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Expresso

A Beleza das Pequenas Coisas

David, o anão que quer ser o galã da novela das seis com Soraia Chaves

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Há uns meses, uma multidão de amigos juntou-se para comprar uma moto4 por ocasião dos 46 anos do ator David Almeida. "Vamos dar um motão para o anão" foi uma iniciativa emocionante que o ajudou a superar as limitações físicas e a deslocar-se melhor na sua cidade. E foi a prova de que David é amado por um enorme grupo de pessoas. Carismático, bem-humorado, sarcástico, talentoso e, acima de tudo, um anão com um coração de gigante de quem é fácil gostar. Já trabalhou com alguns dos maiores nomes do cinema, do teatro e da televisão. Mora na Bica, em Lisboa, na companhia da sua gata Piaf e sonha um dia representar o galã de uma telenovela. Em julho estará presente no festival NOS Alive para contar a história dos anões. Uma conversa desbragada, sem o aborrecimento do politicamente correto, para ouvir neste episódio do podcast “A Beleza das Pequenas Coisas”

Bernardo Mendonça

Bernardo Mendonça

Entrevista e ilustração

Jornalista

João Santos Duarte

João Santos Duarte

Edição sonora

Jornalista

Carlos Paes

Carlos Paes

Motion graphics

Infografia

Para ouvir os podcasts do Expresso nos seus dispositivos móveis e no computador, copie e adicione o seguinte URL à sua aplicação de podcasts: http://bit.ly/1TnvM3J

Este episódio dispara com uma cantiga sobre a história de um anão. Uma versão livre do clássico tema de Tony de Matos — “Sou romântico”. Uma canção-paródia que David inclui no seu espectáculo de stand up comedy sobre anões a que poderá assistir no dia 8 de julho no Festival NOS Alive.

Está dado o mote para uma conversa bem disposta, com muita partilha, sarcasmo, coração, lucidez e nada, nada politicamente correta. É aguentarem-se à bronca e conhecerem melhor a vida, o percurso e as escolhas deste ator que já trabalhou com nomes consagrados como João César Monteiro, Manoel de Oliveira, António Pedro Vasconcelos, Raul Rouiz, Luís Miguel Cintra, Herman José, entre tanto outros.

David esteve para ser advogado, mas uma noite, nos idos anos 90, enquanto bebia uma cerveja no Bairro Alto, em Lisboa, foi convidado para fazer teatro. O encenador procurava alguém com as suas características físicas — tinha de ser um anão. David aceitou o desafio, era um sonho antigo, e estreou-se na peça “Lovecraft – Acordei Bicéfalo”, com encenação de Duarte Barrilaro Ruas. Em palco surgia como uma estranha e exuberante criatura, numa história inspirada na obra de Frankenstein. “Vieram ao encontro do meu sonho. Percebi logo é isto, é mesmo isto que quero fazer o resto da minha vida. Senti a magia do palco e contei logo aos meus pais que já não seria advogado. Tive receio da reação deles, mas aceitaram bem. A partir daí nunca mais parei”, conta nesta conversa.

Mais tarde experimenta o cinema pelas mãos de João César Monteiro no filme “As Bodas de Deus” (1999) onde foi um exasperado Presidente da República. Conta a forma particular como foi convidado: “Trabalhar com o João César Monteiro foi das melhores coisas da minha vida. Ele contratou-me numa dada tarde. Durante essa tarde ligou-me sete vezes. Quatro dessas vezes eram para dizer que eu ia entrar no filme, três delas para dizer que afinal eu não ia entrar. Era uma pessoa superinstável e não sabia o que queria. Mas foi maravilhoso. Eu tinha três sonhos na vida como ator: No cinema era trabalhar com o João César Monteiro, em teatro com o Luís Miguel Cintra e na televisão com o Herman José. E aconteceu."

David conta ainda outro delicioso episódio em foi abordado na rua por César Monteiro, junto ao café A Brasileira, no Chiado. “Olhe, David, era para o avisar de que vou fazer a "Branca de Neve", mas não tem anões. Por isso você não pode entrar’”. E como se sabe, não houve anões nem nada. O filme foi exibido a negro, sem imagens.

No pequeno ecrã, David já entrou numas quantas telenovelas. Mas nunca chegou a cumprir um dos seus sonhos — ser o galã do enredo. E porque não? “Sou crítico [em relação às escolhas dos atores para as telenovelas]. Uma vez estava a falar com a Soraia Chaves e disse-lhe: ‘Uma coisa que ia dar imensa audiência na televisão era, por exemplo, eu fazer de marido da Soraia Chaves. Quero dizer com isto o quê? As pessoas não são nada preconceituosas e quando veem a diferença sensibilizam-se. Eu vejo isso na rua. As pessoas têm atos de carinho maravilhosos comigo. Chegam a dizer-me que quando me veem a representar nem reparam que sou anão. Isto é maravilhoso. É lindo. E quando disse aquilo à Soraia ela admitiu: ‘Tens razão’. E é verdade!”

Assume-se como sedutor. Haverá coisa melhor na vida do que manter sempre o encanto e a paixão pelos outros? “Sou galanteador. Claro que sou. Tenho o meu charme. Há quem pegue e há quem não pegue. A minha primazia é o humor, o escárnio, a ironia. E é por aí que as levo. Ou não”.

Corações e emoções ao alto neste episódio quando David assume que está com maiores limitações físicas e recorda o momento em que uma multidão de amigos e conhecidos se juntou para lhe oferecer uma moto4 para o ajudar a deslocar-se na cidade. A campanha tinha o divertido nome “Vamos dar um motão para o anão” e tornou claro que David é, acima de tudo, bom tipo, bom amigo e companheiro e que há uma comunidade de afetos que o estima e se preocupa com ele. “Se há coisa que eu prezo na vida são os amigos. E eu tenho amigos que são tudo para mim e não me deixam. Cada vez estou com menos capacidades físicas, daí o aparecimento da moto que me emocionou imenso. Sinto-me muito amado, acarinhado.”

Mas há muito mais para ouvir neste episódio: os ódios de estimação de David, os seus heróis, as suas dores, os seus maiores sonhos, os seus (inusitados) gostos musicais e até... a participação especial de Eládio Clímaco a apresentar a história dos anões. Uma coisa é certa, tem aqui uma boa conversa com um entrevistado sem rodriguinhos ou papas na língua.

Para ouvir este episódio, basta clicar na seta que se encontra no topo deste texto ou descarregar no Soundcloud.

O programa “A Beleza das Pequenas Coisas” conta com música dos Budda Power Blues.