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Política

O contra-ataque dos poetas

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Um certo lirismo nos discursos, distinções a intelectuais e políticos da oposição e um concerto de música clássica. Tudo o que mudou nas celebrações do dia da Madeira  

Marta Caires

Jornalista

O dia foi de citações de poetas e escritores, até o Papa Francisco veio à discussão para sublinhar o orgulho madeirense, a bravura e a determinação do povo. O PSD de Miguel Albuquerque devolveu as celebrações do Dia da Região à Assembleia Legislativa, deu voz a todos os partidos, distinguiu políticos da oposição e inteletuais e trocou o arraial que fechava os festejos do Dia da Região por concerto de música clássica. Da história desta quarta-feira constam também duas manifestações, uma mesmo à porta do Parlamento, a dos trabalhadores do hotel Regency, encerrado por dívidas ao fisco. 

As buzinas da manifestação ecoaram por algum tempo no hemiciclo, mas o protesto acabou por desmobilizar antes do fim da sessão. O assunto veio à baila nos discursos, pois o desemprego atinge mais de 22 mil madeirenses e é um tema incontornável na política regional. A oposição não o esqueceu, como lembrou a dívida, a pobreza e as responsabilidades do PSD.  O “regresso à normalidade democrática” foi saudado - nos últimos anos de Jardim as celebrações limitavam-se ao discurso de um convidado - mas sem motivos para “festim”.  

Das críticas do BE “às passeatas, viagens turísticas e encontros mediáticos com o amigo Passos Coelho” aos apelos do JPP (Juntos Pelo Povo) para um poder mais próximo do povo onde o ser seja mais importante do que o parecer, o traço comum foi o tom suave e as referências literárias e filosóficas em todos os discursos. O PCP citou José Agostinho Baptista e Tolentino Mendonça e até Carlos Pereira, o novo líder do PS, deu tréguas à dívida pública e falou do ser madeirense, esse povo feito “de emoção como se a água do mar, o nevoeiro das zonas altas e a leveza da humidade” que traz agarrado amolecesse “o coração de cada madeirense”. 

E ninguém saiu do tom, nem o CDS que citou Santo Agostinho e a vontade de lutar contra a crise social, nem sequer o PSD, que se socorreu de Camões e fechou o discurso com uma espécie de grito de guerra da autonomia. “Que faça eco pelos quatro cantos do mundo e que seja dito aos filhos dos nossos filhos que caímos muitas vezes, mas não recuámos, nem vacilámos; de todas as vezes que caímos nos voltámos a erguer, conseguindo levar adiante a grande dádiva da autonomia”, apelou José Prada, deputado social-democrata, antigo presidente do conselho de jurisdição do PSD de Jardim. 

Antes de se ouvir os hinos – o da região e o nacional – ainda falou o presidente da Assembleia, que, além do salientar a mudança política, o fim da polarização entre a maioria e a oposição, não saiu do estilo poético da sessão. Não se serviu de poetas, mas fechou a intervenção com o Papa Francisco. “Se o Estado não cumpre o seu papel numa região, alguns grupos económicos podem apresentar-se como benfeitores e apropriar-se do poder real, sentindo-se autorizados a não observar certas normas”, disse, citando a última encíclica “Laudato Si”. 

Depois dos poetas, dos discursos na Assembleia e das manifestações – houve uma contra o grupo económico que tem a operação portuária e as ligações marítimas para o Porto Santo – as celebrações continuaram dia fora. Primeiro, com flores na estátua da Autonomia, depois com a entrega das distinções a artistas, intelectuais e políticos. Entre os intelectuais estava o poeta José Agostinho Baptista, entre os políticos houve distinções para todos os partidos, numa mensagem de pluralismo, como sublinhou Miguel Albuquerque, na única intervenção das celebrações. 

Os festejos do Dia da Região encerram com o concerto de música clássica na Praça do Povo. Depois do pluralismo, de um certo lirismo nos discursos, o novo PSD também mudou o estilo das festas. O arraial popular que fechava as celebrações e o feriado regional deu lugar ao concerto da Orquestra Clássica da Madeira.