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Vai uma aposta? Cavaco vai falar de consenso

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João Relvas/Lusa

Presidente da República dirige-se de novo ao país esta quarta-feira, agora em Lamego. O Expresso analisou quatro anos de discursos no 10 de Junho. Consenso, interior, Europa, agricultura, esperança são as palavras-chave

“Hoje, celebramos o Dia de Portugal em Lamego. (…) E o mais importante para a vida dos portugueses é o consenso, a audácia, a confiança no futuro e a responsabilidade.” Se o discurso desta quarta-feira do Presidente da República seguir o guião dos últimos quatro anos, então esta frase aqui ficcionada poderá muito bem tornar-se audível. E ainda ultrapassar as dificuldades, erguer a cabeça, seguir em frente. Mas sobretudo esta palavra: consenso. Repete-se sempre.

Cavaco Silva é Presidente da República desde 9 de março de 2006 e fará esta quarta o seu décimo e último discurso na Sessão Solene das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Relendo os discursos do 10 de Junho dos últimos quatro anos percebe-se o fio condutor do Presidente. O ano passado, lido antes ter tido uma “reação vagal” (tal como foi oficialmente descrita), o discurso de Cavaco foi o mais curto dos quatro, com pouco mais de 1.600 palavras, enquanto os três anteriores ultrapassaram as 2.500. O discurso mais longo foi o de 2013, com mais de duas 2.900 palavras.

Em todos os discursos as palavras mais utilizadas são Portugal, portugueses e portuguesas, que na análise infra são desconsideradas, pela previsibilidade. O discurso onde mais se pode ler a palavra "não" é no de 2011, mais de 20 vezes.

2011, o interior

“Interior” é a palavra mais repetida no discurso de 2011, proferido em Castelo Branco: três dezenas de vezes. Propósito: “trazer o interior do país para o centro da agenda nacional”. Cavaco alertou várias vezes para o despovoamento do interior, para os problemas das comunidades do interior, para a necessidade de desenvolvimento. Citando Orlando Ribeiro e José Mattoso, Cavaco Silva falou em revalorizar o interior do país e defendeu a justiça territorial e a equidade.

A atenção dada o interior não despovoou o discurso de interesse mediático sobre a política nacional. O PSD tinha na altura acabado de ganhar as legislativas, numas eleições antecipadas convocadas após o fim do governo Sócrates. Depois de, em 2010, o Presidente ter apontado para a situação “insustentável” e para a necessidade de um “contrato de coesão nacional”, Cavaco voltava a frisar a necessidade de um “amplo consenso”.

“Portugal é mais do que a vida dos partidos ou o ruído dos noticiários”, disse o Presidente poucos dias depois da assinatura do programa de ajustamento, mas à vida com que os portugueses poderiam contar a partir daí pouco se referiu. A palavra crise não foi referida uma única vez; desemprego mereceu duas referências. Frases que ficaram no ouvido: “As ilusões pagam-se caro”; “Não podemos falhar”.

2012, a Europa

No ano em que se comemoravam 20 anos da primeira presidência portuguesa do Conselho das Comunidades Europeias as palavras que mais se leem no discurso têm todas a mesma etimologia: Europa, europeia, europeus, europeísmo. Segundo Cavaco Silva, os portugueses deviam “tirar lições da construção europeia”, não esquecendo os valores da coesão e união das comunidades: “o espírito europeu irá triunfar”.

A Europa e os portugueses precisavam de audácia para sair da crise, com sentido de solidariedade. E os líderes precisavam de um projeto de crescimento, para criar emprego e enfrentar a crise: ao contrário do ano anterior, a palavra crise é usada. Cinco vezes. “À crise económica e financeira, que hoje atravessamos, somar-se-á a pior de todas, a crise das convicções, da diluição dos valores e da perda dos ideais” foi o recado que o PR deu à Europa e aos portugueses. Apesar disso, Cavaco faz referências a sinais de confiança no futuro, e manifesta esperança na recuperação económica, “esperança com realismo, com responsabilidade”.

