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Sócrates já quis deixar “à Justiça o que é da Justiça”

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Alberto Frias

Em 2003, quando Pedroso foi preso, Sócrates pediu: “Deixemos a Justiça trabalhar.” Hoje reclama ser um preso político

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

Jornalista da secção Política

A frase a que António Costa tem recorrido com frequência para justificar não se pronunciar sobre a prisão preventiva de José Sócrates — “à justiça o que é da justiça, à política o que é da política” — paga direitos de autor. E ao ex-primeiro-ministro. Sócrates usou-a diversas vezes durante os seis meses em que Paulo Pedroso esteve detido no âmbito do processo ‘Casa Pia’, entre maio e novembro de 2003. Durante aquele annus horribilis para o PS, então liderado por Ferro Rodrigues, o na altura apenas deputado foi sempre muito prudente nos comentários à investigação que outros (como o próprio secretário-geral) classificavam como “uma tentativa de decapitação da liderança do PS”. Para José Sócrates tratava-se tão-só de “um processo judicial”. “Deixemos a justiça trabalhar”, pedia. 

Foram tempos difíceis para a direção socialista. No dia em que Pedroso (promissor braço-direito de Ferro, secretário nacional para a Organização) foi detido, na Assembleia da República, António Costa — à época líder parlamentar — chorou em público “lágrimas de raiva”. A emoção tomou conta do maior partido da oposição e a narrativa de que o PS estaria a ser alvo de “um grande ataque” (como Ferro chegou a afirmar ao Expresso) tomou conta de uma boa parte do partido. Mas outros houve, entre os quais Sócrates, que não alinharam na tese da cabala. “O maior partido da oposição tem de continuar o seu trabalho e cumprir a sua obrigação para com o país”, impõem-se “unidade e nervos de aço”, comentava friamente o ex-ministro do Ambiente, já referido como um nome possível para suceder a Ferro caso este abandonasse a liderança — a solução mais rápida para “tirar o PS do banco do DIAP”, sussurrava-se. Num debate com Santana Lopes, com quem partilhava um espaço de comentário político na SIC, não partilhou da teoria defendida pelo social-democrata de necessidade de revisão do processo penal por forma a afinar o recurso a prisão preventiva e a escutas telefónicas. Sócrates admitia a “necessidade de mudar a justiça”, mas não naquele exato momento: “Este caso tem que ir até ao fim.” Se se alterasse a lei, argumentava, os portugueses poderiam interpretar o gesto como uma forma de tentar libertar Paulo Pedroso. 

Doze anos passaram e agora é Sócrates quem está do lado de lá da cela. E a perspetiva mudou consideravelmente. Desde o início que o ex-primeiro-ministro sustenta que a sua prisão se deve a razões políticas. E esta semana, na entrevista que deu ao “DN” e à TSF, reiterou a teoria. Considerando que está a ser alvo de “perseguição política e pessoal”, afirmou: “Ao prender sem provas e ao permitir a intensa campanha de difamação sobre mim e sobre o anterior Governo do PS, o senhor procurador autoriza a legítima suspeita de que a minha prisão possa ter servido para condicionar as próximas eleições legislativas”. 

António Costa é que não volta a cair na armadilha de 2003. Desde a prisão de Sócrates, em novembro, que tem feito questão da manter separadas as esfera judicial e política. Esta semana, depois das declarações do ex-PM, não desarmou: “O PS definiu uma linha relativamente a esse caso e a todos os casos judiciais e vai ser coerente com essa linha. Tal como não comentamos as decisões da acusação, era o que faltava comentar a atuação da defesa”, disse ao “Jornal de Negócios”.