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Expresso

A Beleza das Pequenas Coisas

Lela, a madame das noites picantes de um dos mais antigos bares de alterne portugueses

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Maria Amélia , por todos chamada de Lela, tem 57 anos e é uma brava da noite. Há praticamente quatro décadas que oferece companhia aos homens que a procuram e é hoje a capitã de um dos bares de alterne mais antigos do país, o Piri-Piri, em Lisboa. Nesta conversa garante ter sido sempre mulher de um homem só e relata-nos as manhas e os segredos desta pequena barca do prazer situada no número 61 da Rua da Glória, junto à Praça da Alegria. Onde o inferno é estar só

Bernardo Mendonça

Bernardo Mendonça

Entrevista e ilustração

Jornalista

João Santos Duarte

João Santos Duarte

Edição sonora

Jornalista

Carlos Paes

Carlos Paes

Motion graphics

Infografia

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Esta conversa foi feita a bordo do bar Piri-Piri, um lugar de desejo, de confissões e fantasia que abriu portas em 1943 e continua a resistir aos tempos, às crises e às vontades. Porque a busca do amor e do prazer nunca passa de moda. Consta que o Piri-Piri é uma das casas de alterne mais antigas do país. Maria Amélia, ou simplesmente Lela, proprietária desta embarcação garante que não há outra com tanta(s) história(s). E que é uma réplica de outro Piri-Piri que abrira anos antes em Lourenço Marques, Moçambique. A funcionar como um porto de abrigo picante para os combatentes portugueses, que ali embarcavam em busca de aconchego, emoção e escape.

Lela já viu e ouviu muito nesta vida, e tem muito para recordar. Há 38 anos que o Piri-Piri é a sua segunda casa. Debutou nestas lides com 17 anos. "Não resisti a este lugar. Parece que tinha vivido aqui noutras vidas. Diziam que era das mulheres mais bonitas de Lisboa. Chamavam-me a 'cigana da Praça da Alegria', tinha uns cabelos negros muito longos até às ancas e tinha muitos pretendentes. Cheguei a ter sete que me esperavam à porta do bar. Na primeira noite em que fiz alterne os homens pagaram-me 40 cocktails. Eu recebia 25 tostões de comissão por cada bebida. Ganhei um dinheirão."

Considera que a noite é bonita para quem a sabe viver. A sua escola foi feita à mesa do Piri-Piri, de copo na mão a escutar os clientes "juízes, advogados, jornalistas e figuras da televisão e da alta sociedade" com quem partilhou noites longas de conversa. Lela ri com gosto ao afirmar que o Piri-Piri é tantas vezes um misto de confessionário e gabinete de psicologia. Onde os homens chegam para escapar aos cansaços matrimoniais ou alimentar fantasias de uma noite. "Os homens desabafam connosco o que não conseguem desabafar com os amigos deles, nem mais ninguém. Falam das suas taras, dos segredos. É giro. A gente gosta de ouvir. E eles gostam de contar."

E faz questão de mandar ao mar a ideia que fazer alterne é o mesmo que praticar prostituição. "Isto é um bar de alterne. Não é um bar de prostituição. Aqui não se pratica sexo. Este é um lugar para a gente confraternizar. Para conversarmos, trocarmos ideias, rirmos, contarmos anedotas, brincarmos à mesa com um copo, ou dois, ou mais...”. O negócio é mesmo as comissões que se praticam sobre as bebidas. E as manhas que aquelas mulheres têm em pedir garrafas de champanhe com conteúdo aldrabado, para não se embriagarem. "Tantas vezes o que vem lá dentro é Ginger Ale ou Água das Pedras...".

Patroa e amiga das mulheres que trabalham no seu estabelecimento é tantas vezes, tantas noites, a conselheira e a confidente dos clientes que a visitam. E que querem passar um bom bocado, em boa companhia. Onde por vezes há espaço para o romance. "Já casei aqui mais de 100 mulheres. Que se envolveram com os clientes. Mas esse não é o meu negócio. O que elas fazem com eles fora de portas não é comigo. Não tenho nada a ver com isso.” Mas o que fica desta conversa não são apenas os episódios risíveis, nem o erotismo e o lado maroto associado ao alterne. (Há uma história em especial, relatada neste episódio, que inclui coelhinhas, champanhe e cenouras...).

O que fica mesmo desta conversa é o amor. O amor que Lela ainda tem pelo marido há quase 40 anos, apesar de trabalhar num bar com muito picante. E nem foi por paixão que se envolveu com ele. Mas por capricho. Ele era um cliente mulherengo, de dentes bonitos e penteado certinho, o perfeito bom malandro.. Mas Lela, que é amante do jogo e do risco, arriscou casar-se com ele e (o amor) venceu. "Sempre fui mulher de um homem só. Apesar de trabalhar num bar de alterne. Casei virgem. Mesmo. E não são as escapadinhas dele que me afligem. Há confiança, sentimento e companheirismo entre nós. Vamos à pesca juntos, quando chego a casa depois de sair do bar ele tem o jantar preparado para nós. Ele é meu amigo. E se lhe doi um dente ou outra parte do corpo, é como se me doesse também. É amor. Somos duas partes da mesma peça."

Para ouvir este episódio, basta clicar na seta que se encontra no topo deste texto ou descarregar no Soundcloud.

O programa “A Beleza das Pequenas Coisas” conta com música dos Budda Power Blues.