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Expresso

A Beleza das Pequenas Coisas

Herberto Smith: “Ser negro neste país é ainda carregar um manto pesado. Mas ser-se português não é sinónimo de se ser branco”

São os jovens negros apagados do retrato, arrumados no gueto, ignorados ou malfalados, que vivem na pele a ‘thug life’, o racismo, a falta de emprego, a marginalidade, aqueles que cativam a atenção da lente do fotógrafo Herberto Smith. “Quero encontrar o lado vulnerável, belo e humano desses rapazes dos bairros problemáticos. Dar-lhes rosto, voz e ‘empoderá-los’, trazer-lhes autoestima, integrá-los e tirá-los dos guetos. Ainda vou erguer um exército de criativos africanos.” Uma conversa que vai fundo na experiência de se ser negro em Portugal, pela voz de um fotógrafo que nos anos 90 viveu no epicentro da noite, da moda e que hoje tem uma missão maior: retratar e rescrever a memória africana em Portugal. Para ouvir neste episódio do podcast “A Beleza das Pequenas Coisas”

Bernardo Mendonça

Bernardo Mendonça

Entrevista e ilustração

Jornalista

João Santos Duarte

João Santos Duarte

Edição de som

Jornalista

Carlos Paes

Carlos Paes

Grafismo animado

Infografia

Assinar no iTunes: http://apple.co/2mCAbq2
Assinar no Soundcloud: http://bit.ly/2nMRpRL
Se usar Android, basta pesquisar A Beleza das Pequenas Coisas na sua aplicação. Para ouvir no site basta clicar na seta laranja que se encontra no topo deste texto ('listen in browser')

Antes de ouvir, leia:

Herberto Smith, fotógrafo e agitador cultural, nasceu na Guiné-Bissau e cresceu em São Tomé, mas nos anos 90 veio para Lisboa e acabou por viver intensamente a noite e a moda. Foi barman do Frágil e modelo fotográfico até encontrar a fotografia.

A sua lente já registou o rosto da maioria das figuras públicas portuguesas, da política às artes, mas o que dá um prazer maior a Herberto Smith é criar palco aos jovens africanos dos bairros periféricos da cidade, os ‘favelados’ de Lisboa — como os do Bairro 6 de Maio, na Amadora — para se erguerem. “Vida dura, mata, mata”, canta Vado Mas Ki Ás, um dos jovens fotografados por Herberto.

Herberto é um contador de histórias. E um contador de vidas, algumas desconcertantes, interessantes e surpreendentes, fora do estereótipo, que não costumam vir nos jornais, além das notícias de crime. O projeto do audioblogue “Afrolis” conta algumas delas. A sua conta do Instagram e o seu blogue contam outras tantas com que ele se cruza diariamente. “Para mim a fotografia vai além do simples clique. É uma forma de me relacionar com as pessoas e quebrar barreiras e preconceitos. Começa por uma abordagem estética, mas quero perceber quem são aquelas pessoas que fotografo. Abro um espaço para descobrir e me surpreender.”

Herberto está apostado em desconstruir o estigma da cor de pele. “Eu não olho para as pessoas pela cor. Sei que a questão da raça é uma construção. Mas o seu efeito é bem real. É até difícil explicar a alguém que não é negro o que é a experiência de ser negro em Portugal...”

O fotógrafo assume que, apesar de viver numa espécie de "bolha artística", não está imune ao racismo, que diz ser endémico e sentir-se a todo o momento na rua. “Eu só penso em mim como homem negro, quando estou exposto ao olhar de outros ou da polícia. Quando caminho pelo meu bairro em Campo de Ourique tenho a consciência de que as pessoas não olham para mim apenas como um homem. Mas sim como um homem negro e alto. O que levanta questões. O que fará aqui? Faz parte da natureza humana. Tem de se arranjar estratégias para lidar com isso sem se enfatizar o [nosso] trauma. Mas o trauma acaba por ficar lá.”

Uma conversa para abanar consciências e ideias feitas, com música e outras surpresas sonoras à mistura, para ouvir neste episódio do podcast “A Beleza das Pequenas Coisas”.