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Fundador do PDR corta relações com Marinho e Pinto

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João Carlos Santos

“Divergências profundas”, atitudes “nojentas” e “propostas irresponsáveis” levaram Eurico Figueiredo a romper com o líder do Partido Democrático Republicano, que ajudou a fundar. Numa “primeira carta aberta a Marinho Pinto” explica porquê. E promete mais, despedindo-se “até á próxima” 

Uma longa lista de críticas contra Marinho Pinto levaram Eurico Figueiredo a publicar uma "Primeira Carta Aberta" onde explica as "razões de uma rutura" com o líder do PDR. Eurico Figueiredo, ex-dirigente socialista, foi um dos fundadores do partido de Marinho e Pinto e seu "braço direito" até há bem pouco tempo. Mas as eleições para o Conselho Nacional do PDR foram a gota de água para a cisão. Figueiredo chegou a constituir uma lista para se candidatar ao órgão diretivo do partido, mas desistiu em choque frontal com o líder. 

Na sequência das últimas eleições internas, Eurico Figueiredo já publicou na sua página de Facebook três posts bastante críticos em relação à liderança partidária. Na passada sexta-feira, véspera da ida às urnas, acusou presidente de não ter "o menor respeito pela democracia dentro do PDR" e de se estar a "transformar num falso profeta", conduzindo à "saída do PDR dos democratas que acreditaram em si e a avançar inexoravelmente, de um partido que já é caudilhista, para um partido fascista". Esta quarta-feira, num novo post, assumiu a decisão de "cortar relações políticas" com Marinho e Pinto.

"É certo que estive com Marinho e Pinto desde a primeira hora. Também é verdade que me sentava geralmente ao seu lado direito", escreve Eurico Figueiredo, mas o tom crítico cresce logo a seguir: "agora que o conheço melhor, sei que aos seus mais próximos gostaria que estivessem debaixo da mesa à espera de um osso". 

As críticas dirigem-se, de novo, para a falta de "uma direção colegial" no partido, porque Marinho e Pinto "não consegue ouvir ninguém, só a si!" e "sempre vingaram, em exclusivo, as suas ideias e propostas". O apoio declarado do presidente do PDR a um dirigente "que tinha a má fama de ser representante de Isaltino Morais na comissão organizadora do PDR" fez transbordar a paciência de Eurico Figueiredo. A chamada do militante - cujo nome não é referido - para o Conselho Nacional é "nojento" e " legitima a suspeita de conivência entre Marinho e Pinto e Isaltino Morais", diz Eurico Figueiredo. 

"Decidi cortar relações políticas consigo", conclui o fundador do PDR, despedindo-se com um "até à próxima".

A carta na íntegra:

PRIMEIRA CARTA ABERTA A ANTÓNIO MARINHO PINTO (AMP)
RAZÕES DE UMA RUPTURA

Caro Dr. Marinho e Pinto

O email que enviou a 17 de Junho ao Dr. Victor Fernandes, membro da Lista C intitulada: “LIVRES, JUSTOS E SOLIDÁRIOS” e por nós encabeçada, com conhecimento a muitos amigos seus, e a todos os membros da Lista, excepto a mim, ( fazendo jus da sua proverbial frontalidade!), várias vezes se pergunta:

“Que diferenças existiam entre mim e o Dr. Eurico?”, por considerar ilegítimo o facto de eu ter encabeçado a Lista C.

As diferenças são claras: basta a minha genética, a minha experiência de vida, a minha memória, a minha personalidade actual. Para minha estupefacção, vai ao ponto de denegar: que seriamos como irmãos gémeos! E mesmo…

Vamos referir-nos, apenas, ao curto tempo de vida do PDR! 

AMP já devia fazer uma ideia, quando em email de 28 de Maio lhe escrevi : “não poderá contar comigo para mais nada”, que não se tratava já de diferenças, mas de discórdia! 
Esse email foi um claro corte de relações políticas!

Será que não percebeu? Ou não o levou a sério?

As divergências são, contudo, imensas: concepção da liderança, trabalho colegial, concepção do partido, da democracia, da dívida, da construção europeia…excepto da declaração de princípios do PDR. Mas, esta é tão genérica, que dá para tudo!

Poderá perguntar-me: nunca deu por isso?

Admito. 

António Marinho e Pinto não consegue ouvir ninguém: só a si! 

Eis a primeira enorme diferença. Quando se foi psiquiatra e psicanalista sabe-se qual é a primeira qualidade de um profissional nestas áreas: ESCUTAR.

