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Passos: “Precisamos de poesia”

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Passos defende a poesia na vida, quer uma sociedade amiga das crianças, diz que nunca recomendou a emigração, fala da doença da sua mulher, faz saber que cozinha papos de anjo para oferecer aos vizinhos... Um homem novo ou um homem de novo em eleições? A análise explica

Manuel Alegre? António Sampaio da Nóvoa? Não, Pedro Passos Coelho: “Nós na nossa vida precisamos de mais do que de ciência. Precisamos de poesia, precisamos de arte nas suas mais variadas expressões”. Não há memória de o primeiro-ministro ter publicamente feito semelhante apologia antes de falar esta terça-feira de manhã, em Castelo Branco, perante uma plateia de crianças. Mas nas últimas semanas, várias frases parecem posicionar Passos de forma mais sensível e humanizada. A pensar nas eleições, dizem fontes do PSD ouvidas pelo Expresso: nada é por acaso. 

Na última semana, Passos reabriu o “dossiê emigração” e desafiou duas vezes em dois dias que procurassem uma frase em que tenha recomendado aos jovens que saíssem do país. Mas fez mais. Disse que precisa de ter uma sociedade “muito amiga” das crianças; garantiu que o problema da sustentabilidade da Segurança Social não é “um papão”; defendeu mais licenciados no país; elogiou o “comportamento extraordinário” de profissionais de saúde; e sim, esta terça-feira falou de poesia.

Estas novidades no discurso de Passos não são coincidência com o período pré-eleitoral. “Ele está a ir a todas, está a fazer o que tem de fazer”, explica uma fonte do PSD que reconhece que a campanha, sendo da coligação, estará muito centrada em Passos Coelho, mais até do que nas políticas. “Ele é claramente a mais-valia da coligação”, diz a mesma fonte. 

Como se tem visto em algumas sondagens, “os portugueses admiram a convicção e a firmeza” de Passos Coelho. Aliás, explica outra fonte, a recente biografia “Somos o que escolhemos ser”, onde o primeiro-ministro conta na primeira pessoa que foi informado da demissão de Portas por SMS, serviu precisamente para mostrar essas “qualidades” e a forma como “aguentou o barco”. Ora, essa campanha em torno do líder implica “trabalhar a sua imagem”, frisando as qualidades percecionadas mas “limando” as características percebidas de rigidez e frieza.

A descoberta da poesia

PAULO CUNHA / Lusa

A frase desta terça-feira sobre poesia, e quando escutada na íntegra, elogia sobretudo a importância da ciência, mas usa como escala a importância da poesia e da arte: “Nós na nossa vida precisamos de mais do que de ciência. Precisamos de poesia, precisamos de arte nas suas mais variadas expressões. Os seres humanos, ao longo de toda a sua vida, precisam de muito mais do que de tecnologia e de ciência, mas nunca teríamos, como comunidade, nunca o mundo teria chegado onde chegou se não fosse a descoberta e a descoberta que nos é dada pela ciência e pelas suas aplicações na tecnologia”, afirmou Pedro Passos Coelho, numa referência à poesia que, se não é inédita (o Expresso não encontrou outra nos seus arquivos recentes), é pelo menos inabitual.

No passado, nas muitas entrevistas e perfis publicados, Passos Coelho não foi muito profuso sobre as suas escolhas literárias. Ao “Negócios”, em 2009, Passos diz que leu “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann, pelos 14 anos, “antes de ter começado a ler os autores existencialistas, como é próprio dessa idade”. Sartre, Camus, Russell… Na altura, “gastava a minha semanada na livraria Branco” para “tentar perceber porque é que estamos cá”. E concluiu que “gostaria de chegar ao final da vida e ter o mesmo otimismo sobre a Humanidade que tinha Bertrand Russel”. Já ao “Sol”, em 2010, explica que em miúdo, depois das aulas, se enfiava na biblioteca do pai para ler “as bíblias do marxismo-leninismo”. Dos filósofos, leu Sócrates e Nietzsche, incluindo “Assim Falava Zaratustra”, um livro “difícil de ler naquela idade, mas impressionou-me bastante. Só que a colagem que se fazia dele ao nazismo, talvez por preconceito, fez com que o metesse de lado. Além disso, era de um niilismo desbragado”. 

