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Expresso

A Beleza das Pequenas Coisas

Herman José: “Não posso dizer tudo o que quero. Ainda sou novo para ser velho, mas quando for velhote serei absolutamente insuportável”

Anda há mais de quarenta anos a fazer-nos rir, e o nosso humor não seria o mesmo sem ele. Herman José tem sido genial na arte de subverter e caricaturar o país. Ao longo do seu percurso já teve momentos bons e menos bons, alguns particularmente desafiantes, mas soube reinventar-se na TV e fora dela, regressando à estrada e aos espetáculos ao vivo. Foi numa pausa das gravações do seu programa “Cá por Casa”, na RTP1, que Herman nos recebeu na sua quinta, em Azeitão, o seu refúgio e laboratório criativo. Uma conversa que revisita o seu passado, desfaz mitos, revela algumas mágoas e alegrias e os seus prazeres e luxos. “A felicidade está imenso nos bens materiais. Mas apaixonei-me sempre por pessoas tesas.” Herman garante que respeita as pessoas que têm fé, mas considera que sofrem muito mais na vida: "A divindade nunca se mexeu para nada". Herman, o verdadeiro artista, para ouvir neste episódio do podcast “A Beleza das Pequenas Coisas”

Bernardo Mendonça

Bernardo Mendonça

Entrevista e ilustração

Jornalista

João Santos Duarte

João Santos Duarte

Edição de som

Jornalista

Carlos Paes

Carlos Paes

Grafismo animado

Infografia

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Herman José chegou à porta da sua quinta, em Azeitão, de fato de banho, acabado de sair da piscina, onde estava acompanhado da sua mãe, Odete. O dia convidava a mergulhos e a banhos de sol. O humorista contou-nos que é naquele lugar, com vista para uma serra verdejante, onde desliga por completo da ‘pressão das pessoas’ e de se sentir ‘constantemente observado’. “Uma figura pública nunca é verdadeiramente livre. Se for tomar um café ao centro [de Azeitão] e me sentar numa esplanada tenho talvez... 12, 13 ou 14 pessoas a fingirem que não me vêem para não me incomodar. O que ainda dá mais trabalho do que quando me dizem: ‘ai, posso dar-lhe um beijinho?’”

Herman confessa que há poucas pessoas que o fazem rir. E se o fazem é de forma completamente involuntária. A sua mãe é uma delas. Reconhece na maioria dos humoristas portugueses a reprodução de muitas coisas que já fez. “Mas são todos concorrentes que eu respeito muitíssimo. E quero que todos tenham acidentes de automóvel muito grandes para eu ficar sozinho no mercado”, ironiza.

Sobre o passar dos anos, comenta que ainda tem muito por cumprir e conhecer e que, por vezes, se sente mais novo do que a imagem que vê refletida no espelho ou no pequeno ecrã. “Às vezes estou a cantar ou a fazer qualquer coisa na televisão convencido que estou lindo. Mas quando vejo a minha imagem peço para porem o plano mais longe para não se perceber que já não tenho 40 anos...”.

Ao fazer um balanço sobre o passado deixa escapar: “Arrependo-me de milhões de coisas. Quem diz que voltaria a fazer tudo igual é atrasado mental. Não teria cometido muitos erros, mas a gente sabe lá que os está a fazer quando toma certas decisões...”.

Acerca do período em que o seu nome esteve envolvido no processo Casa Pia chega a dizer: “Estás numa esplanada, vem uma camioneta para cima de ti, parte-te todo e tens duas opções — ou morres ou tentas voltar a andar com fisioterapia. [É um sentimento de se] ser atropelado por um sistema disfuncional como o português, não fiscalizado, dominado por inimputáveis sem se poder fazer nada. (...) Vivemos para todos os efeitos num Estado quase fascista em certos aspetos.”

Herman revela ainda algumas das musicas que o acompanham e os seus prazeres. Conta ainda que com a idade está a descobrir um gosto especial, o de dizer (quase tudo) o que lhe vem à cabeça. E que no futuro será mais 'insuportável'. "E isso diverte-me imenso". Spoiler Alert: A dado momento entra muito brevemente nesta conversa a sua mãe, Maria Odete von Krippahl. Para ouvirem neste episódio do podcast “A Beleza das Pequenas Coisas”.