Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

Livro de Relvas destaca acordos com Costa

  • 333

Barroso apresenta. Aznar prefacia. Marcelo, Mendes e Santana dão testemunho

FOTO D.R.

Escolheu a Frente Tejo e a privatização da ANA para dizer que os consensos são possíveis. Relvas está de volta

Bernardo Ferrão

Bernardo Ferrão

Subdiretor da SIC

O momento político não é indiferente. Bem pelo contrário. Lembrar nesta altura — quando as posições de Passos Coelho e António Costa estão extremadas —, que no passado foi possível chegar a acordos com o agora líder do PS, permite todas as leituras políticas. Miguel Relvas que regressa ao espaço público (e político?) com o livro “O Outro Lado da Governação”, escolheu os casos da Frente Tejo e da privatização da ANA para sublinhar que os consensos são alcançáveis. E, já agora, que tiveram a sua assinatura. Na altura, como recorda fonte próxima do ex-ministro, “não foi fácil, o PSD virou-se contra o Miguel porque acharam que ele estava a favorecer o Costa”. 

A verdade é que Relvas e Costa sempre tiveram uma boa relação. Mas o ex-governante deixa claro que os acordos foram conseguidos porque havia objetivos bem traçados. Mais do que o recado, fica a lição para o futuro. E, pelo meio, vários elogios à sua intervenção e à do então autarca de Lisboa: “É um bom exemplo, porque soubemos todos estar à altura das nossas responsabilidades.”

Com o livro, Miguel Relvas, que saiu do Governo em 2013 depois da polémica com a sua licenciatura — cuja validade ainda está para ser decidida pelo Tribunal Administrativo —, além de recordar a sua reforma da administração local, conta várias histórias até hoje desconhecidas. Mas Relvas não regressa sozinho. O outro autor da obra é Paulo Júlio, o ex-secretário de Estado que foi condenado a uma pena suspensa de prisão de dois anos e dois meses por prevaricação e que entretanto aguarda decisão sobre recurso. 

Os casos do consenso

O capítulo a que o Expresso teve acesso começa por recordar a Frente Tejo. A extinção da sociedade e a passagem de competências para a autarquia foi um “exemplo paradigmático da eficácia da nova abordagem política”, conta o autor. A Frente Tejo constituía “uma fonte de despesas extraordinária” e os tempos não estavam para gastos. Segundo Relvas a resolução do problema era uma “missão do Estado” e Costa “soube aproveitar o momento e beneficiar da transferência de competências e cumprir os seus objetivos como autarca socialista”. 

Na privatização da ANA-Aeroportos de Portugal, o tom é igualmente simpático para Costa. “Constituiu outro exemplo do correto relacionamento”. A troika obrigava à privatização mas era preciso resolver o diferendo com os terrenos do aeroporto. Costa exigia uma “indemnização superior a 600 milhões de euros”. Relvas conta que o assunto começou a compor-se numa reunião em julho de 2012. E faz questão de lembrar que Costa se sentou à mesa com ele, Miguel Relvas, com Vítor Gaspar, Assunção Cristas, Sérgio Monteiro (de quem diz ser “um dos políticos mais promissores da nova geração”) e a diretora geral do Tesouro. “A privatização tinha de ser estruturada por Vítor Gaspar e a solução política devidamente negociada por Miguel Relvas com António Costa e articulada dentro do Governo”. Na verdade, com esta operação, Costa encaixou uma excelente notícia para o passivo da Câmara: “O Estado assumiu uma contrapartida de 286 milhões de euros, dos quais 277 milhões através de assunção de dívida da CML, e nove milhões em pagamento ao município”. E assim se percebe melhor a redução da dívida da autarquia lisboeta que Costa tem usado para atacar o Governo. Pode agradecer a Miguel Relvas, o político que regressa com os consensos mas que nunca foi consensual.