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Memórias da luta de Tito de Morais vão para a Torre do Tombo

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Alguns dos documentos sobre as lutas acompanhadas por Tito de Morais e que serão agora depositados na Torre do Tombo

Antonio Pedro Ferreira

Milhares de documentos retratam os percursos de vida políticos e pessoais do resistente antifascista e um dos nomes referenciais do PS

Guardava tudo. Tomava nota de tudo. Era metódico. Sistemático na elaboração de dossiers. Estruturava o seu pensamento e registava o dos outros com uma letra fina e clara. Guardava a memória em cadernos de apontamentos rigorosos e de muito fácil leitura. Ao longo de décadas passadas em luta contra o Estado Novo, na Europa, na América Latina e em África, Manuel Tito de Morais construiu um espólio documental raro. Na próxima terça-feira, no âmbito de uma cerimónia integrada no Dia Internacional dos Arquivos, serão depositados na Torre de Tombo 6 263 documentos coligidos desde os anos de 1930 e até 1999 pelo homem que ajudou a fundar o PS e se transformou num exemplo e referência para o partido onde sempre militou.

Trata-se de um espólio com uma infinidade de dados biográficos, políticos e históricos passíveis de, em alguns aspetos, contribuírem para novas abordagens de alguns períodos e temas da história contemporânea portuguesa. É uma documentação muito centrada nas atividades e no exílio político de um setor da oposição ao Estado Novo ligado ao que viria depois a dar origem ao PS.

O trabalho de organização de todo este manancial de memórias teve o seu início no final de 2012 quando a família entregou tudo quanto existia à Associação Tito de Morais, criada em 2010 no âmbito das Comemorações do Centenário do nascimento do histórico socialista.

Antonio Pedro Ferreira

No ano seguinte foi estabelecido um protocolo com o Observatório Político, constituído no âmbito do ISCSP-Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Um dos investigadores, Bruno Bernardes, passou a coordenar uma equipa que chegou a englobar seis pessoas. Ao longo de meses procederam à organização documental, inventariação e digitalização.

Assim, o que será entregue na Torre do Tombo é já um espólio devidamente tratado e organizado. Embora esteja coberto um longo período de oposição ao regime de Salazar, uma parte substancial dos documentos, explica Bruno Bernardes, relaciona-se com o funcionamento e as iniciativas do PS, desde 1973 e até a década de 1980. Há muitos manuscritos com relatos das reuniões, caracterizados por apresentarem"tudo muito sistematizado, uma vez que não só apontava tudo quanto dizia, mas também o que os outros diziam". 

Como refere Bruno, "não são notas intuitivas, no sentido em que só ele as perceberia e chegava ao ponto de sistematizar o que os outros diziam".

Do MUD à Frente de Libertação Nacional

Dadas as ligações de Tito de Morais a estruturas como a ASP-Ação Socialista Portuguesa, que fundou em Genebra em 1964 com Mário Soares e Francisco Ramos da Costa, o MUD-Movimento de Unidade Democrática, a FPLN-Frente Portuguesa de Libertação Nacional, criada por Humberto Delgado, ou, no Brasil, a União Democrática Portuguesa, há ali uma importante coleção de documentos, panfletos e outras memórias de um tempo passado vivido com grande intensidade.

Manuel Alfredo Tito de Morais, nascido em Lisboa a 28 de junho de 1910, foi presidente da Assembleia da República entre junho de 1983 e outubro de 1984.

Fundador do PS no exílio, ganhou notoriedade como opositor ao regime salazarista. Após o 25 de abril foi deputado, Secretário de Estado e ainda presidente da Assembleia da República, entre junho de 1983 e outubro de 1984.

Filho de Carolina Loureiro de Macedo de Morais e de Tito Augusto de Morais, um oficial da Marinha muito ativo na implantação da República em Portugal - comandou o cruzador São Rafael que bombardeou o Palácio das Necessidades - o depois histórico dirigente do PS iniciou a sua atividade política aos 16 anos com a participação numa greve académica a 28 de Maio de 1926. 

O empenhamento político leva-o a ter de concluir em Gand, na Bélgica, a licenciatura em Engenharia Eletrotécnica. Regressado a Portugal, ingressa em 1945 no Movimento de Unidade Democrática (MUD). Participa na campanha eleitoral do General Norton de Matos, é duas vezes preso pela PIDE e depois despedido da firma onde trabalhava. 

Tortura em Luanda

Esta é, entre outras, uma das razões para a sua decisão de tentar respirar novos ares em Angola, a partir de 1951. Ali, participa primeiro na candidatura de Arlindo Vicente, mas acaba por integrar a campanha de Humberto Delgado, após a desistência em favor do general do candidato apoiado pelo PCP. Preso de novo após o início da guerra colonial, passa então por um dos períodos mais dramáticos devido á violência das torturas a que é submetido. 

Em 1964 cria em Genebra a Ação Socialista Portuguesa (ASP) juntamente com Mário Soares e Ramos da Costa. Promove a fundação do Partido Socialista (PS) em 1973 no Congresso de Bad Munstereifel. Juantamente com Mário Soares e Ramos da Costa regressa a Portugal a 27 de Abril de 1974. Foi o primeiro responsável pela organização do PS na legalidade, foi várias vezes chamado a desempenhar cargos governamentais, embora nunca tenha sido ministro, ao que parece por sua decisão. Tido como uma das figuras cimeiras da II República, titular da Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, morreu em Lisboa no dia 14 de dezembro de 1999.

Acaba por ser enviado para o Continente, o com residência fixa em Lisboa, numa altura em que Adriano Moreira tinha sido nomeado Ministro do Ultramar. Um conjunto de amigos, entre os quais Mário Soares, responsabiliza-se pela sua segurança e presença na capital. Em 1961 exila-se de novo. França e Alemanha são os seus primeiros destinos. Opta depois pelo Brasil até 1963. Nesse ano torna-se o primeiro dirigente político português a chegar a Argel, onde tem um papel de relevo na emissão por rádio de “A Voz da Liberdade”.

Antonio Pedro Ferreira

Ações de cidadania

Na cerimónia da próxima terça-feira serão assinados alguns protocolos de doação e outros, como o de Tito de Morais, de depósito. Significa isto que  a família mantém a propriedade, mas disponibiliza os materiais de modo a assegurar o acesso público, através da consulta ou organização de exposições. O depósito será válido pelo período de 30 anos e qualquer consulta terá sempre de ser autorizada pelo representante legal da família.

Fátima Ramos, que em nome da Torre do Tombo conduzirá a cerimónia, explica ao Expresso que será ainda entregue uma coleção de senhas de racionamento propriedade da Intendência Geral de abastecimentos, uma instituição que desenvolveu atividade em Portugal durante a II Guerra Mundial. Muitas vezes, diz Fátima Torres, as doações, como neste caso, "não são de arquivos completos, mas como no caso destas senhas, documentam um dado contexto inerente à II Guerra Mundial". Há ainda, como curiosidade, um documento semelhante, mas francês, datado de setembro de 1918 e, por isso, referente à I Guerra Mundial.

Há nestas doações "uma forte componente de cidadania" que aquela responsável da Torre do Tombo gosta de sublinhar. Será ainda entregue o arquivo pessoal de Álvaro Dias, um homem formado em direito que foi funcionário da Companhia dos Caminhos de Ferro de Benguela, em Angola, além do arquivo da Associação Portuguesa para a Gestão de Informação.

A apresentação dos protocolos e assinatura decorrerá entre as 10 e as 13 horas da próxima terça-feira.