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Expresso

A Beleza das Pequenas Coisas

A formidável história da eterna diva do circo que um dia deu uma tampa a Júlio Iglésias

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Karley Aida foi tudo no circo. Contorcionista, trapezista, cantora e amestradora de animais: de pombas, cavalos e leões. Filha de artistas ambulantes, nasceu num dia florido debaixo das bancadas da assistência, no local dos bilhetes mais baratos do Circo Félix. Um circo-berço feito de chapa e pano cru que lhe ditou o destino. Aos três anos, estreou-se num número de acrobacia levando os pés à cabeça, e nunca mais parou. Foi artista de mil e um talentos mas nunca foi criança. Tinha 14 anos quando recebeu o primeiro brinquedo, um peluche atirado para a arena por um elemento do público. Karley viveu várias vidas na sua longa viagem de caravana. Foi cantora, dupla de cinema, e no circo chegou a sofrer um grave acidente no México, ao cair do trapézio voador. Mas não desistiu de voar. Aos 74 anos, esta mulher-espectáculo conta como se alcança o impossível com disciplina e sonho. Senhoras e senhores, sentem-se na primeira fila para ouvir este episódio do podcast “A Beleza das Pequenas Coisas

Bernardo Mendonça

Bernardo Mendonça

Entrevistas e ilustração

Jornalista

João Santos Duarte

João Santos Duarte

Edição sonora

Jornalista

Para ouvir os podcasts do Expresso nos seus dispositivos móveis e no computador, copie e adicione o seguinte URL à sua aplicação de podcasts: http://bit.ly/1TnvM3J

Há vidas que parecem ficção. E há histórias contadas que de tão ricas, emocionantes, duras e extraordinárias nos fazem descolar para realidades que nunca imaginaríamos possíveis. Esta é uma conversa especial, torrencial e empolgante com uma das maiores artistas portuguesas de circo, que correu o mundo a exibir as suas mil e uma artes de palco.

Karley Aida tem o circo a correr-lhe no sangue, é uma mulher-espetáculo e mulher-coragem que, aos 74 anos, nos conta as muitas peripécias e alegrias que viveu, e as dores e mágoas que superou no circo e na sua vida pessoal. Foi menina prodígio logo aos três anos, em acrobacias para abrilhantar os números do Circo Félix, do seu pai Vítor Felix. “Ensinou-me em cima de umas cadeiras a fazer contorcionismo. Eu dobrava-me, punha os pés nos ombros, depois na cabeça e apanhava o lenço com a boca na última cadeira. Depois, chegava a altura em que me lembrava que me iam dar tostões e ficava à espera no meio da pista. Chamavam-lhe o pinga-pinga. E eu, pequenina, dizia: ‘Eu quero o pinga-pinga aqui!’ Um dia não me deram o pinga, e pus-me a chorar: ‘Oh pai, os cabões não me dão o pinga’. Ficou um episódio famoso entre os artistas da altura. Recordo esse episódio com grandeza pela luta que eu tive quando era garota. Porque fui abandonada pela minha mãe aos três anos. Ela abandonou-me quando se apaixonou por um ilusionista que lá estava, dizem...”

Anos mais tarde, o Circo Félix foi pelos ares após um vendaval, e junto com o pai e a irmã mais nova Karley Aida teve que sobreviver como artista saltimbanco, trocando a sua arte por esmola. Chegou a ser presa, passou fome, fez-se mulher sozinha, mas aprendeu a viver de cabeça erguida. E a lutar para ser a melhor. E foi. Com a irmã ganhou uma medalha de ouro, em 1963, no Grande Festival Internacional de Circo, na Hungria, e venceu inúmeros festivais de música como cantora romântica. E deu tanto nas vistas, pela sua voz e beleza, que foi convidada para fazer coros para Júlio Iglesias. A colaboração terminou precocemente, quando Iglesias, eterno mulherengo, tentou arrastar a asa para cima de Karley. “Acabaram logo as cantorias com ele”, conta.

Mas há mais. Muito mais para ouvir. Como o grave acidente que sofreu no México quando foi empurrada por um colega do trapézio voador e quase morreu, ou como ajudou a irmã a fugir com o namorado italiano num episódio trágico-cómico passado em Barcelona.

Histórias maiores do que uma só vida contadas neste episódio pela voz de Karley Aida, que hoje ensina as suas artes de palco aos jovens moradores do problemático Bairro Padre Cruz, em Lisboa. O circo como foguetão para o futuro e um escape mágico das duras realidades que muitos daqueles rapazes e raparigas vivem. “Viva o Circo! O circo é cultura!”

Para ouvir este episódio, basta clicar na seta que se encontra no topo deste texto ou descarregar no Soundcloud.

O programa “A Beleza das Pequenas Coisas” conta com música dos Budda Power Blues.