um mês estava no mar, e semanas depois chegava à ilha de Tual, na Indonésia. Aí ele e os seus companheiros foram informados pelo capitão de que daí para a frente, essencialmente, eram escravos. Ninguém se ia preocupar com eles, ninguém os iria procurar, e tinham de fazer tudo o que lhes ordenassem.

À volta de Tual a pesca era rica, e Naing começou a passar semanas seguidas no mar, trabalhando por vezes dia e noite, por cerca de 10 dólares ao mês. Os homens não tinham remédio. Se por algum motivo faziam uma pausa, eram espancados. Doença era algo que não existia - não podia existir. De vez em quando, havia alguém que se atirava borda fora. Ao fim de três anos, Naing pediu que o deixassem voltar a casa. O resultado foi alguém partir-lhe a cabeça. Decidiu fugir.

Vida real e depois o regresso ao Inferno

Teve a sorte de ser acolhido por uma família indonésia que teve pena dele e o deixou ficar na sua quinta. Durante cinco anos, ele fez vida rural. Podia ter continuado assim. Mas as saudades de casa eram fortes, e Naing aproveitou a primeira oportunidade surgida: um capitão que oferecia a viagem a troco de trabalho. Escusado será dizer, o seu inferno recomeçou, ainda pior do que antes. A certa altura, ele achou-se acorrentado no navio. Conseguindo abrir a fechadura, saltou para fora do barco e nadou até terra.

Os longos anos que se seguiram foram passados em ilhas, a sobreviver de frutas e outros vegetais que colhia. Inicialmente, em completa solidão. Depois, numa colónia de outros escravos refugiados. Já devia ter perdido toda a esperança quando, em abril deste ano, um amigo lhe disse que a Indonésia andava à procura de gente como ele para repatriar. O estímulo, parece, tinha sido uma investigação da Associated Press sobre escravatura. Naing seguiu para Tual, onde já se encontravam centenas de outros birmaneses, e preparou-se para o regresso.

Quando chegou à sua aldeia, viu uma mulher que reconheceu. Era a sua irmã mais nova. Abraçaram-se. Depois Naing viu a sua mãe e a comoção foi de mais. Caiu ao chão. Ela agarrou nele e acariciou-o. Como fazia há muito tempo.