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Expresso

A Beleza das Pequenas Coisas

Ouçam esta voz de sereia e de mar que celebra a música de Carlos Paredes

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Na infância, a cantora e atriz Mariana Abrunheiro era chamada ‘andorinha’ por ter nascido um dia antes da primavera. Agora, os amigos tratam-na por ‘cantorinha’ por ter voz de pássaro e um (en)canto de sereia que vem do fundo do mar. Depois de atuar com a banda portuguesa mais internacional de sempre – Madredeus – Mariana lança o seu segundo disco, “Cantar Paredes”, uma homenagem inspirada na obra do mestre da guitarra portuguesa que mereceu os aplausos da crítica. Este é ponto de partida para uma conversa doce e muito, muito musical neste episódio do podcast “A Beleza das Pequenas Coisas”

Bernardo Mendonça

Bernardo Mendonça

Entrevista e ilustração

Jornalista

João Santos Duarte

João Santos Duarte

Edição sonora

Jornalista

Carlos Paes

Carlos Paes

Motion Graphics

Infografia

Para ouvir os podcasts do Expresso nos seus dispositivos móveis e no computador, copie e adicione o seguinte URL à sua aplicação de podcasts: http://bit.ly/1TnvM3J

A ilustração deste episódio é inspirada na capa do disco de Mariana Abrunheiro – “Cantar Paredes” – que, por sua vez, foi beber a uma célebre fotografia com o mestre da guitarra portuguesa, assinada pelo fotógrafo francês Serge Cohen. Uma imagem bela e marcante onde Paredes está vestido de fato e gravata preta, com os pés mergulhados no mar, enquanto segura um molho de cravos vermelhos. A liberdade para sempre registada num retrato. E na sua guitarra. Ou como escreveu Manuel Alegre: “A palavra por dentro da guitarra/ a guitarra por dentro da palavra”.

O cenário para esta conversa com Mariana foi o restaurante Quermesse, em Lisboa. Estávamos lá para conversar e não para comer (embora o cardápio seja tentador). Enquanto em fundo se preparavam os jantares, Mariana explicava na sua voz doce a razão de ter sido fotografada com um molho cravos à semelhança do mestre: “Para falar de Carlos Paredes seria muito injusto da minha parte não falar de liberdade. Não é por acaso que ele tirou uma fotografia com cravos na mão. Ele era um cidadão atento aos outros e ao que era injusto. Achei essa imagem bonita. E eu também quero ser uma cantora abraçada à liberdade. Quero abraçar com carinho aquilo que foi conquistado pelos nossos pais que lutaram muito para termos um curso superior e uma vida melhor.”

Neste episódio terá oportunidade de ouvir, a meio da conversa, várias faixas deste disco. Um abraço musical com o qual Mariana celebra a obra de Paredes de forma generosa e inspirada, com belíssimas interpretações de sete temas que abrem janelas e horizontes para a música do mestre da guitarra portuguesa. Logo no arranque do episódio, Mariana explica a razão deste seu disco: “[O Carlos Paredes] fazia parte da minha banda sonora, dos meus dias. Também sou de Coimbra como o Paredes, e a música dele faz parte da cidade. Lembro-me de, às vezes, o ouvir quando ia ter com os meus pais ao seu trabalho. Além disso, os seus discos tocavam lá em casa. [Por outro lado] prefiro cantar em português porque é a língua em que penso, em que sonho e que me é mais familiar, com a qual comunico melhor.”

Mas se é unânime que a música de Carlos Paredes é uma obra perfeita, o que sentiu Mariana quando cantou a partir dela? Não teve receio de lhe mexer, ou de lhe acrescentar? – foi-lhe perguntado. “Eu acho que não acrescento. É só uma interpretação. Acho que é saudável nós tocarmos a música dos outros por admiração. Acho que temos muito a aprender com os músicos brasileiros que pegam na música uns dos outros e isso é dar-lhes vida. Eu tinha muitas saudades de ouvir a música de Carlos Paredes. Faz-me confusão ouvi-la pouco na rádio e perceber que há muita gente que não conhece a sua obra.”, respondeu.