Mais do que tudo marcou-o o livro “Caramulo”, uma crónica romanceada escrita pelo seu pai, quando foi internado na Estância Sanatorial daquela serra para tratar a tuberculose. Em entrevista ao “i” em maio de 2013, António Passos Coelho detalharia que, além de “Caramulo”, escreveu “Zélia” (sobre o aborto), “Angola, amor impossível” (a família de Passos viveu em Angola antes do 25 de abril), livros de contos e de poesia. 

A referência de Passos Coelho à poesia é, pois, mais biográfica do que bibliográfica. Não há registo de grandes citações de poetas, com exceção de referências mais ou menos oficiais nas suas mortes. Em março passado, por exemplo, o primeiro-ministro sublinhou a poesia “notável” de Herberto Hélder, um “grande poeta português”. Os poetas também não gostam especialmente de Passos. Quando, em 2011, foi galardoada com o Prémio D. Dinis, da Fundação Casa de Mateus, Maria Teresa Horta recusou-se a recebê-lo das mãos do primeiro-ministro, afirmando que ele estava “a destruir o País”: “Das mãos de Passos Coelho nunca receberia coisíssima alguma”, disse então Maria Teresa Horta ao “Diário de Notícias”.

“Não nasci para escrever, nasci para falar”

PAULO CUNHA / LUSA

As declarações confessionais não eram habituais em Passos Coelho. Foi por isso que, em dezembro passado, o governante surpreendeu ao dizer que não acredita na felicidade: “Ninguém está certo de conseguir produzir uma política que garanta a felicidade seja de quem for, não acredito em coisas dessas. De resto, nem acredito na felicidade”, afirmou. Passos, que dizia em 2009 ao “Negócios” que não nasceu para escrever mas para falar, publicaria no ano seguinte um livro, “Mudar”, uma espécie de programa político que em 2011 estaria plasmado no programa de governo.

A biografia autorizada de Passos publicada no mês passado quebrou essa parcimónia, revelando um lado menos conhecido do primeiro-ministro. E com a mulher, Laura Ferreira, como protagonista – e também como fonte, por exemplo quando revela como Passos procura em Massamá a “normalidade”: “Muitas vezes quero que ele se preserve, mas ele não tem cuidado. Leva a Júlia [filha do casal] aqui ao parque, se lhe der na cabeça, dispensa os seguranças e vai de repente ao supermercado a pé. Eu fico numa ansiedade, mas ele diz-me que vai correr tudo bem porque ninguém está à espera de o ver e ninguém lhe vai fazer mal”. 

“Sou alguém que mede o que diz, que prepara o que decide, que não responde de forma irrefletida, que não é governado por impulsos. Se isto transparece na maneira como me dou a ver aos outros, corresponde à realidade”, explica Passos no livro. O mesmo Passos que, conta-se ainda na biografia, “cozinha papos de anjo no Natal e na Páscoa para oferecer aos vizinhos e que se refugia nas tarefas domésticas mais comezinhas, como estender a roupa ou pôr a loiça na máquina de lavar, para sentir um registo de normalidade”.

“Mito urbano”

O “dossiê emigração” é ainda assim o tema repetido desta semana. “Há uns quantos mitos urbanos, não é?”, questionou Passos na segunda-feira. “Um deles é o de que eu incentivei os jovens a emigrar.” Mas não, garante o governante: “O que disse na altura foi que não podíamos estigmatizar aqueles que não tendo cá oportunidades procuravam outras economias para poderem encontrar emprego. Eu desafio qualquer um a recordar alguma intervenção ou escrito que eu tenha tido nesse sentido”.

O desafio foi aceite por várias televisões e jornais. Foi Alexandre Miguel Mestre, secretário de Estado da Juventude e do Desporto, quem primeiro afirmou: “Se estamos no desemprego, temos de sair da zona de conforto e ir para além das nossas fronteiras”. A notícia saiu na Lusa em outubro de 2011 e no mês seguinte Passos foi confrontado no Parlamento. Respondeu então que “quem entende que tem condições para encontrar [oportunidades] fora do seu país, num prazo mais ou menos curto, sempre com a perspetiva de poder voltar, mas que pode fortalecer a sua formação, pode conhecer outras realidades culturais, [isso] é extraordinariamente positivo”. 

Em dezembro, entrevistado pelo “Correio da Manhã”, numa pergunta especificamente sobre professores, Passos respondeu: “Das duas uma, ou consegue nessa área fazer formação e estar disponível para outras áreas, ou querendo-se manter como está, sobretudo professores podem olhar para todo o mercado de língua portuguesa e encontrar aí uma alternativa.” Descubra as diferenças. E as semelhanças.