O discurso de 2012 foi rico em expressões que colam ao ouvido: “vivemos tempos difíceis”, com “necessidade imperiosa de aprofundar o diálogo e a concertação social”, pois “o conflito pelo conflito não nos conduz a lugar nenhum”. O importante é manter o sentido de coesão nacional, pois “nunca desistimos do futuro”. E “iremos vencer a batalha do presente”.

2013, a agricultura

Cavaco Silva deslocou-se a Elvas e a estrela do discurso foi a agricultura: a palavra surge vinte vezes no discurso mais palavroso dos quatro, seguida pelos vocábulos agrícola e agricultor(es). Através da homenagem a todos os agricultores, o Presidente alerta para a “reconversão profunda do mundo rural”, sem “alimentar sentimentos de nostalgia”. O PR chamou à atenção para a importância da defesa do património material e imaterial de Portugal e dos portugueses e para a necessidade de continuar a produzir com qualidade no setor agrícola. Foi o ano do "nós" enquanto produtores e do "nosso" património, produtos e produtividade. Para Cavaco, as bases do nosso crescimento e futuro.

E depois, claro, política. Cavaco voltou a apelar a um “amplo consenso entre agentes políticos, económicos e sociais”. Foi o ano da magistratura presidencial: o PR não deve ser um “ator político que participa e se envolve no jogo entre maiorias, oposições, na busca, muitas vezes, do engrandecimento do seu protagonismo pessoal”.

Crise não aparece uma única vez. Estávamos a entrar no último ano do programa de ajustamento e o PR alerta para a urgência de preparar o “pós-troika”, ao qual se refere três vezes. Nos dois anos anteriores, nunca usara a palavra troika. Mas agora volta a evocar esperança, embora cautelosa, recusando-se a “alimentar o pessimismo” e procurando o consenso social e compromisso das forças políticas.

No ouvido ficou “a vontade que nos anima para lutarmos e para resistirmos, mesmo nas alturas mais adversas” e o “nunca perdemos a esperança”.

2014, a esperança

O discurso do ano passado foi o mais curto, e foi o discurso da esperança, palavra que referiu 19 vezes. É o discurso mais anímico, onde ressaltam as expressões “coragem da esperança” e “audácia da esperança”, que aliás é título de um livro de outro Presidente, Barack Obama. Este é também o discurso mais político, com nove vocábulos etimologicamente relacionados. Depois da provação do ajustamento, Portugal e os portugueses haviam conquistado “o direito a ter esperança”. O “caminho foi duro” mas o sentido de responsabilidade dos portugueses ajudaram a percorrê-lo. Provámos que cumprimos a palavra dada, cumprimos as obrigações. Mas agora é o tempo da esperança, de “olhar o futuro com mais confiança”. No entanto, devemos manter a disciplina e “permanecer atentos e vigilantes”.

Ah, claro: Cavaco continua a apelar ao consenso e defende que o “superior interesse nacional seja colocado acima dos interesses partidários”, pois é preciso “ultrapassar as divergências”. “Vivemos tempos muito difíceis, mas não perdemos a coragem da esperança e a vontade de triunfar”, pois o caminho é de esperança, esperança, esperança. No ouvido: “o povo português tem a coragem do sonho e a força da esperança.”

2015, a juventude

Se este é o último discurso de 10 de Junho do Presidente Cavaco, o tema principal será a juventude, tal como o Expresso já noticiou no sábado. Aliás, cerca de metade das condecorações deste 10 de Junho será atribuída a jovens. Seguindo o guião dos anos anteriores, há sempre um tema que domina a primeira parte do discurso, sendo a segunda parte ocupada com política nacional e uma “punch line” de convocatória para o povo superar as dificuldades. Veremos se mais recados ou mensagens haverá. Além do consenso.