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Sucessão 
de Portas volta
 a agitar o CDS

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Tiago Miranda

Pires de Lima falou disso, Assunção falou disso, Mota Soares falou disso. Até Portas falou disso — baralhou e voltou a dar.

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Poucas vezes tanta gente graúda do CDS falou tanto sobre um assunto que, dizem, “não é assunto”: a substituição de Paulo Portas na liderança do partido. Nas últimas duas semanas António Pires de Lima falou disso, Assunção Cristas também, Pedro Mota Soares idem — todos a dizer que Portas tem tudo para continuar, todos a fazer votos de que continue, todos a dar gás ao tema.

Em entrevista ao Expresso, Pires de Lima admitiu que o resultado das legislativas pode determinar a continuidade ou não de Portas, frisando que “só nos partidos menos democráticos é que os líderes se perpetuam independentemente dos resultados”. Depois, ao “Observador”, Assunção Cristas repetiu o que tem dito sempre que questionada sobre uma eventual candidatura à liderança: está “ao serviço do partido” para o que for “necessário”. “Se for necessária para isso, também estarei”, acrescentou. Que o tenha dito mais uma vez, agora em clima pré-eleitoral, irritou muitos no CDS. A declaração feita depois por Mota Soares ao Expresso foi vista como um sintoma disso: “O CDS tem o melhor presidente que podia ter, que se chama Paulo Portas. Tem experiência e ainda é jovem”, sentenciou, prevendo que será o PS, e não o CDS, o próximo a discutir a liderança.

Até Portas veio a jogo falar da sua sucessão — coisa rara. “Como sabem há presidente eleito”, lembrou aos jornalistas, falando para os seus generais. E ditou que a “prioridade agora” são as legislativas. Ao mesmo tempo, Portas nivelou expectativas e alargou o leque de potenciais pretendentes à chefia: “O CDS tem várias mulheres e vários homens que são políticos de primeira categoria e que terão certamente um grande papel no futuro”, afirmou, dizendo-se empenhado em puxar “sempre pelo mérito dos que têm mérito”.

Há anos que tem sido assim: Portas dando palco a uns e a outros, sempre num jogo de equilíbrios que não permite que ninguém se reclame como o escolhido. Nuno Melo tem o reconhecimento institucional de ser o primeiro vice-presidente do CDS, Mota Soares é o pivô do CDS na coligação, Cristas é a coordenadora do programa eleitoral. A este trio junta-se João Almeida, a quem Portas confiou a estratégia de comunicação do CDS, e também Cecília Meireles, indicada como diretora de campanha, pela parte do CDS, nestas legislativas.

A haver um sucessor óbvio, seria Nuno Melo — mas, como diz quem o conhece bem, “pelo Nuno, o Paulo seria líder até aos 90 anos”. Se fosse pela disponibilidade, seria Assunção. As suas declarações, não sendo novas, surgiram num contexto delicado — estamos à beira de eleições, não é certo o resultado, e, em caso de derrota da coligação, ninguém sabe se Portas continuará. Parafraseando um slogan antigo do CDS, este pode ser o momento. A própria Cristas admite (ver texto pág. 22) que foi o timing que fez com que esta declaração tivesse outro eco, mais negativo, no CDS.

Mas também há o “pânico” (palavra de um alto responsável centrista) de muitos no CDS perante um abandono de Portas. “Há muita gente que depende de Paulo Portas e tem pânico que ele saia. Esses vão sempre pressioná-lo para ficar, qualquer que seja o resultado das eleições”, diz a mesma fonte. Nesse sentido, as palavras de Pires de Lima parecem abrir caminho a que Portas, se quiser, resista a essa pressão. António, antes de ser do CDS, já era amigo de Paulo. E há quem acredite que quer ajudar o amigo a sair. É preciso que Portas queira...

Mota Soares

Homem de confiança de Portas, foi o escolhido para negociar a coligação; no início da legislatura, negociou o acordo de Governo com o PSD. Foi o primeiro a ser escolhido por Portas para o Governo. Aos 41 anos (feitos ontem), conhece como poucos a máquina partidária (liderou a Juventude Popular e foi secretário-geral do CDS) e já foi líder parlamentar. A Segurança Social deu-lhe protagonismo, mas também desgaste. Cauteloso por natureza, gere com pinças o tema da sucessão.

João Almeida

Embora tenha apenas 38 anos, é o único nesta galeria que já se candidatou a líder — em 2006 protagonizou o desafio dos portistas a José Ribeiro e Castro. Com um currículo partidário parecido com o de Mota Soares (dirigiu a JP; foi secretário-geral do CDS), está a ganhar traquejo governamental na Secretaria de Estado da Administração Interna (pasta que o mantém ligado ao país real, numa área — segurança — cara aos centristas). Portas confiou-lhe a estratégia de comunicação do CDS.

Cecília Meireles 

Quando, questionado sobre a disponibilidade de Cristas, Portas se referiu às “mulheres” que terão protagonismo no CDS, houve quem lesse nesse plural a forma de puxar por esta deputada de 38 anos. Depois de uma passagem (contra a sua vontade) pela Secretaria de Estado do Turismo, voltou à AR, onde, apesar do seu perfil muito discreto, brilhou no inquérito ao BES. Na distribuição de pelouros com que Portas gosta de jogar, foi escolhida para diretora de campanha para as legislativas.


Nuno 
Melo 

É, depois de Portas, a maior figura do CDS, adorado pelas bases e com grande notoriedade fora do partido. Com 49 anos é, dos potenciais sucessores, o único com uma idade próxima da de Portas. É também o que conquistaria o partido com menos esforço. Mas jura, há anos, que não o quer fazer, e os amigos acreditam que não tem mesmo essa ambição. Porém, poderia avançar se se perfilasse uma candidatura como a de Cristas — será, no mínimo, muito pressionado pelo aparelho do CDS a avançar. Resistirá?

Assunção Cristas

Aos 40 anos, não nega à partida a possibilidade de dirigir o CDS. Enquanto outros recusam por tática ou convicção, Assunção admite, pelas mesmas razões: não gosta de fazer género e compensa, com a disponibilidade, a menor ligação ao aparelho do partido. Se as legislativas correrem mal, Portas sair e houver pela frente um longo caminho de oposição, pode ter a sua oportunidade por desistência de outros. Portas deu-lhe a coordenação do programa eleitoral do CDS.