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Uma crise anunciada

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Porta e Passos no Parlamento, no debate do Orçamento, em outubro: a crise passou, mas a química não voltou

Alberto Frias

Em 2013, a crise no Governo foi eleita pela redacção do Expresso como o acontecimento nacional do ano. Aqui fica o texto de Filipe Santos Costa que resume o que se passou naqueles meses escaldantes. Republicamos o artigo saído na edição do Expresso de 21 de dezembro desse ano.

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

A crise que apanhou todos de surpresa não devia ter surpreendido ninguém - nem Pedro Passos Coelho, nem Cavaco Silva, nem os estados-maiores do PSD e do CDS. Era uma crise à espera de acontecer. A demissão de Paulo Portas foi anunciada a 2 de julho, 24 horas depois da demissão de Vítor Gaspar. Se não fosse naquela terça-feira seria umas semanas ou meses depois. Já podia ter acontecido umas semanas ou uns meses antes.

Entre setembro de 2012 e julho deste ano, quatro vezes Portas esteve à beira da rutura e ponderou abandonar o Governo. Disse-o aos seus mais próximos e chegou a informar o Presidente da República. De todas as vezes conseguiram dissuadi-lo. De cada vez a tensão foi maior, a divergência foi mais pública e a rutura esteve mais perto. A primeira vez foi em setembro de 2012, por causa da TSU - Passos anunciou a redução da taxa para os patrões, com agravamento para os trabalhadores, contra Portas, que avisou que não aceitaria. Não aceitou e fez uma declaração a expor a fratura, Depois de dias de silêncio "patriótico".

Passou um mês. A 15 de outubro, Gaspar anunciou o "enorme aumento de impostos" do Oorçamento do Estado de 2013. A frase, escolhida a dedo, punha o dedo na ferida: o CDS tinha perdido a discussão sobre se a consolidação se devia fazer do lado da receita ou do lado da despesa. Nessa noite, o líder do CDS reúne os seus conselheiros, fala sobre a irrelevância a que o partido estava reduzido no Governo, critica o peso excessivo de Gaspar, enumera as desconsiderações do primeiro-ministro, fala do esgotamento da relação entre ambos e surpreende com um plano: quer demitir-se do Governo, embora o CDS deva manter-se até acabar o programa de ajustamento. 

A reação é unânime: nem pensar. "Não me podem pedir que faça mais do que já fiz", alega Portas. Mas fica.

Ato 3: a demissão de Miguel Relvas, em abril. Devia ser, segundo o CDS, a oportunidade para refrescar o Governo e escolher um ministro da Economia capaz de contrabalançar a omnipresença de Gaspar. Relvas saiu, mas Portas não pôs uma vírgula na remodelação: Passos já estava a caminho de Belém quando o informou, por SMS, sobre quem seriam os novos ministros.

Para Portas, não estavam em causa os nomes mas o método do primeiro-ministro e a sua insistência em destratar o parceiro. Retribuiu faltando à tomada de posse. Cavaco, que conhecia todas as dificuldades de entendimento na cúpula da coligação, acompanhou mais esta. Sabia bem quais eram as "razões atendíveis" invocadas para a ausência de Portas.

Passou mais um mês e o líder do CDS voltou a Belém. Outra vez para apontar uma deslealdade ao primeiro-ministro. A crise de maio chamou-se "TSU dos pensionistas". Portas tinha traçado uma "linha vermelha" contra a contribuição de sustentabilidade das pensões que havia sido anunciada por Passos. Manteve a "linha vermelha" perante a troika, impediu o fecho atempado da 7ª avaliação e a TSU dos pensionistas virou medida descartável. 

Um desfecho que fonte governamental anunciou aos jornais como um recuo de Portas, que teria aceitado "excecionalmente" a medida que antes repudiara. Desmentido pelo 'seu' Governo numa questão de que tinha feito ponto de honra, o líder centrista concluiu que não podia continuar. Cavaco segurou-o.

"Paulo, tu é que sabes"
E foi porque o Presidente e uma mão-cheia de dirigentes do CDS já o tinham travado antes, que em julho Portas não os avisou antes de se demitir. A saída de Gaspar, que vinha sendo preparada há meses, era o momento de virar a página e mudar de ciclo para a segunda metade da legislatura. 

Quando, no final de junho, Passos avisou Portas de que esse momento estava iminente, informou-o também de que queria Maria Luís Albuquerque nas Finanças. O fim de semana de 29 e 30 de junho foi de alta tensão. Antes de partir para o Golfo, Portas reuniu-se com Passos e somou razões contra Maria Luís - seria sempre vista como mais do mesmo - e a favor de Paulo Macedo. Do Bahrain, pediu a Passos que não remodelasse antes do seu regresso a Lisboa.

Na segunda-feira, dia 1, mal aterrou na Portela e ligou o telemóvel, ficou a saber que o caso estava arrumado: Passos já tinha informado Belém. Portas ainda passou por São Bento, a conversa tensa com Passos terá acabado com uma frase como "sendo assim, não tenho condições para continuar". A resposta não terá variado em relação à fórmula que era habitual: "Paulo, tu é que sabes".

Foi a "última oportunidade perdida", disse Portas aos poucos com quem desabafou. Impôs-se uma noite de sono antes de qualquer decisão irrevogável. O resto é conhecido: a vertigem da política, o precipício dos mercados.

A palavra "irrevogável" serviria de travão às tentativas de o fazer recuar. Não serviu. A frieza de Pedro sobrepôs-se à palavra de Paulo.

Em troca do entorse ao dicionário, Portas conseguiu de Passos o que este nunca lhe tinha dado - deu-lhe ouvidos, atenção, peso político, capacidade de influência. E responsabilidade: coordenação económica, reforma do Estado, relações com a troika. Com tudo isto e ainda o amigo António Pires de Lima na Economia, Portas viu Passos retirar-lhe todos os argumentos para manter a demissão. O líder do CDS deixou de ser ministro dos Negócios Estrangeiros em trânsito para ser vice-primeiro.ministro na torre de controlo - e o CDS deixou de ter um pé dentro e outro fora do Governo.

A solução cozinhada à pressão não convenceu Cavaco. Sempre avesso a riscos, o Presidente arriscou: pediu à coligação e ao PS um"compromisso de salvação nacional" sobre o cumprimento da meta do défice para 2014 e sobre um programa cautelar para o pós-troika. Havendo acordo, a coligação ganhava um ano de vida no Governo e o PS ganhava a antecipação das legislativas para 2014. A iniciativa presidencial questionou o sistema, obrigou a negociações e prolongou a incerteza. No fim, o PS saltou e ficaram na fotografia o PSD e o CDS.

Até quando? O susto ficou, o medo há de uni-los enquanto houver troika. Depois logo se vê.