Afirma também AMP: “ O Dr. Eurico Figueiredo estava comigo desde a primeira hora, era a pessoa a quem sempre recorria em todas as ocasiões, que se sentava sempre do meu lado direito”.

É certo que estive com AMP desde a primeira hora.

Também é verdade que me sentava geralmente ao seu lado direito. O que- agora que o conheço melhor- sei que aos seus mais próximos gostaria que estivessem debaixo da mesa à espera de um osso. Fico muito agradecido.

É, todavia, preciso ser bem disparatado, para assim se exprimir.

Quanto ao recorrer a mim em todas as ocasiões, apenas me lembro de uma vez, no dia seguinte à prisão do Engenheiro José Sócrates. Ia eu para Lisboa, e AMP para Coimbra, se bem me lembro, depois de proferir um conferência (?) em Fátima, encontrarmos-nos na Estação de Serviço de Leiria, e me solicitar para não utilizar politicamente a prisão do ex Primeiro-Ministro, na nossa luta contra a corrupção, antes da situação estar esclarecida, pedido ao qual anui prontamente.

Surpreendeu-me, mais tarde, a insistência com que tem defendido, que ao Eng. Sócrates deveriam ser aplicadas, no processo de investigação, as leis americanas e não as portuguesas, quando nos últimos 20 anos, os socialistas estiveram uns quinze anos no governo!

Não me lembro de mais nenhuma vez ter solicitado expressamente a minha opinião.

Recordo-me, contudo, de ter vindo do Porto a Lisboa ou ao Algarve, geralmente de quinze em quinze dias, para reuniões que demoravam no máximo meia hora, indiferente às despesas inerentes. E de menosprezar as ausências do Dr. Fernando Condesso que não podia reunir às sextas-feiras, quando este presidia ao Gabinete de Estudos e pela sua experiência política e grande erudição nos era indispensável.

Nunca existiu uma direcção colegial na comissão organizadora do PDR. Sempre vingaram, em exclusivo, as suas ideias e propostas!

Até duas inocentes sugestões minhas, em áreas controversas e não consensuais no PDR, de fazermos um seminário sobre a dívida soberana, outro sobre a construção europeia, foram rapidamente evacuadas com as suas banais propostas: a dívida é para se pagar: ponto final.

A Europa é para democratizar: o que é verdade, mas é preciso saber como!

Nos últimos meses faltei a muitas reuniões. Quando não faltei, não mais falei.

Não valia a pena! 

Estou certo que nem deu conta…

Depois da famosa Assembleia Geral de 24 de Maio, os pobres colaboradores que tinham seguido as suas irresponsáveis propostas de permitir que votassem quem se inscrevesse no PDR até parte da tarde, depois de abertas as mesas de voto, foram acusados pela sua fúria demencial, de serem os responsáveis pelo pandemónio!

(quando tomaremos conhecimento do inquérito do Dr. Pedro Bourbon feito aos incidentes passados nesta Assembleia Geral? Aposto que nunca será publicado! Assinalará, estou certo, se for sério, a incompetência, amadorismo de AMP e dos seus protegidos, alguns delinquentes, da altura) 

A decisão de apresentar uma lista própria às eleições a realizar a 20 de Junho surgiu na sequência do email, já referido, que lhe enviei a 28 de Maio.

Nele estava explicita a principal razão da minha ruptura política com António Marinho e Pinto..

Um dos membros da Comissão Organizadora do PDR tinha a má fama de ser “representante”, na Comissão organizadora do PDR, do ex-presidente da Câmara de Oeiras, Isaltino Morais, o que eu nunca admiti.

Nunca, pessoalmente, o hostilizei por essa má “fama”.

Esse senhor, ousou acusar, mentirosamente, um dos membros da Comissão Organizadora (CO) de denunciar no PDR fenómenos de corrupção da instituição em que trabalhava, dirigida por um conhecido político, pondo em risco de despedimento não só o membro da CO como a sua esposa (aos quais recentemente lhes foi pedido que se demitissem).

António Marinho e Pinto, ao corrente desta situação, ousou envergonhar quem ainda tinha alguma vergonha nesta Comissão Organizadora, propondo-o para membro do Conselho Nacional! Legitimando a suspeita de conivência entre AMP e Isaltino Morais.

Julguei tal facto tão NOJENTO, no seguimento de outras situações semelhantes, mas menos graves, que DECIDI CORTAR RELAÇÕES POLÍTICAS CONSIGO e disso o informei no referido email.

Até à próxima,
Eurico Figueiredo”