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Henrique Neto: “Não foram 
as minhas críticas a prejudicar o PS”

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Marcos Borga

Expresso revela “carta aberta aos militantes socialistas” onde o candidato explica a sua relação com o PS

É uma tentativa de pôr um ponto final nas dúvidas. Henrique Neto, militante do PS no ativo, até nem vê “grande interesse nesta questão”, mas o certo é que desde que lançou a sua candidatura presidencial “os órgãos de comunicação social não se cansam” de o confrontar com as suas relações com os socialistas. Numa “carta aberta” que o Expresso divulga, Henrique Neto quer deixar tudo esclarecido. E, sobretudo, tornar claro que não foram as suas críticas a prejudicar o partido. Nem tão pouco foram responsáveis por colocar o PS “na difícil situação em que hoje se encontra”. 

Quase três meses depois de ter lançado a sua candidatura à Presidência da República — numa ação-surpresa no Padrão dos Descobrimentos, da qual não foi dado conhecimento ao Largo do Rato —, Henrique Neto está determinado. Anda no terreno com uma agenda preenchida. Como qualquer bom político, visitou, esta semana, a Feira Nacional da Agricultura, onde foi tratado com o protocolo habitual das campanhas. E até já formou uma equipa, que inclui um diretor de campanha, assessor de imprensa e até fotógrafo e responsável pelas redes sociais. Francisco Mendes, ex-candidato independente nas últimas autárquicas por Santarém e também ex-apoiante da candidatura presidencial de Fernando Nobre, está agora a dirigir a estratégia política da campanha de Henrique Neto. António José Laranjeiro,  dono da empresa de comunicação Midlandcom e ex-assessor de imprensa da ERC, é, desde esta semana o responsável pelas relações com os media.

A equipa responsável pela campanha está “satisfeita” com as primeiras reações de rua ao candidato. Henrique Neto parte com a vantagem de já ter um percurso político conhecido, com a sua passagem pelo Parlamento entre 1995 e 99, e pela presença regular nos congressos socialistas. Mas foi a sua voz crítica de alguns deslizes do PS que lhe deram passaporte direto para as televisões. “É, definitivamente, uma pessoa conhecida por ser uma voz livre”, diz um dos membros da campanha ao Expresso. Na memória das pessoas ficaram, sobretudo, registadas, as suas farpas ao Governo de José Sócrates, a quem chegou a chamar “aldrabão” e “vendedor de automóveis”, numa altura em que poucos se lembravam de enfrentar o líder socialista.

Esclarecer o passado

A vantagem que Henrique Neto leva à partida para a corrida presidencial é, porém, um pau de dois bicos. O candidato quer libertar-se da sua relação com o PS que, aliás, nem mostrou qualquer interesse em apoiar a sua candidatura quando o empresário de Leiria a formalizou. Mas, também, Neto não quer hostilizar as fileiras socialistas onde, aliás, vai tentar ‘pescar’ votos, nomeadamente entre os que não se reveem na, cada vez mais evidente, candidatura oficial do partido: António Sampaio da Nóvoa. O ex-reitor da Universidade de Lisboa é um estreante absoluto nas lides eleitorais. Não tem passado político conhecido e, por isso mesmo, é visto como uma aposta demasiado arriscada em alguns sectores do Partido Socialista.

A ideia da “Carta aberta aos militantes socialistas” é pôr uma pedra sobre o tema e permitir centrar a candidatura nas qualidades presidenciais de Neto. 

Socialista pela mão de Jorge Sampaio, Henrique Neto assume ter sido “um entusiasta das políticas decididas durante os Estados Gerais para uma Nova Democracia”, lançados por Guterres em 1994. Mas, depois, desiludiu-se. Precisamente quando “o partido deixou de cumprir as suas promessas eleitorais, se afastou de uma governação consequente com o interesse nacional e passou a navegar à vista, sem coerência estratégica”.

Não ser bode expiatório

E, claro, foi “muito crítico dos governos Sócrates” pelo “autoritarismo, endividamento do Estado além de toda a prudência, PPP ruinosas”, entre outros pecados capitais atribuídos ao último primeiro-ministro socialista. “Sei que muitos membros do PS não gostaram das minhas (...) ou que eu tenha alertado para os seus interesses em negócios pouco claros”, diz o candidato, reclamando a primazia dos “valores e da honradez do PS” e defendendo que “não há para mim interesse partidário que possa sobrepor-se à defesa coerente e exigente de uma vida melhor e mais digna para todos os portugueses”.

