Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

"O veneno para a democracia vem da Europa", assegura Pacheco Pereira

  • 333

O problema da Grécia "não é o Syriza", que a União Europeia pode "esmagar" com relativa facilidade sem com isso resolver problema nenhum, defende Pacheco Pereira

Rui Duarte Silva

Historiador fala da crise europeia ao encerrar as conferências do décimo aniversário do "Courrier Internacional".

Valdemar Cruz

São palavras às vezes duras, são conceitos afirmados com veemência, são posições claras a não deixarem espaço para duplas leituras: a União Europeia está doente, atravessa uma fase de grave conflitualidade com a ideia de democracia, vive dominada por uma burocracia omnipresente e, com os arranjos, sucessivos e sistemáticos entendimentos entre as suas duas principais famílias políticas (PPE e os sociais-democratas), alimenta a negação da política e, por extensão, o afastamento dos cidadãos da participação na vida democrática.

Numa intervenção que melhor se definiria  também como uma aula sobre geopolítica e geoestratégia, pelo modo como equacionou todo um conjunto de conflitos internacionais mal resolvidos, ou nos quais a Europa se envolveu, mas de forma que classificou de errada, José Pacheco Pereira encerrou hoje na Faculdade de Letras da Universidade do Porto as conferências comemorativas dos dez anos do "Courrier Internacional", realizadas ainda em Lisboa, Braga e Évora.

Logo a abrir, e numa espécie de antecipação do que se seguiria, o historiador e comentador politico sublinhara a importância de "não deixar que a palavra Europa seja uma espécie de desejo que não corresponde à realidade". Dita com a autoridade de quem esteve cinco anos em Bruxelas e Estrasburgo como eurodeputado, onde chegou otimista e de onde saiu cético, aquela afirmação abria espaço para todo um outro conjunto de conceitos que se jogam no modo como a UE, na sua origem "um projeto norte-americano",  é percecionada pelos cidadãos e, por oposição, no modo como o seu imaginário é imposto a partir das estruturas dirigentes.

Rui Duarte Silva

Daí ser hoje quase um crime assumir uma qualquer posição crítica em relação à UE, como o referiu Pacheco Pereira ao deixar claro que muitas das suas posições, como as de qualquer conservador defensor do capitalismo e da economia de mercado, são hoje vistas "como radicais" por questionarem as verdades estabelecidas no discurso europeu dominante.

Fonte de não-democracia Temos uma UE, disse Pacheco Pereira, que "é uma fonte de não-democracia". É sintomático, de resto, como referiu o historiador, que "quem mais se tem destacado "nas ameaças à Grécia" seja um socialista europeu, o que conduz de novo à questão de saber qual a utilidade do voto se "a política é a mesma". Em sequência, e ao comentar a iniciativa do PSD de desafiar o PS para submeter as suas propostas à apreciação da UTAO [Unidade Técnica de Apoio Orçamental da Assembleia da República], o historiador sublinhou que tudo isto "contraria os princípios básicos da democracia. As pessoas têm o direito de votarem em quem entenderem, mesmo pagando o preço".

Nesse sentido, acentuou, "o veneno para a democracia vem da Europa". É uma afirmação passível de gerar polémica de retirada para fora de um contexto no qual se explica as infinitas contradições de um processo europeu que, face ao que tem sido a sua evolução nos últimos anos, durante os quais as duas únicas vertentes verdadeiramente reforçadas "foram o Conselho Europeu e a burocracia". Nesse sentido, frisou ainda, "a Europa há muitos anos não decide nada democraticamente".

Estas considerações não podem ser desligadas da análise à situação da Grécia, cujo problema, como acentuou, "não é o Syriza", que a UE pode "esmagar" com relativa facilidade, sem com isso resolver problema nenhum. Os problemas são mais vastos, explicou. A vitória do Syriza decorre de vários fatores internos, aos quais não poderá ser alheio um forte sentimento de identidade nacional, que ultrapassam as clássicas divisões entre esquerda e direita. Os sinais de alarme e radicam antes na constatação dos perigos inerentes à circunstância de a Grécia poder transformar-se num "aliado instável", preocupação muito sentida pelos norte-americanos, mas a que os europeus parecem continuar indiferentes.

Rui Duarte Silva

Quase nada escapou à lupa de Pacheco Pereira, desde as diferentes teses em confronto na origem da CEE, antecedida da Comunidade do Carvão e do Aço, com passagem pela injeção massiva de dinheiro proporcionada pelo plano Marshall após a II Guerra Mundial, até as questões relacionadas com os equilíbrios - agora rompidos - dentro da própria comunidade europeia, as dificuldades e as consequências criadas pela reunificação da Alemanha, decorrente da queda do muro de Berlim, as implicações de tratados como o de Nice, ou as incidências relacionadas com a Constituição europeia.

Guerra na Europa? Um dos dez pontos em que dividiu a sua comunicação, Pacheco Pereira passou pela enumeração de "três casos graves" de política internacional nos quais a UE está envolvida: Síria, Líbia e Ucrânia. Ao deter-se em particular no caso ucraniano, o historiador recordou que estamos em presença de dois países e não de um.

"Há uma parte ferozmente anticomunista e antissoviética, com uma história muito complicada durante a II Guerra Mundial, com milícias que colaboravam com os alemães, e uma outra parte pró-russa, em que a ortodoxia religiosa desempenha um papel crucial. A UE acabou por intervir para "apoiar grupos protofascistas" e com a certeza de que, ao entrar na contenda, iria alienar a parte pró-russa. O que foi feito na Ucrânia, afirmou já no período de perguntas e respostas "é perigoso e irresponsável", e surge como fruto de decisões "tomadas por dirigentes políticos sem grande experiência internacional".

Num continente que sempre viveu marcado por grandes conflitos, e o historiador enumerou vários dos que continuam latentes, mesmo se desconhecidos ou pouco falados, "se a Ucrânia entrar para a NATO", previu, "aproximámo-nos perigosamente de uma Guerra".