Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

Jovens não querem saber. Nem de política nem dos partidos

  • 333

Os políticos e a política não convencem. Jovens estão cada vez mais desligados

João Carlos Santos

Estudo encomendado pela Presidência da República mostra jovens ainda mais desinteressados da política do que há oito anos.

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

Já se suspeitava, mas os números confirmaram-no: os jovens de hoje não se interessam pela política nem pelos partidos, não se reveem na atividade política tal como ela é praticada e sentem-se pouco ou nada satisfeitos com a maneira como funciona a democracia em Portugal. O lado bom é que à medida que a idade avança começam a interessar-se pelas notícias políticas e participam em associações e até em partidos e sindicatos, ou seja, “exercem cidadania”.

Em relação aos números de há oito anos, contudo, quando o Presidente da República encomendou um estudo sobre a participação política e cívica dos jovens, a diferença é abissal. Para pior: em 2007, se cerca de um terço dos jovens (15/34 anos) considerava que a democracia funcionava bem, em 2015 são apenas 17,3%, isto é, metade.

A situação replica-se na participação política: em 2007 e somando os dois grupos etários (15/24 e 25/34), 13,6% participavam em partidos, 12,1% em sindicatos e 19,8% em associações. Em 2015, o retrato é, respetivamente, 3,7%, 3,6% e 6%.  É caso para dizer: assustador.

Marina Costa Lobo, que coordenou o estudo com Vítor Sérgio Ferreira e Jussara Rowland do Instituto de Ciências Sociais (Lisboa), não se mostra muito surpreendida, porque esta tendência de declínio na perceção da qualidade da democracia é uma constante dos últimos anos, agravada ainda mais pelos anos da crise. Mas faz uma separação entre o grupo dos mais jovens, muitos sem terem ainda entrado na vida ativa e os jovens “mais velhos”.

É uma espécie de padrão de “ciclo de vida”, diz, em que os mais jovens e os mais idosos mostram percentagens semelhantes de envolvimento político. Curiosamente, em média, são mesmo os jovens entre os 25/34 dos que mais veem ou ouvem notícias, tendo em conta todos os escalões etários. É na participação política que a diferença é grande: manifestações ou comícios não é com os jovens, mas assinar petições, boicotar ou comprar produtos por razões políticas ou contribuir para uma causa, sim.

Dado inquietante é o da visão sobre a abstenção ou o voto: apesar de a norma ser ainda considerar o voto importante, em 2007, mais de 90% dos jovens inquiridos concordavam que todos os votos são importantes; em 2015, a média desceu para cerca de 70%. Ou seja, o valor do voto diminuiu entre os jovens, à semelhança do que pensa o resto da população — tendo em conta que o inquérito foi realizado em março, é um indicador preocupante para as eleições que se avizinham.

E quanto ao resto? Que pensa a juventude sobre o emprego, a mobilidade e o lazer, temas que também são abordados pelo estudo? Em termos genéricos, vale a mensagem: se o trabalho/emprego é difícil, a educação traz benefícios.

Os resultados do inquérito mostram que o último quinquénio foi particularmente penalizador em termos de emprego para os jovens, com taxas de desemprego que rondaram os 38% entre os 15/24 anos e mais ainda os de baixas qualificações (55,5%). Tal indicador pode indiciar uma forte probabilidade do desemprego se tornar “uma condição” entre estes jovens menos qualificados, “com o risco da precariedade estruturar o seu modo de vida, ou seja, tornarem-se desempregados estruturais”, segundo Vítor Ferreira, perito nesta área.

Facto relevante quanto ao emprego é o que este sociólogo considera ser o “efeito subjetivo” do desemprego: o medo de perder o posto de trabalho é muito elevado (73% no grupo 25/34 e 60,9% no 15/24). Por outro lado, colocados perante a questão de que é “ter um bom trabalho”, se é acima de tudo a estabilidade, a realização pessoal ou ganhar muito dinheiro, é grande a percentagem dos valorizam a primeira: 49,3% dos jovens entre 25/34 e 46,9% entre os 15/24 anos. Mais uma vez, em linha com o resto da população, já que a estabilidade e a segurança são os aspetos mais valorizado por 85,4% dos inquiridos.

Pormenor interessante é o que diz respeito à mobilidade: sendo os jovens o grupo mais predisposto a trabalhar no estrangeiro, curioso é verificar que o destino eleito é, mais uma vez, o mais seguro. Os países da União Europeia são, de longe, os preferidos, em percentagens que vão de 70% para o grupo dos jovens entre os 15/24 e de 81,2% para os 25/34 anos. A aventura já não é com eles.