Chegados a este ponto da missiva, os objetivos políticos do candidato presidencial tornam-se ainda mais claros. Henrique Neto não quer servir de bode expiatório dos problemas do PS e quer deixar esclarecido perante os militantes que não servirá de ombro para amparar a água que os socialistas queiram sacudir dos seus capotes. 

“Não foram as minhas críticas que prejudicaram o PS, ou que o colocaram na difícil situação em que hoje se encontra. Eu apenas fiz o que me foi possível para o evitar”, conclui, garantindo ter “a consciência tranquila”.

A carta na íntegra

"Desde que apresentei a minha candidatura à Presidência da República que os órgãos de comunicação social não se cansam de me interrogar sobre as minhas relações com o Partido Socialista. Pessoalmente não vejo grande interesse nesta questão, no meio de tantos problemas que o nosso País enfrenta, mas também não quero deixar de esclarecer a minha posição.

Depois de aderir ao PS fui um entusiasta das políticas decididas durante os Estados Gerais para uma Nova Democracia e depois apoiei o Governo do PS tanto quanto as oportunidades me permitiram, até ao momento em que o partido deixou de cumprir as suas promessas eleitorais, se afastou de uma governação consequente com o interesse nacional e passou a navegar à vista sem coerência estratégica, comprometendo com isso o futuro do País.

Por exemplo, uma das principais críticas feitas aos governos de Cavaco Silva era a da política do betão; ora os nossos governos continuaram essa política de mais auto-estradas, estádios inúteis, Expo, Polis, etc. A especulação imobiliária, com a construção excessiva na periferia das grandes cidades e o abandono dos centros urbanos, levou a que interesses corruptos de promotores imobiliários invadissem as autarquias, por via de decisões e de indecisões que não podiam ter o meu apoio.

Fui muito crítico dos governos de José Sócrates por razões muito concretas: autoritarismo, endividamento do Estado para além de toda a prudência, parcerias público-privadas ruinosas, privilégios de sectores da economia de bens não transaccionáveis à custa do conjunto da economia, nomeadamente das exportações e das famílias. Estive ainda contra a intervenção do Estado no sistema financeiro e contra a visível promiscuidade entre a política e os negócios, nomeadamente do BES/GES, mas também contra as intervenções feitas no BPN, BPP e PT e contra o uso da Caixa Geral de Depósitos na especulação financeira das empresas do regime.

Sempre critiquei a direita portuguesa e nunca me revi nas suas políticas, nomeadamente nas do actual Governo, mas reconheço que o ataque ao Estado Social foi muito facilitado pela dependência financeira do Estado, resultante da gestão aventureira anterior. Em coerência, apoiei António José Seguro no seu esforço de afastar o PS da promiscuidade dos interesses, bem como na tentativa de fazer algumas reformas essenciais para que o PS voltasse a ter o seu lugar junto dos portugueses, como o grande partido da liberdade, da verdade e da tolerância. Infelizmente, o sistema que nos trouxe até esta crise de valores não deixou que as reformas se fizessem em toda a sua extensão. Lamento-o, como lamento que as propostas que apresentei aos XII e XIII Congressos não tenham sido ouvidas, já que teriam conduzido Portugal para o progresso e para o crescimento económico. A Irlanda , que então propus ao PS como o modelo para a governação económica de Portugal, tem agora uma economia a crescer acima dos 4% ao ano. Poderia ter sido esse o nosso caso.

Sei que muitos membros do Partido Socialista não gostaram das minhas críticas, como sei que alguns não gostaram que eu tenha alertado para os seus interesses em negócios pouco claros, como por exemplo a venda da GALP à italiana ENI. Todavia, sempre estive na primeira linha da defesa dos valores e da honradez do PS, pensando no futuro, e não fui eu que conduziu o País para a dependência externa, para a estagnação económica e para o empobrecimento das famílias portuguesas, ao mesmo tempo que muita gente enriqueceu sem causa conhecida.

Finalmente, se fui crítico, assumindo o legado histórico do PS, foi porque para além de militante socialista sou português e não há para mim interesse partidário que possa sobrepor-se à defesa coerente e exigente de uma vida melhor e mais digna para todos os portugueses, que merecem viver num País moderno, desenvolvido e justo.

Em qualquer caso, chegado aqui, tenho a consciência tranquila: a minha candidatura é a consequência natural do meu empenhamento de muitos anos e não foram as minhas críticas que prejudicaram o PS, ou que o colocaram na difícil situação em que hoje se encontra. Eu apenas fiz o que me foi possível para o evitar.

10-06-2015
Henrique Neto"