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“Era muito difícil conseguir dizer: foste tu, rio, o assassino”

Tábua, centro interior do país, ano de 1993. Um passeio no campo acaba em tragédia: cinco crianças e professora do jardim de infância morrem afogadas no rio Alva. Abre-se uma ferida na terra e no interior de muitas famílias. Vinte e quatro anos depois, um fotojornalista é confrontado com a memória dessa ferida e volta a arrepiar-se como da primeira vez. Pelas imagens que captou – e pela fotografia que não conseguiu tirar. “Eu via aquelas crianças e só pensava: podia ser o meu filho, podia ser o meu filho”

Esta fotografia foi publicada em 1993. É a menos chocante de várias: as outras, na igreja com os corpos de crianças nos caixões, estão no arquivo do Expresso. Nunca foram publicadas.

Esta fotografia foi publicada em 1993. É a menos chocante de várias: as outras, na igreja com os corpos de crianças nos caixões, estão no arquivo do Expresso. Nunca foram publicadas.

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António Pedro Ferreira é um dos mais reputados fotojornalistas do Expresso. Trabalha no jornal desde 1985 e foram muitos os acontecimentos mediáticos que cobriu ao longo da carreira. Neste episódio do F5 veio-lhe à memória um momento de enorme dificuldade a fotografar - "tentava focar, mas as lágrimas corriam-me pela cara e eu não conseguia".

1993 - 2007 - 2017

O rio Alva corre hoje como corria há 24 anos, mas a vida de determinadas pessoas não. Num lindo dia de sol aconteceu a pior das tragédias - de um momento para o outro uma aldeia inteira ficou praticamente sem crianças. Seis corpos afogados, seis vidas interrompidas.

Desde 17 de junho de 1993 que o curso daquela água que desagua no Mondego liga mortos aos vivos e vivos a outros vivos - todos tocados pela dor de uma tragédia. As margens de Meda de Mouros transbordaram de mágoa e em 2007 uma equipa de reportagem da SIC pode comprovar que a aldeia não tinha esquecido aquelas crianças - nunca as esquecerá.

Há dez anos ainda existia jardim de infância, hoje está fechado. Cláudia Moura tinha ido ao passeio de escola mas sobreviveu. Ficou na margem com uma outra criança. Até hoje nunca falaram sobre o acidente, quase como se cada um tivesse ficado sozinho de cada lado do rio. Mas a mãe da professora afogada procurou Cláudia - os sobreviventes por vezes precisam uns dos outros. Porquê? Para quê?

De certa forma a inocência dos 4 anos que Cláudia tinha na altura acompanhou-a sempre. Ainda hoje costuma passear junto ao rio Alva com a família e trabalha na área da saúde ambiental. Aquele caudal atravessa-lhe o caminho e ela não se afasta dele. Pelo contrário, é lá que quer acabar.

"Se não foi naquele dia, será noutro".

As redações são espaços concentrados de memórias, cheios de gente e de histórias, de vida e de morte, de amor e de ódio, de emoções e tensões, que tantas vezes acompanham os repórteres para sempre. E para todo o lado.

F5, o novo podcast quinzenal do Expresso, encontra e conta essas histórias, mostrando os bastidores da redação e acrescentando o futuro que cada história teve – que cada vida teve. Como a vida de Cláudia Moura, uma das sobreviventes da tragédia no Rio Alva.

Carregamos na tecla "F5" para refrescar a memória - a nossa, a dos leitores e a das pessoas que foram notícia.

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