Este seu disco-livro ou disco-tesouro editado pela “BOCA –Palavras Que Alimentam” reúne preciosos sons, textos e fotografias de 20 autores e intérpretes com novos olhares contemporâneos para a obra do guitarrista. As músicas surgem no seu disco sem guitarra, adaptadas para voz e outros instrumentos tocados pelos músicos Ruben Alves, Jaques Morelenbaum, Carlos Bica, Pedro Carneiro, Artur Fernandes, Jon Luz, Ana Isabel Dias, David Costa e o Grupo Coral de Portel “Estrelas do Sul”.

Os temas são também a inspiração para textos originais de Miguel Castro Caldas, Adelino Gomes, Gonçalo M. Tavares, Rui Pina Coelho, Domingos Morais, Irene Flunser Pimentel e Daniel Abrunheiro ou para fotografias assinadas por António Coelho, Rodrigo Amado, Eduardo Martins, Duarte Belo, Jordi Burch, João Tabarra, Lara Jacinto, Nuno Ferreira Santos, Roberto Cifarelli e Vítor Garcia. É obra!

É de notar que alguns dos temas de Paredes presentes neste disco incluem letras que haviam sido escritas no passado por Pedro Tamen (‘Verdes Anos’), José Carlos Ary dos Santos (‘Fado Moliceiro’), Pedro Ayres Magalhães (‘Canto de Embalar’) e Zeca Afonso (‘Cantar Alentejano’). E, como se não chegasse, na contracapa há uma foto inédita de Eduardo Gageiro, que fotografou Paredes a bordo de um cacilheiro (dos antigos, que permitiam apreciar o rio de cabelos ao vento), com Lisboa no horizonte.

O que te emociona nos outros? – quisemos saber. “Uma forma diferente de pensar. O universo que transporta [em si]. Tenho uma paixão maior por pessoas que não têm medo de serem miúdos. Que não têm medo do ridículo. E devemos perder esse medo para sermos livres. O medo é que nos põe ridículos. Não é?”. Este deverá ter sido um dos momentos que marcaram a entrevista. Mas existiram outros.

Por exemplo, aquele em que Mariana generosamente canta à capela um dos temas que constituem a banda sonora da sua vida: ‘Redondo Vocábulo’, de Zeca Afonso. Um momento belo, de arrepiar. Em fundo, o som metálico e sincopado dos garfos e facas a serem preparados para as mesas de refeição do restaurante. Um incidente sonoro que, na verdade, quase parecia um instrumento alternativo de apoio à canção. Queremos pelo menos pensar assim...

O que é cantar bem? “Não é só ter técnica. É estar lá dentro [na música e na letra]. Por exemplo, alguns pianistas não são mais importantes do que o piano (mas acham que são). Ou um músico querer mostrar mais as horas que estudou do que comunicar comigo. Por isso quis estudar teatro, para ser melhor intérprete enquanto cantora.”, conta Mariana, que é pós-graduada em Etnomusicologia e frequenta o mestrado de Ciências Musicais.

Uma coisa é certa. A crítica tem aplaudido com gosto “Cantar Paredes”. E nós também. Sobre ele, o jornalista Manuel Halpern escreveu na revista “Visão” que era “um dos mais interessantes discos portugueses de 2015, inserido num precioso livro". E o musicólogo Rui Vieira Nery considerou ser “uma das propostas artísticas mais originais e mais consistentes da Música Popular Urbana portuguesa dos últimos tempos."

No final, Mariana chega a revelar dois dos seus guilty pleasures da pop. E cantarola um deles. Que tema foi? Terá de ouvir este episódio.

E se quiser assistir ao vivo à interpretação que Mariana faz dos sete temas do disco “Cantar Paredes” não perca no próximo dia 25 de maio (quarta-feira) o concerto de apresentação no Teatro Cinearte A Barraca, às 21h30, na companhia do seu companheiro musical de sempre – Ruben Alves. Além de mais alguns convidados-surpresa.

Dois meses depois, esta dupla apresentará a 3 de julho, em estreia absoluta um novo recital – uma encomenda especial para celebrar os 60 anos da Fundação Calouste Gulbenkian.

Para ouvir este episódio, basta clicar na seta que se encontra no topo deste texto ou descarregar no Soundcloud.

O programa “A Beleza das Pequenas Coisas” conta com música dos Budda Power Blues.