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O sms de Passos que fez rebentar a crise

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Nuno Fox

Uma semana depois de rebentar a crise no Governo em julho de 2013, o Expresso escrevia sobre o tema. Aqui fica a descrição dos dias loucos desse verão quente do Executivo Passos/Portas. Republicamos o artigo saído na edição impressa do Expresso de 6 de julho desse ano.

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Quando falou com Passos Coelho no sábado, 29 de junho, sobre a remodelação de Vítor Gaspar, Paulo Portas levantou duas objeções: a primeira, já bem conhecida, era sobre o nome do novo ministro das Finanças - Portas discordou da escolha de Maria Luís Albuquerque e defendeu que deveria ser Paulo Macedo; a segunda, era sobre o timing para a mudança do titular das Finanças - Portas pediu a Passos que adiasse a remodelação para depois do congresso do CDS. Foi isto que o líder do CDS contou na quarta-feira, na reunião da sua comissão executiva.

Segundo frisou, pediu "expressamente" ao chefe do Governo que não remodelasse Gaspar a poucos dias do congresso, pois esse passaria a ser o facto que iria contaminar toda a reunião.

E Portas apostava forte no impacto político do conclave e já tinha outro guião preparado para o evento - era o momento para reclamar a mudança de rumo do Governo, com prioridade à economia e não às finanças.

Ainda de acordo com o relato que Portas fez ao seu inner circle, Passos registou o pedido, assim como registou as objeções à promoção da secretária de Estado e os argumentos a favor da escolha de Paulo Macedo. Ficaram de continuar a falar e, nessa tarde, Portas voou para o Bahrain.

Quando voltou, à hora de almoço de segunda-feira, ligou o telemóvel e tinha um SMS de Passos a informá-lo que não podia esperar mais e já tinha informado Cavaco da saída de Gaspar e da subida de Maria Luís. A tomada de posse já estava marcada.

Para Portas, a escolha era uma desautorização (mais uma), o timing era uma desconsideração (mais uma), o método era uma falta de respeito (mais uma).

A saída de Vítor Gaspar, que Portas sabia estar em standby desde a remodelação de abril (quando Relvas saiu e o líder do CDS defendia uma grande remodelação), era aguardada como o momento da grande viragem - e Macedo era, para Portas, a escolha óbvia para o novo ciclo. De repente, tornou-se claro para o líder do CDS que Passos estava a preparar Maria Luís para assumir as Finanças pelo menos desde outubro, quando Gaspar falou em sair e a secretária de Estado começou a fazer a rodagem internacional, acompanhando o ministro nas reuniões do Eurogrupo e do Ecofin.

Na interpretação de Portas, este era um sinal de duplicidade de Passos e uma prova de que as posições do CDS não eram levadas em conta nas questões essenciais, mas também a "oportunidade perdida" para dar a grande guinada nas prioridades e na relação de forças no Executivo. Apesar do desagrado, o líder do CDS não deu sinal de poder bater com a porta. Esteve nessa noite na sede do CDS, num Conselho Nacional que aprovou 103 coligações autárquicas com o PSD - no qual não disse uma palavra sobre a "bomba" desse dia -, e depois a preparar o congresso. Nada fazia indiciar o terramoto.

Na terça- feira, Portas falou com Passos Coelho em São Bento, ao fim da manhã, e a conversa acabou com o pedido de demissão.

Só depois Portas começou a avisar os seus mais próximos: Pires de Lima, Nuno Melo, Mota Soares e Assunção Cristas foram os primeiros a saber. Todos foram apanhados de surpresa e os restantes dirigentes do CDS foram sabendo aos poucos, em estado de choque. A "decisão pessoal" de Portas foi vista por muitos como uma traição.

À quarta foi de vez
No último ano, por três vezes, tinham impedido que Portas fizesse o mesmo: quando Gaspar anunciou o "enorme aumento de impostos", quando Passos lhe comunicou, por SMS, em cima da hora, que Poiares Maduro e Marques Guedes iam ser ministros, e no dia em que fonte do Governo passou a informação de que Portas teria cedido na questão da TSU dos reformados.

Desta vez, para que ninguém o travasse, agiu sozinho. Pela primeira vez, teve muitas explicações a dar à sua gente.