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Política

Contra os lóbis, “dê por onde der”

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Programa de Governo da Madeira aprovado com promessas de Miguel Albuquerque de lutar contra os interesses instalados. Oposição agitou a bandeira do colonialismo de Lisboa.

Marta Caires

Jornalista

Miguel Albuquerque prometeu ir até ao fim na luta contra lóbis e interesses instalados na Madeira. “Dê por onde der”, disse esta sexta-feira no discurso que encerrou o debate do programa do Governo na Assembleia Legislativa. O documento foi aprovado com os votos do PSD, mas teve os votos contra de toda a esquerda, do PND e do PTP. CDS e Juntos Pelo Povo abstiveram-se e deram o benefício da dúvida ao executivo eleito há um mês e meio.

Perante a incerteza financeira, o debate, que durante três dias ocupou os deputados e membros do Governo, foi mais político, de discurso, de estilo, onde se confundiram as propostas da oposição com as intervenções do poder, como o aviso do líder madeirense aos lóbis. A questão dos interesses tem sido recorrente desde que Miguel Albuquerque tomou posse. Esta sexta-feira concretizou: irá até ao fim, “dê por onde der”, para reformular os transportes de mercadorias entre a Madeira e o continente.

O transporte de mercadorias é encarecido pelos custos da operação portuária e há anos que a oposição clama por uma intervenção de modo a baixar o custo de vida na Madeira. Miguel Albuquerque prontificou-se a fazer isso mesmo, aliás, como fez durante o tempo em que decorreu a discussão e em relação a outras aspirações da oposição. Fez o presidente, fizeram os secretários regionais e o líder parlamentar. Jaime Filipe Ramos, que sucedeu ao pai, Jaime Ramos, não falou do dinheiro de Lisboa ou do colonialismo, mas de pobreza.

“Existe pobreza, existe sim. A vergonha não é existir pobreza, vergonha é não saber encontrar respostas.” A declaração seria impensável neste deputado do PSD há dois ou três anos. Desta vez, Jaime Filipe Ramos ainda admitiu que “não é aceitável que um aluno vá para escola com fome”. As questões sociais, a ter em conta este discurso, são agora uma prioridade do Governo. A oposição, no entanto, não ficou assim tão convencida, as propostas são vagas, não sabe de onde virá o dinheiro e exige uma voz mais firme contra Lisboa.

Colonialismo de Lisboa

O contencioso da Autonomia, que nos governos de Jardim era motivo de discursos exaltados no PSD, foi recuperado até pelo PS, por tradição avesso ao tema. Carlos Pereira, o futuro líder dos socialistas madeirenses, disse mesmo que este Governo mais parecia um departamento do Governo da República, incapaz de aceitar a oferta que fez para negociar em Lisboa o futuro do pós-programa de ajustamento económico e financeiro. Sem propostas concretas, o PS votou contra, assim como toda a esquerda.

À esquerda, o PCP agitou a bandeira da exploração e do colonialismo e referiu ao programa de Governo como um aliado dos agiotas de Lisboa que colocam o povo da região a pão e água”. O Bloco de Esquerda falou da subserviência aos senhorios de sempre num documento que não dá resposta aos 22 mil desempregados. “O Governo Regional vai de mão estendida a Lisboa”, lamentou Dionísio Andrade, do PND, numa sessão de encerramento na qual até José Manuel Coelho se insurgiu contra o "colonialismo" na Justiça que o obrigou a pagar 113 mil euros decorrentes de processos por difamação.

Mais contidos, o CDS e o Juntos Pelo Povo preferiram dar o benefício da dúvida e abster-se na votação do programa de Governo. Élvio Sousa, do JPP, entendeu que esse seria o mais adequado, tendo em conta que se trata de um processo de intenções e é preciso esperar para ver. Já o CDS de José Manuel Rodrigues, que durante a campanha eleitoral se bateu por um governo de coligação, louvou o regresso à normalidade democrática nos debates na Assembleia Legislativa. O problema é que o novo PSD, lembrou o centrista, esqueceu o passado que hipotecou os orçamentos regionais até 2030.