Park Place era apenas uma rua de Nova Iorque entalada entre duas artérias que conduzem ao World Trade Center
; na véspera do 11 de setembro
, é o epicentro do debate sobre o Islão nos Estados Unidos.
No sábado, quando passarem nove anos sobre os atentados contra as Torres Gémeas, onde morreram 3.000 pessoas, a polícia irá fechar todo o quarteirão, por causa de um edifício sujo, antigo armazém de casacos, agora uma mesquita que deverá dar lugar a um Centro Comunitário Islâmico que está a dividir o país.
Dois polícias guardam a entrada da mesquita, impotentes quanto a um carro que passa a tarde a dar voltas ao quarteirão, pejado de cartazes coloridos a dizer "América arrepende-te" ou "o Islão não é uma verdadeira religião".
Manifestantes passam de carro na zona
À primeira abordagem o condutor recusa parar, mas volta passados três minutos e mais uma volta, e estende o seu cartão: "Ronald Brock, camiãodaverdadeEUA.com".
E porque é o Islão inaceitável? "Porque não aceitam Jesus como profeta", responde de dentro do carro o homem de boné e barbas brancas. E o profeta deles? "Não é Jesus", diz à Lusa antes de o semáforo abrir, e arrancar para mais uma volta.
"Isto é a América, vê-se de tudo", expira Kamal, segurança da mesquita.
Do lado de fora, passa uma carrinha com vidros escurecidos e a bandeira americana presa no "capot".
Crentes islâmicos passam para rezar
"Já tivemos um a passar aqui com um míssil montado no tejadilho", diz Kamal à Lusa, enquanto recebe com um "salaam aleikum" os crentes que usam o antigo armazém para rezar.
A imprensa pode entrar na sala de orações, mas não filmar ou interpelar os poucos que rezam, num oásis de penumbra e silêncio, constantemente quebrado pelo vozearia e buzinas da rua.
Noutros pontos do país, vários cultos islâmicos foram interrompidos nas últimas semanas por atos de vandalismo.
Um pouco acima na rua, há um muçulmano e a mulher a venderem fruta, e em frente a eles um pequeno ajuntamento de apoiantes da mesquita, dos quais Joshua Wiles, um professor de educação especial de 26 anos, é o mais enérgico.
"Não quero que intimidem [os muçulmanos], quero que fiquem aqui onde compraram o edifício, onde têm o direito de construir, onde a cidade apoiou esse direito", diz à Lusa.
Aproximação da data trouxe o ódio contra americanos muçulmanos
Este ano, afirma, o aproximar do 11 de setembro trouxe um "entristecedor ódio contra os americanos muçulmanos", muito devido às próximas eleições.
Atravessando a rua ao cimo de Park Place, encontra-se numa esquina um solitário manifestante anti-mesquita, segurando de braço erguido uma bandeira americana, que enverga estampada no boné e na t-shirt. Na outra mão segura um cartaz dizendo "Em Deus confiamos".
Thomas conta que, através de um agente reformado do FBI, tomou conhecimento da "agenda secreta" da Irmandade Islâmica: "Converter a América num estado islâmico."
Cita de cor primeira emenda da Constituição, sobre liberdade religiosa. Mas, diz, a lei fundamental proíbe também a apologia da violência e atentar contra o governo, o que está a ser planeado.
"Estou aqui para honrar a América, a Deus, e incentivar as pessoas a voltarem ao Deus dos pais fundadores [dos Estados Unidos], que liam as suas bíblias", afirma.
Khaled vende "Falafel" com vista para o "ground zero", onde ganha forma um novo arranha-céus no lugar que foi das torres gémeas. Há dez anos nos Estados Unidos, este muçulmano diz que nunca assistira a manifestações públicas contra a sua religião.
"A questão da mesquita fez com que muitos mostrassem que não gostam do Islão", diz à Lusa. "É possível que tenham estado a esconder-se".