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Expresso

A Beleza das Pequenas Coisas

Sérgio Praia, o ator que se atreve a ser António Variações

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Prepare-se para ver António Variações como nunca o viu. Ou melhor, o ator Sérgio Praia vai interpretar no teatro o inventor da pop nacional e ajudar a deslindar o mistério que envolveu a vida e a música do cantor e barbeiro com nome de santo e obra de génio. A peça “Variações, de António”, com texto e encenação de Vicente Alves do Ó, tem estreia marcada para dia 24 de junho no Teatro-Estúdio Mário Viegas, em Lisboa e recria um dia na vida de António um ano antes da sua morte. Este é o mote para uma conversa íntima e emocional com Sérgio que promete surpreender e inspirar. Corações ao alto para ouvir este episódio do podcast “A Beleza das Pequenas Coisas”

Bernardo Mendonça

Bernardo Mendonça

Entrevista e ilustração

Jornalista

João Santos Duarte

João Santos Duarte

Edição Sonora

Jornalista

Carlos Paes

Carlos Paes

Motion Graphics

Infografia

Para ouvir os podcasts do Expresso nos seus dispositivos móveis e no computador, copie e adicione o seguinte URL à sua aplicação de podcasts: http://bit.ly/1TnvM3J

Este episódio arranca com a dicotomia anjo e diabo. Sérgio recusa a resposta mais fácil e politicamente correcta e arrisca dizer: “Eu normalmente oiço mais o diabo. Porque acho que o diabo me dá mais possibilidades. Para mim é mais apetecível, gostaria de o representar mais. Acho que ser anjo é um caminho só. E muita gente faz-se passar por ‘songa-monga’ e não é...” O actor vê o mesmo lado errante em Variações. “Eu acho que ele era mais diabo [que anjo]. Mas atenção... um diabo com asinhas [de anjo]. “A vida precisa de um pouco de tudo e há que apimentar as coisas.”, afirma Sérgio.

Está dado o ponto de partida para uma conversa bem condimentada que se fez com verdade, coração, sem máscaras ou fugas. Com uma entrega rara. A generosidade é certamente um dos predicados de Sérgio Praia. Dele e de Variações que tanto nos deu e abriu novas possibilidades para a música e para as mentalidades nacionais.

Mas os pontos em comum não ficam por aí. Além das óbvias semelhanças físicas, Sérgio, de 38 anos, também tem um amor profundo por Amália desde criança e, tal como Variações, teve de escapar muito jovem da terra onde nasceu [a praia do Furadouro, em Ovar] para com uma mochila às costas perseguir um sonho. Passou por apertos económicos, trabalhou nas obras e num supermercado, e chegou a pedir ajuda a amigos para ter algo no prato, mas nunca vacilou. Como Variações. “Das coisas que mais me apaixonaram no António foi quando percebi que ele era muito focado e que tinha um objectivo muito concreto, com que sonhara toda a vida. E nunca desistiu dessa voz interior que tantas vezes o empurrava para a frente. Acho que o António é muita coisa, cada pessoa terá uma interpretação dele, mas a partir da altura em que o comecei a descobrir um bocadinho mais, encontrei este foco na vida que tem a ver com o que eu penso em relação ao meu percurso, o meu caminho, aquilo que ando a fazer aqui até chegar à altura de me ir embora.”

No ano passado Sérgio representou em palco Theo van Gogh, irmão do pintor Vincent van Gogh. E sabe bem que tem desta vez uma tarefa difícil e ingrata pela frente, ao representar o lado B do inimitável intérprete de “O Corpo é que Paga” em “Variações, de António” que levará a cena no Teatro-Estúdio Mário Viegas. Uma co-produção da Buzico! Produções Artísticas e do São Luiz Teatro Municipal. (De 4ª a Sábado às 22h00, e domingo às 17h30, desde 24 de Junho a 10 de Julho.)

Sérgio propõe dar a conhecer o lado mais íntimo do artista para nos ajudar a deslindar o mito sobre quem era o António por trás do artista Variações, um ano antes da sua morte. Acrescentemos mais uma aproximação entre os dois: Sérgio tem 38 anos, precisamente a idade que Variações tinha um ano antes de falecer a 13 de junho de 1984. “Nunca vou ser [Variações]. Porque é impossível. Mas eu tenho que o descobrir, tenho que escavar, porque há muito mais do que o António histriónico, ou o António que ia ao Trumps [Discoteca gay], ou o António que tinha as suas opções. O António é muito mais. E este espectáculo e esta ideia de trabalho com o Vicente [Alves do Ó] não vem mostrar o lado que as pessoas conhecem do YouTube e da biografia que existe, das roupas, da figura [excêntrica], do performer. Há outro lado dele sobre o qual não se sabe muito e que me interessa mais, apesar de termos acesso a algum material, temos que imaginar um bocado como seria.

O espectáculo é um monólogo e nós estamos a tentar perceber como é que seria ele a falar sozinho ou com os seus fantasmas. Como seria o António em casa? Como seria o António a beber um copo de água? Como seria o António a chorar? Como seria a relação do António com a Mãe [Deolinda de Jesus]? — Que para mim é das coisas mais importantes desta peça. E depois há a outra pessoa que fez a junção dos três, que é a Amália. Que é o meu grande gigante.” Pausa. Sérgio emociona-se. Também os seus fados mudaram a sua vida. E o empurraram para o futuro e o sonho.

De onde vem esse amor? “Vem da minha infância. Vem da altura em que eu sonhava sair dali da praia do Furadouro, e acho que me 'encontrei' com o António um bocadinho por aí. Recordo-me que quando era miúdo e fazia playbacks da Amália com a escova dos cabelos da minha mãe fazia-o a pensar longe, e não na minha terra, ou na terra que vinha a seguir. Pensava sempre ‘depois de Portugal, depois de Portugal’. O António também. Estas pessoas que são maiores do que o próprio tempo têm isso, elas não querem cantar só aqui. E eu quando falo [para os outros] gosto de pensar que quem está na China poderá ouvir-me.”

Mais tarde Sérgio revela a urgência com que vive cada dia que passa — agora que está à porta dos 40 anos — refere os seus prazeres maiores, os ídolos musicais (e os temas que tantas vezes o ajudam dançar em cima das dores e problemas), a eterna busca do amor e o gosto pelo samba e pelos tambores a soarem no seu corpo. Este é pois um episódio feito de muitas partilhas ao som de Variações e de tantos outros músicos. Para ouvir e sentir.

Para ouvir este episódio, basta clicar na seta que se encontra no topo deste texto ou descarregar no Soundcloud.

O programa “A Beleza das Pequenas Coisas” conta com música dos Budda Power Blues.